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EVÂNICA: A LÍNGUA E O MUNDO DE MAR BECKER

Por José Francisco Botelho*


Conta o Gênesis que, após criar os céus, os mares e a terra, assim como os animais que andam, voam e nadam, Deus fez com que as criaturas desfilassem diante de Adão, para que o primeiro homem nomeasse as coisas que via — e então, nos diz São Jerônimo (permitam-me esse capricho de tradutor, que é seguir a Vulgata), enim quod vocavit Adam animae viventis ipsum est nomen eius, “com efeito, assim como Adão as chamou, tal é o nome das criaturas”. Só depois disso é que Deus, instilando-lhe a letargia, arranca a Adão a famosa costela e, cobrindo-a de carne, produz Eva — a quem Adão (ainda de acordo com Jerônimo) chama de Virago, por ser nascida do homem (vir).


Ora, o que aconteceria se puséssemos o relato bíblico diante de um espelho — se invertêssemos seus elementos — se trocássemos de lugar vir e Virago — se imaginássemos uma Eva nascida não do osso adâmico, mas do barro universal, uma Eva encarregada de olhar as coisas e os seres pela primeira vez, com olhos de vaticínio, atribuindo a cada criatura seu verdadeiro nome? Que nomes, que palavras seriam essas? Não tenho dúvidas: o resultado dessa irrecuperável nomenclatura universal seria algo semelhante à poesia de Mar Becker.


O ato da criação é sempre um mistério; poucos são aqueles capazes de nomear um mundo, interpelando o leitor com a sensação imediata do real — naquela confluência difícil de alcançar, em que o real imaginado é tão verossímil quanto o real vivido. Eis aí um elemento talvez negligenciado nas contemporâneas considerações da poesia: o grande gênio poético é criador de mundos, no sentido de que desvela a realidade ao nomeá-la e nos impõe a visão de províncias muitas vezes esquecidas, mas que são simultaneamente estranhas e reconhecíveis. A mente poética ressoa a estranheza do mundo e assim nos permite reconhecer tal estranheza como nossa própria substância — a substância de que são feitos sonhos e pesadelos, memória e aspiração, medo, pertencimento, amor.


A poeta Mar Becker vem criando seu mundo há dois livros: primeiro, em A Mulher Submersa, ela nos franqueou a entrada a este universo onde, fantasticamente, não há diferença entre lírico e épico; e agora, em Sal, permite que nos embrenhemos mais profundamente em seus meandros, não apenas prosseguindo a exploração de seus temas e obsessões, como abrindo novas e insuspeitadas veredas.


O mundo de Mar Becker é ao mesmo tempo uno e múltiplo: sentimos em cada verso a emanação de um projeto estético poderosíssimo, e ao mesmo tempo temos a impressão de oscilar constantemente entre distintos universos. O sentimento de coabitação entre esferas da existência às vezes opostas — a vida e a morte, as estações e as dissipações, a rememoração e o desaparecimento, a veemência e a reticência, a infância e a velhice — é efetuado não apenas pelo imbricamento de temas, mas pela própria linguagem, que domina todos os registros necessários à nomeação destas coisas que devem ser não apenas ditas, mas tornadas perceptíveis; é como se a poeta inventasse sua própria linguagem no instante em que a evoca para dar forma a seu mundo. Não por acaso, em diversos momentos a poeta sublinha o ato de sua própria fala; enuncia sua enunciação; evoca-se como evocadora. À ancestral que foi morta “duas vezes, uma em vida e outra em história”, ela proclama:



nomeio-te gárgula

palíndroma



Desde o primeiro contato com a poesia de Mar Becker, impressiona a ausência de tergiversação. A tarefa de dizer é imensa demais para que nela interfira o que não é poesia, o que não é revelação. A linguagem é despudorada, no sentido mais amplo do termo: busca a palavra onde quer que se encontre, sem temer a vertigem. Se, num instante, transforma o substantivo “palíndromo” em adjetivo para qualificar sua ancestral morta e eternamente revivida, em outra passagem declara que



a água é traíra, e a água que se afeiçoa à lentidão mais ainda



“Traíra”, nessa acepção, é expressão das mais coloquiais no Rio Grande do Sul: além de significar um peixe de água doce (Hoplias spp.), a palavra é usada para indicar alguém de índole traiçoeira e escorregadia. A poeta não tem qualquer pudor em pescar tal sentido, talvez obscuro para muitos, no aluvião da experiência.



Assim como descobre na fundura da linguagem o caminho do exato e do inusitado, Mar Becker vai buscar nos interstício da vida mínima, no aparentemente desprezível ou indizível, o rescaldo primordial, o retorno do mítico e do místico, o empuxo de mundos adjacentes, ao mesmo tempo Além e Aquém da experiência do agora. E é assim que, na Annes, vemos ressurgir o “sentimento diluvial”, expresso do vir à tona, no escorrer dessa água que trai e cria, que dissolve e amolda:



no fim, esse sentimento diluvial era também o que nos levava a lavar roupa, não dava pra ficar à espera, “não terminará logo”. ia então toda a roupa suja acumulada num só dia: bater quatro maquinadas, da manhã à noite, e estender distribuindo as peças pela própria casa



Raras são as vozes poéticas atuais capazes de fazer reviver o sentimento épico na minúcia da vida quotidiana, sem com isso criar um efeito postiço, mas como que invocando uma verdade ao mesmo tempo bruta e delicada nos poros da pele, nos recantos da morada e pontos cegos do mundo. É uma poética que bebe naquele abismo sobre cuja face Deus pairava, e ao mesmo tempo se manifesta no catar das lêndeas numa cabeleira espraiada; na laguna recém-aberta sob o bombril, na pia; na caça às roupas espalhadas pela casa, esses “animais compridos”, ao mesmo tempo familiares e estranhíssimos.


Por tudo isso, o sal é signo dessa estética. O sal que existe no mar, na terra e em nós mesmos: elemento que liga, que principia e que encerra. É o mar salgado que liga os continentes; e o céu, quando se despeja sobre os homens, rasgado pela ira divina, produz um fado salino: o sal da mulher de Lot, tornada estátua ao contemplar a conflagração do firmamento contra a terra. O sal está no sangue que escorre dentro e fora das veias; é a verdade e também a miragem. Palavra curta como a dor e o ser, interminável como os grãos dos salares, palavra de parábola que dá gosto à terra e petrifica a carne, que vivifica os mares ao mesmo tempo em que os torna imbebíveis: beber o sal do mar induz à loucura, garantiam os antigos náufragos; talvez induza também à verdade das Sibilas, que profetizam em todas as línguas. E que língua é esta que lemos em Sal? Não é a língua adâmica, pois o relato bíblico entrou aqui espelhado, e a costela voltou ao peito de Adão.


Esta é uma outra língua, a língua de Eva. Eu a nomeio evânica.



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* José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Traduziu Shakespeare, Chaucer e outros clássicos. Escreveu para diversos veículos de circulação nacional e é crítico de cinema e literatura e especialista em métodos de versificação e em tradução poética. Autor de “A árvore que falava aramaico”, “Cavalos de Cronos” e “E tu serás um ermo novamente”, entre outras obras. Recebeu dois troféus Jabuti por suas traduções e foi vencedor dos prêmios Açorianos e Minuano por sua ficção.

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