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AS PENÉLOPES DE ROSÂNGELA E O SEU NOVO ROMANCE

Por Linaldo Guedes


Livros sobre relacionamentos na terceira idade existem aos montes. A maioria deles, no entanto, na batida fórmula da autoajuda, com dicas para quem vai se envolver emocionalmente nessa faixa etária e frases motivacionais. O mais novo livro de Rosângela Vieira Rocha – “Invisíveis olhos violeta” (Editora Ventania) - vai além disso, porque a autora escreveu um romance onde ficciona tais relações. Sim, é um livro de ficção, mas bem que poderia ser real, como acontece a todo bom romance.


Cibele, a protagonista do romance, é uma mulher de cerca de 70 anos que resolve buscar um companheiro para compartilhar convivência, experiências de vida e afetos. Para isso, envereda pelos sites de relacionamento à procura do companheiro ideal. O livro é um resumo dessas buscas de Cibele, dessas “aventuras” pelo perigoso mundo virtual, onde, sabemos, as pessoas muitas vezes fingem o que não são e parecem ser o que não é.


Rosângela tece a trama como Penélope, a esposa de Ulisses na mitologia grega. A heroína, para fugir dos pretendentes enquanto Ulisses não retornava de sua odisseia, tecia um sudário para o pai do marido, mas nunca terminava o ofício para não ser obrigada a casar com outro.


Aqui não estou a fazer comparação entre os enredos de “Invisíveis olhos violeta”, de Rosângela Vieira Rocha, e a “Odisseia”, de Homero, claro. Falo do ato de tecer de Penélope que Rosângela tão bem faz em sua trama, envolvendo o leitor como se este estivesse num novelo desde o primeiro capítulo à espera do “the end” que Cibele merece ter.


Cibele não é apenas a mulher que conseguiria o homem que quisesse, ante a beleza instigante de seus olhos violetas. A frase dita à personagem no auge de sua juventude não deixava de ser verdade, dada a beleza provocante dos olhos de Cibele como revela o livro. Na prática, no entanto, sabemos que relacionamentos não se seguram pautados apenas na estética ou na beleza. Sempre há outros senões!


Os 29 capítulos do livro envolvem o leitor não só por conta das peripécias de Cibele. Rosângela, a autora, é mestra em nos deixar entorpecidos nos vaivéns de suas personagens. A tal teia de Penélope que falei acima. Ela avança e recua na narrativa o tempo todo, partindo do momento atual para fatos pretéritos, tornando o leitor íntimo da personalidade e das vivências de Cibele. Tudo isso temperado com uma linguagem direta, uma fina ironia que nos faz rir às vezes das situações em que a personagem se envolve e da utilização proposital de palavras que já estão em desuso, mas que reafirmam o perfil de Cibele - uma mulher que vem de outras décadas, outros costumes, outra educação para a modernidade dos sites de relacionamento.


Assim, vemos que a personagem principal prefere o termo “velhice” ao modernoso “terceira idade”. Vemos seus medos de contratar garotos de programa. Seus vários relacionamentos com homens, como Pedro, que surgem e somem sem qualquer explicação, criando e frustrando expectativas de quem quer apenas uma companhia para não se sentir tão só. Aliás, impressiona como os homens que se aproximam de Cibele dissimulam tanto a falta de compromisso com o que eles mesmos dizem a ela.


“Invisíveis olhos violeta” narra tais dissimulações, esse jogo de gato e rato, como Cibele afirma em determinado trecho da obra. Há questionamentos, sim, em torno de atitudes infantis que chegam do universo masculino para a personagem, mas estes questionamentos não fazem o leitor ver Cibele como uma coitadinha ou uma revoltada. Ela se impõe pela personalidade e inteligência. O livro traz, ainda, as relações de Cibele com o filho e a sua nora, e até com o ex-marido e a esposa deste. Em todos esses relacionamentos impressiona a força e determinação de Cibele na condução de sua vida.


Rosângela já disse, em entrevista a Marcio Sales Saraiva, que sua literatura gira em torno de personagens femininas, realçando as dificuldades que a sociedade impõe às mulheres. Cibele é mais uma dessas mulheres fortes e independentes de Rosângela. Uma Penélope que vive sua odisseia na luta contra o machismo e a arrogância masculina.

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