“Colidouescapo” e o campo instável da linguagem
- jornalbanquete

- 22 de fev.
- 4 min de leitura
Por Sheila Maués

A alta carga inventiva de Colidouescapo (1971) inscreve-se numa linha de força recorrente na obra de Augusto de Campos, marcada pela influência decisiva de Finnegans wake, de James Joyce. É nesse horizonte que o trocadilho, a paronomásia e a telescopagem vocabular operam como mecanismos estruturais de simultaneidade no tempo e no espaço. Desde as experimentações em Poetamenos (1953) e Cidade (1963), a palavra verbo-voco-visual rompe com a linearidade da leitura e transforma a página em um campo de coexistência entre tempos e sentidos. Em Colidouescapo, esse princípio se radicaliza: o poema se constrói no instante da recombinação, como forma móvel, sem fim, apenas em trânsito, e a palavra já não se organiza em sequências lexicais previsíveis, mas se oferece como ideograma móvel, apreendido de uma só vez, instaurando um tempo de leitura não sequencial, sempre reconfigurado a cada combinação.
A matriz desse gesto já está no título do livro. Colidouescapo deriva de collideorscape, palavra-valise de Finnegans wake, em que Joyce nomeia uma paisagem verbal em permanente recombinação. Em Augusto de Campos, porém, essa herança não opera como citação: transforma-se em procedimento. O que, em Joyce, acontece no interior da língua é aqui deslocado para o corpo do livro e para o processo de leitura, fazendo da colisão e da instabilidade um modo de funcionamento, inclusive material.
Essa instabilidade se materializa também no design editorial da obra. Colidouescapo se apresenta como livro-objeto composto por pequenas folhas soltas, dobráveis, sem numeração e sem ordem prescrita. Cada folha traz fragmentos vocabulares em vermelho, cuja recombinação depende inteiramente do gesto do leitor. O poema não se localiza em nenhuma página isolada, mas no encontro contingente entre fragmentos. A leitura é livre para avançar, interromper-se ou se reorganizar. Cada arranjo é provisório, cada configuração, irrecuperável; assim, o livro se afirma como dispositivo de linguagem em permanente recomposição.
A abertura formal de Colidouescapo é deliberadamente constitutiva, isto é, integra o projeto do livro desde a origem. Lançado originalmente em 1971, em edição de autor, com folhas soltas acondicionadas em uma luva de papel vermelho e instruções mínimas de uso – “redobrar as folhas e/ou misturar as páginas à vontade” –, o livro foi reeditado em 2006 com preservação integral do projeto gráfico e material original. Ao resistir à normalização editorial, Augusto de Campos reafirma que a obra não se reduz a seu conteúdo verbal; antes, depende de uma forma material específica para existir como poema. A genealogia editorial do livro evidencia, assim, que sua instabilidade é um princípio estrutural: Colidouescapo foi pensado desde a origem para permanecer aberto, reconfigurável e irredutível à fixação.
Colidouescapo radicaliza uma operação que talvez explique por que o livro ainda é pouco explorado pela crítica augustiana: a produção de formas morfológicas não lexicalizadas. As palavras que emergem da justaposição das folhas – como DESAM/CANTO, DES/CANTO – obedecem a padrões reconhecíveis da morfologia do português, mas não correspondem a itens estabilizados do léxico. Elas parecem palavras porque reutilizam fragmentos familiares, ativando expectativas de sentido, mas resistem à fixação semântica. O livro explora justamente esse limiar: o ponto em que a palavra é formalmente possível, mas ainda não foi domesticada pelo uso, deslocando a atenção do significado pronto para o próprio processo de formação da linguagem.

Diante dessas formações, o leitor tenta fazer o que normalmente faz ao ler: somar as partes para chegar a um significado. Mas esse caminho não se completa. Em DESAM/CANTO, por exemplo, desam- não se comporta como prefixo regular, enquanto canto oscila entre som, lugar e gesto poético. O resultado é uma palavra cujo sentido não se estabiliza. Impossibilitado de fechar o significado por esse tipo de cálculo simples, o leitor passa a operar por reconhecimento parcial e instável.

Em algumas situações, essa instabilidade se intensifica ainda mais, como nas formações em três partes, a exemplo de DESEM/RESIS/TENDO. Aqui, a palavra deixa de ser pensada como simples junção de morfemas e passa a operar como um verdadeiro plano de forças linguísticas, no qual desemprego, resistência e ter coexistem sem hierarquia, procedimento que torna ainda mais visível a materialidade da língua e sua capacidade de gerar sentido sem depender de estabilização semântica.

Em todos esses casos, a palavra não comunica um conteúdo: ela encena um movimento, uma coreografia de sentidos. O poema acontece como evento, nascido da interseção entre fragmentos que colidem em um plano semiótico desterritorializado, num jogo em que eficácia, fracasso e prazer se articulam. Como observa Benedito Nunes, o prazer estético da leitura é inseparável da experiência da descoberta. Em Colidouescapo, grande parte desse prazer reside justamente na possibilidade de manipular, sem restrições, fragmentos de palavras e recombiná-los para acessar os subterrâneos dessas multipalavras, formas inventadas por cada leitor, nas quais o sentido se constitui pelo risco e pela abertura ao desconhecido.
Essa lógica já está inscrita no próprio título do livro. Em Colidouescapo, a forma linguística ou não funciona como mera conjunção gramatical, mas como operador de contingência: ou a palavra se reconhece, ou escapa; ou se estabiliza momentaneamente, ou falha. O livro transforma essa partícula em princípio estrutural. Não há garantia de sucesso na leitura, nem promessa de sentido pleno. A colisão não é um obstáculo a ser superado, mas a própria condição da experiência poética.
É justamente aí que reside a atualidade do livro. Em um contexto marcado pela apatia, pela aceleração do consumo cultural e pela busca de legibilidade imediata, Colidouescapo insiste na ação engajada, na demora e no risco. Recusa-se a ser reduzido a conceito, imagem ou slogan. Ao expor a falha constitutiva da linguagem, devolve à poesia sua potência crítica: a de interromper hábitos e desorganizar expectativas consolidadas.
Colidouescapo permanece como obra ativa porque continua a interrogar o funcionamento da linguagem. Ao tornar visíveis os processos de formação, fragmentação e recombinação da palavra, Augusto de Campos não apenas radicaliza uma estética, mas propõe uma ética da leitura: ler pode ser operar, arriscar, experimentar. O livro exige do leitor o ler/isco, a disposição para entrar num campo em que nada está garantido, em que a palavra pode se formar ou falhar, colidir ou escapar.
É por isso que Colidouescapo ainda importa, porque é um dispositivo vivo, capaz de recolocar a linguagem mesma em rota de colisão com a obsolescência poética e a interpretação apática do livro e do mundo.
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* Sheila Maués é professora do Departamento de Iberistica da Università degli Studi di Milano, Itália. Doutora em Estudos Literários (UFPA-Brasil) e Ciências da Linguagem (Universidade do Porto-Portugal). Pesquisadora de Literatura Contemporânea Brasileira, Linguística e Didática das Línguas.





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