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AS MÁQUINAS DO VIAJANTE DO TEMPO

Por Ronald Polito


Quando no futuro for escrita a história do Brasil desses últimos anos, talvez seja necessária uma denominação específica para o período de 2019 a 2022. Digamos: “Os anos grotescos”, um dos piores momentos da malfadada República em nosso país. A mesma necessidade ocorreria para um olhar sobre a história mundial, e aqui poderíamos recuar para antes de 2019 e, possivelmente, ir para bem depois de 2022. Algo como: “A era do retrogresso”. Para quem já viveu algumas décadas neste mundo e pensou ter visto tudo, o tempo presente surpreende por seu caráter particularmente aterrador e distópico.


Pelo menos, o historiador do futuro, soterrado pela montanha babilônica de registros que nossa época produz, terá uma “fonte” para lá de inusitada, essas Charges escritas, de Francisco dos Santos, que funcionam como um sismógrafo para quem quer se prevenir do tremor constante que o vitima.


O foco de Francisco é, principalmente, o Brasil, esse “país do passado”, mas sem deixar de mirar o contexto mundial, tão igualmente nefasto e retrógrado. Estamos vivendo tempos bizarros, aberrantes, um desafio para qualquer perspectiva, não otimista ou pessimista, mas simplesmente realista das coisas. Para alguém com esse perfil, neste momento, parece que todas as saídas estão bloqueadas.


É tão grandiosa e multifacetada a avalanche diária de notícias absurdas em todos os planos imagináveis, que o mais difícil é selecionar dessa massa monstruosa aquilo que poderia ser seu suprassumo. Essa tem sido a tarefa a que Francisco vem se dedicando desde 2019, quando teve a feliz ideia de criar um tipo de “Diário do desastre” e que agora chega ao seu quarto e último conjunto.


Os diversos comentadores dos volumes já publicados esmiúçam vários aspectos importantes: uma nova concepção do que seja charge (aqui apenas escrita), os vários sentidos de charge (caricatura, carga), a dimensão literária de todo o trabalho (quando a charge é máscara de poesia, particularmente visual), a natureza fundamente política das intervenções (a que eu acrescentaria cultural, social, econômica etc.), as armas da ironia e do humor como possibilidades de respiração no meio da asfixia etc. Não me parece ser o caso de retomar essas e outras chaves de leitura dos comentadores, problematizá-las ou estendê-las. Penso em me deter sobre quais seriam os padrões mais recorrentes das operações realizadas nesses volumes, mas priorizando naturalmente exemplos deste último. Regra geral, o “método” adotado por Francisco privilegia três procedimentos a que poderíamos denominar: “deslocamento”, “distorção” e “comentário”.


Um bom e macabro exemplo de “deslocamento” é a primeira charge do livro: “É evidente que Ratzinger sabia”. Deslocamento aqui está sendo entendido especificamente como o gesto de retirar de seu local de origem uma sentença veiculada pela mídia e reposicioná-la em outro lugar para que ela seja submetida a novas significações: destaque, ampliação, aprofundamento, revelação, repetição que evite o esquecimento. Francisco encontrou exatamente essa sentença sobre Ratzinger nas matérias da imprensa sobre os abusos que o norte-americano Arthur Budzinski sofreu nas mãos do padre Lawrence Murphy. Mas agora a sentença, ocupando toda a mancha gráfica da página, dá mesmo a exata medida de como e quanto ele sabia, não há qualquer espaço para dúvida, o saber é tão completo quanto o espaço em que se revela. E, claro, “Ratzinger” pode ser substituído praticamente pelo nome de qualquer um dos outros dominadores do mundo. É óbvio que todos sabem. E, o pior, nem se trataria propriamente de uma maldade intrínseca, mas de autoconvicção acerca de sua própria superioridade, assim justificável… Há outros exemplos de “deslocamento” no livro, como “A QUALIDADE DA DEMOCRACIA” (uma rápida pesquisa na web constatará que esse é um mantra com centenas de milhares de ocorrências); ou “brota na minha casa” dialogando com a página seguinte, “¿Qué putas me pasa contigo, má?” (ambas retiradas de letras de música); “Mais de 80 indiciados” (notícia de 26/10/2021); “Petrobras registrou lucro de R$ 31,1 bilhões no terceiro trimestre de 2021 e decidiu dobrar os dividendos dos acionistas, que chegarão a R$ 63,4 bilhões no ano” (notícia de 29/11/2021). Cabe ao leitor encontrar outros escondidos, como o * de Caetano.


Em menor número, outras charges primam pela “distorção”. Partindo de notícias transmitidas por jornais e tv, é possível, por exemplo, alterar as declarações dos envolvidos e formular uma nova declaração muito mais provável, verdadeira, que teria ocorrido em algum gabinete sem aparelhos de escuta ou testemunhas: “Vossa excelência vazou um trecho do relatório, o combinado era vazar o relatório inteiro”. Em outra charge, numa única página, “Eu queria tirar fotos dos rostos de cada um dos Srs. aqui […]” (declaração de Eduardo Bolsonaro, em 2018, sobre a distância de seu pai com respeito ao Centrão) combinado com “Advinha quem está sentado no colo do Centrão…” (a montagem surge como um caso híbrido, uma mescla de operadores, funcionando sua primeira parte como “deslocamento”, a segunda como “comentário”, realizando-se, finalmente, como “distorção”). Outros exemplos seriam: “Os amaricanos nunca sujam as mãos, Pôncio... […]” (inicia-se assim distorcida uma sucessão de enunciados hipotéticos que, pela reiteração estupidificante da cisão entre os “amaricanos” e os “outros”, nas últimas linhas, buscam instilar e legitimar a crença no inadmissível); “Bolsoignaro entra com mandado de segurança no STF contra CPI…” (uma das muitas deformações que enseja o nome do “despresidente”, palavra-bordão de Francisco que cruza os volumes das charges).


O protocolo mais frequente é o do “comentário”. Incluindo os do próprio “viajante do tempo”, alter ego do autor, que assume a palavra, e sem se esquivar à autocrítica, para nos apresentar o mundo enlouquecido desse presente que parece não acabar nunca, meio eterno. O comentário dá oportunidade para a ironia e a crítica e o humor a todo tipo de factoide da baixa política diária, e não apenas executiva, de variadas posições ideológicas, do judiciário em seu confusionismo, do modus operandi da imprensa e seus jornalistas, das desgraças, como a pandemia, abrindo espaço para o mais deslavado oportunismo e desgoverno, das variadas formas de enganar a sociedade, das apurações inconclusivas de toda modalidade de crime, do verdadeiro delírio que é o cotidiano das decisões dos experts em economia (realmente espertos) etc. Ocupando duas páginas para que o leitor sinta a escala do desplante, a charge “desaforismos” é uma grande palavra-valise dessa arte de comentar: aqui não se quer ditar uma moral, ser uma máxima para a prática, mas denunciar o tamanho do desaforo que estão fazendo conosco. É quando as notícias reais, imaginadas e amplificadas adquirem o sentido (aterrorizante) de weather report. Tempos piores virão. Como se os anos 2019-2022 nunca venham a acabar. Talvez a síntese mais aguda desse estado de coisas seja a charge, ou ainda, o poema “horrendo…, horrendo…”, com as duas palavras ocupando, respectivamente, a primeira e a última linha da mancha gráfica, um primor de compactação, condensação da época, do tempo, e simultaneamente de criação do vazio, do vácuo, da impossibilidade mesma de figurar o horror, quando o branco do restante da mancha gráfica testemunha o fracasso das linguagens. Suprimidas, riscadas algumas letras da palavra “horrendo”, sobra “o end”, que, por paradoxo, não tem fim, repetido e repetido, reticente. Talvez o pesadelo ainda esteja começando. Mas nestes tempos de triste memória, é nosso dever transformar o terror em terrir.


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