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CARTAS AO MAR: ÁGUAS DA MUDANÇA

Por André Dick*


O poeta Mário Alex Rosa se insere dentro de uma tradição da modernidade brasileira desde o seu primeiro livro, Ouro Preto, seguido por algumas obras entre poesia adulta e poesia infantil, ao enveredar por uma espécie de diálogo não apenas com poetas que frequentam o imaginário de seu trabalho, a exemplo de Drummond e Murilo Mendes, como também com a amplitude que a partir deles se desenha. Podemos lembrar, por exemplo, da poética de Murilo num livro como Contemplação de Ouro Preto, ou de Drummond em Fazendeiro do ar: há uma espécie de olhar minucioso sobre paisagens do interior, afastadas de qualquer movimento mais intenso, o que se pode perceber nas obras seguintes de Mário, como Via férrea. É por meio desse registro que parece modesto, em menor escala, que vai se produzindo uma poesia capaz de intensificar seus movimentos num trabalho interessante de associação de imagens, de analogias com finalidade exata, como se o poeta fosse se deslocando pouco a pouco para além de sua rua, de sua quadra, de sua casa, para tomar outra palavra que intitula uma de suas obras, esta sob o efeito da pandemia, para, enfim, chegar a um certo diálogo com o mundo.


Desse modo, talvez seu novo livro comece já pelo título com esse endereçamento: Cartas ao mar. O espaço que aqui se abre parece já distante das paisagens do interior de Minas Gerais – e quando se faz essa localização não se restringe a universalidade do que é escrito –, mas é, ao mesmo tempo, um complemento, uma consciência de rumo destinado a um lugar que abre o sujeito para a natureza. No entanto, e aí é que está a densidade da poesia de Mário, este movimento ao Outro (o leitor, o “Você” tão pronunciado em seus versos, não o “mar” das iniciais do nome do autor, uma interpretação talvez solipsista, entretanto possível), retoma com eficácia os pontos que já vinham sendo abordados em seus trabalhos anteriores. O poeta sempre esteve diante das coisas, porque sempre entendeu de onde parte, da sua localização: ele sempre esteve de onde se enunciou, e é aí que reside, para utilizar uma expressão muito exata, “o sentimento do mundo”. No entanto, sabe também que a carga levada segue adiante, quando reflete num poema: “Não se pode passar / duas vezes na via / férrea”.


Em Cartas ao mar, Mário lida com a sua poesia por meio de imagens que mesclam figuras relacionadas ao amor, à família, aos relacionamentos em geral, e elas acabam adquirindo uma dimensão mais interessante quando há uma certa sensação agridoce naquilo que se está dizendo. É uma poesia que se move por ausências, na sensação de que algo se perdeu, um sentimento por vezes de luto, porém é ela que coloca o sujeito lírico contra seu reflexo, do presente e, igualmente, em não menor força, do passado. O espelho de palavras contra o qual Mário escreve, do mesmo modo que faz nomear suas palavras, numa sucessão de correspondências também com a terra na qual vive – ver, por exemplo, o poema sobre uma determinada livraria que acolhe o escritor –, o torna por vezes distante do ponto de chegada, mas, embora este não esteja próximo, é aquele que se almeja.


A expectativa por algo que está para acontecer ou que não acontece vai conduzindo e costurando esta série de escritos. Se na primeira parte temos uma prevalência das figuras dos pais (“Carta de amor à mãe”), por meio do registro de cartas, direcionadas a vários entes (sobretudo referentes ao amor ou a Sylvia Plath), é importante dizer que no restante essa prevalência vai se misturando a outras composições de olhar substancial. Ver um poeta amigo com sua apreciação por cactos e buscar a simetria em imagens que dialogam com a pintura de modo geral não fazem esquecer aquele primeiro olhar materno: “Não pense que as palavras / deixarão de existir depois de você. / Pai, mãe, datas, calendários de um lugar, /de dias que não param de subtrair todas as faltas”. São todas essas faltas que indicam o caminho a ser seguido pelo poeta, à medida que encontra também o olhar paterno, em “Quinta carta ao pai”: “É para você, pai, que, diariamente, me coloco de joelhos / a escrever cartas sem endereço, sem pauta prévia / para lavrar agora a rasura de mim, sujo que sou, /e que aqui estou para morrer de amor sem norte”. É muita intensa esta ideia de morte em prol do amor na poética de Mário: ela já era esboçada em Via férrea e Ouro Preto, aqui em determinada perspectiva no amor também pela história.


Ou também em “Carta aos irmãos”, em que Mário parece buscar um diálogo com Gertrude Stein por meio da repetição da “rosa”. Como pano de fundo desses movimentos, destaca-se sempre o símbolo “mar” – como se fosse aquela representação do que pode nunca deixar lembranças em águas calmas ou que traz sempre à areia lembranças que vêm de longe e pareciam por vezes apagadas ou esquecidas. Ele atua como uma espécie de mecanismo e correspondência para o poeta retrabalhar diversas vezes a sua escrita e o seu endereçamento de afetos, assim como parece representar, acima de tudo, uma espécie de força da natureza incontrolável que faz o poeta querer enfrentar a morte ou tentar equivaler a sua imagem à da vida, fazendo que a morte seja superada pelas palavras, como se percebe em “Existência”: “Uma palavra só existe / se o coração fala por ela / quando nela o tempo ensina / que o amor é que cura / a falta de quem em algum lugar ficou / para sempre”.


O símbolo “mar” sinaliza uma espécie de ligação a que o poeta está ligado, de modo umbilical, em “Tudo só existe na palavra”: “Sem ele, sem nós / não há outro fundo // Que afunda mais que / aquela âncora firme // No mais fundo do mar / a beleza perdida amar”. Ou em “Do mar”: “Havia naquela repetição das ondas / uma breve alegria que ia assim / para dentro de outros mares ou marés”, e também em “Carta submersa”: “Um dia o mar nos ensinou: / o que leva não traz de volta, / morre submerso / como esses versos / começados olhando o seu mar / longe daqui numa enseada”.


Dentro desse diálogo com a mutabilidade das águas e também a sua permanência, há belas analogias com o tempo e a natureza, como em “A plenos pulmões – uma carta recolhida”, numa espécie de diálogo com Maiakovski, no qual o poeta faz o contraste entre a Copa do Mundo e a “copa de uma árvore” que antecipa a primavera, ou em “Bilhete”, em que o corpo vai “outonando-se” para a chegada do inverno, também algo sentido em “Carta aos amantes”, por meio do “céu-corpo” ligado a um “amor em fogo”. Há uma miscelânea de tempos no presente, e o poeta parece aguardar que esse se tranquilize e repouse, mas, sem perceber isso, tenta expandi-lo em direção ao passado e ao futuro, também na relação conflituosa com a tradição familiar e com Deus. As tardes podem ir embora, no entanto se guarda delas o passeio de mãos dadas. É sempre o que parece desimportante o que fica nesta poesia, e esta, hoje, é quase sem lugar, mas é neste lugar que ela se move porque alguma coisa precisa de fato se movimentar, mesmo que o que se mostra mais ao dito grande público não indique isso em praticamente nenhum momento. Porque o que se esconde atrás de uma vitória pode ser algo menos apaziguador, que foge à fantasia e à imaginação, quando, por exemplo, o poeta escreve: “Vitória certa! Vestir de amarelo era o mais certo, / visto que o velho ipê frondoso não se fez por menos / na sua amizade com o rei-sol. Naturalmente a fantasia /se impôs até o final da partida como se por uma sorte, /aquela das grandes, um grito de gol fosse selado por / uma / paz que já não havia”.


E o endereçamento de Cartas ao mar apanha mais do que a mitologia evocada pela simbologia de Homero e de Odisseias passadas. Está também em “Charlie, meu cão”, um poema de notável singeleza e impacto por sua abertura ao sentimento: “Meu primeiro amigo sem nenhuma serventia / doa-se em todas as horas sem medo das minhas / frequentes ausências de mim mesmo de amor / medido por medo da perda do mesmo”, que preenche o espaço de figura humana, contudo traz esta junto, sob outra forma: “Um dia ouvi que filhos são para sempre, mas para / sempre dura mais que a eternidade do filho / que agora tenho”. Em Mário, este campo de eternidade tão comum a poetas vindos de Minas Gerais, principalmente no sentido cósmico que encontramos na obra de Murilo Mendes, se faz afetivo e minucioso. A ideia de filhos e amizades se encontra na admiração sentimental por um cão.


Todas as cartas de amor são ridículas, diria Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, mas em Mário se abrem para “Uma confissão” reflexiva: “Encontrar nela /aquilo que o amor ensina / acima de tudo / quase tocando o céu”, o que se manifesta ainda de maneira mais intensa em “De papel passado”: “Então, amor, venha abrigar-se / na escrita que te acolhe, / mesmo que seja por um dia, / daqueles fora do tempo da vida, / quando olhando a tarde, a tarde /se fez em nós para juntos da noite / contarmos as nossas estrelas”. Veja-se as estrelas, que visitavam Mário no cenário fechado de seu livro Casa, como símbolos do que esperava o sujeito em quarentena, e em Cosmonauta: o sonho do sujeito é se libertar do espaço caseiro e também direcionar o olhar para o espaço. É uma espécie de imaginário amoroso, como expandia Barthes em seus fragmentos, ao qual Mário dá atenção desde o volume Via férrea, que tinha poemas como “Mobília” “Desse afeto que tanto desanda /dentro dessa casa de pouca mobília”. Por isso, há aquela presença da tradição de Drummond e a própria tradição procurada por Mário em seu livro.


Com uma trajetória feita entre poesia infantil (destacam-se livros como ABC futebol clube), adulta e exposições com artefatos poéticos visuais, Mário recolhe aqui apenas os rascunhos de uma espécie de linguagem a ser reencontrada nos próprios afetos que foram se perdendo e que ainda estão por vir, porque aqui tudo se encerra com uma “página virada”. Para lembrar Paul Celan, que esses poemas encontrem, como mensagens numa garrafa navegando por águas marítimas, o seu leitor mais urgente e necessário, a fim de criarem novas páginas.

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* André Dick é poeta e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Publicou Calendário, Neste momento e Poesias de Mallarmé, entre outros. É editor do site Cinematographe.



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