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CIDADE EXÍLIO: NAUFRÁGIO QUE SALVA E FAZ VOAR

Por Aldo Pellegrini


“A poesia pretende cumprir a tarefa de que este mundo

não seja habitável somente para os imbecis.”


Esta obra (publicada pela editora Lobo Azul ) não expõe o mapa de apenas uma cidade. São vários os nomes para um mesmo lugar que testemunham cada instante de uma “cidade concreto” e suas reentrâncias:


“da fome horrenda e o desamparo da tua multidão...há sangue-solidão em praças e ruas”.


No folhear das páginas, o poeta Ziul Serip desvela múltiplos horizontes, mági-cos e trágicos de uma cidade “leal e valerosa”. Pelo punho afi(n)ado do poeta, as palavras são quase fisicamente palpáveis:


“espanta o sobrevoo sobre vértebras elegantes

(d)as vozes brutas dos ancestrais;


(d)o astral efervescente do tráfego,

abismos, memórias, metáforas, miragens.”

Os poemas aqui são embarcações lúdicas, ordenadas em signos extremamente lapidados. Bijuterias cristalinas. Poesia em sua essência lavrada em versos luminosos, como em “cidade aritmética”: “lava lavando pálidas (pé)talas, pedras, (pa)telas”. Tudo está em seu lugar, medido, circunscrito em significados e adornos. Ziul é relojoeiro, alqui-mista dos versos, onde nada sobra, tudo está essencialmente e precisamente rabiscado. E a invenção é o alimento de seus poemas, alimento de uma “cidade amorfa”:


“o tempo passa, cidade amorfa, oculta-se entre restos sobre

viventes de rostos rijos. submerge no vazio

do concreto te encobrindo.”


Ler um poeta navegador, um cata(lisa)dor de pérolas, aventura de palavras-portais que se abrem no branco-papel da página, é gratificante. Mandalas semânticas se co-brem e se rasgam. O poeta escava rochedos, esculpe montanhas, entalha ventos. Se-nhor do seu tempo, assinala o mel, o ausente, também o cruel, ao dissecar imagens da “cidade carrasca”:


“entre cabelos de aço do corcunda de mandíbula oclusa

e estômago faminto, lâminas de dor recortam

a brancura do seu corpo.”


“Cidade exílio” é leitura imprescindível para todo tipo de leitor, sobretudo poetas. Mas já foi proferido por um poeta, que existe tanta poesia no poeta que es-creve o poema quanto no leitor que nele mergulha. “Primaveras suavemente sonhadas, fluxos de sentidos, armadilhas e raiva”, escreve o criador dos poemas nesta obra “cidade exílio”:


“onde, muito além do nevoeiro, contempla o sol se pôr

em seu brilhOlhar.”


A poesia concentrada aqui é descobrimento e invenção. O que ela inventa, o que ela descobre? Leia, leitor, mergulhe, leia de novo e quando sentires pouco o tesouro resgatado, leia novamente. Se ainda sentires que algo te escapa, esteja convic-to, garanto que estarás em alto-mar, dentro do barco de um poeta pleno, no exercício criador do seu ofício. Acesas asas, palavras entregues à “vo(ra)z(cidade)”:


“e, à véspera do futuro, repousar as pálpebras

em fugas diárias.”


Cidade com suas vísceras expostas. Nem a estação, nem a viagem, a poesia é a pai-sagem.

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Mario Pirata, poeta & brincadeiro.

Porto Alegre, Quintal Nove Luas/Fevereiro 2022



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