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Ex/cada para o anti/céu de ex/estrelas

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    jornalbanquete
  • 22 de fev.
  • 6 min de leitura

Por Paulo de Toledo


 

 

 

O poema “excada (2023)”, que será o mote para este breve texto-homenagem sobre a obra de Augusto de Campos, está publicado em Pós Poemas, o mais recente livro de poesia do autor de Viva Vaia (Poesia 1949-79), que afirma em seu “pós-fácio”: “aqui vão os poemas q consegui arrancar das entranhas desde Outro (2015), expostos com algum vintage ressuscitado pelos memes imemoriais da humanimaldade.” Cabe observar que “humanimaldade” aparece como uma tradução de Augusto da palavra-valise “manunkind”, encontrada no primeiro verso do poema “pity this busy monster, manunkind”, de autoria do poeta americano e. e. cummings (2020, p. 114-15).


O “ex”(cada) do poema em estudo já aparecia no título de um poema, “O poeta ex pulmões”, publicado no livro Os sentidos sentidos (1951-1952) (2000, p. 60-62). “Ex” também dá nome a uma das seções de Não Poemas (2003), e nos remete aos “Expoemas”, primeira seção do livro Despoesia (1994), neste há um “NÃOfácio”, em que se lê: “Carl Ruggles que, com Charles Ives, é um dos patriarcas da música moderna americana, costumava dizer: 'eu pinto música'. Quase uma definição para um expoeta como eu” (negrito nosso).


Vale lembrar que o título “expoemas” já havia sido utilizado por Augusto em 1985 para nomear um álbum de poemas serigrafados, como ele explica na orelha de Despoesia: “EXPOEMAS – 13 composições com toda a luxúria das cores que a imaginação quis e omar guedes, mestre zen do ‘silk screen’, magnificou”.


De novo e sempre, o “ex”, o “des”, o “não”. Poesia da recusa e da coerência ética e estética. Disse Augusto: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas; pode-se dizer que ele é medido pelo número de recusas” (2006, p. 15).

 

Em Despoesia, encontramos os poemas “afazer (1982)” e “dizer (1983)”, em que temos, respectivamente, a palavra “ex/ser” e “desapare/ser”, as quais nos levam à palavra “des/ser”, formada pelas duas últimas linhas do poema “excada (2023)”. As três palavras, “ex/ser”, “desapare/ser” e “des/ser”, sugerem um ocultamento do sujeito, que pode nos levar à “desaparição elocutória do eu” pregada por Stéphane Mallarmé, em seu famoso texto, “Crise de vers” (1896), e tão cara aos poetas concretos, especialmente em sua fase ortodoxa. Décio Pignatari afirmava em seu texto “Nova poesia: concreta”, de 1956: “contra a poesia de expressão, subjetiva. por uma poesia de criação, objetiva. concreta, substantiva” (1987, p. 47).


Quando Augusto escreve “quantomais/ poetamenos/ dizer”, ele se coloca explicitamente “contra a poesia de expressão, subjetiva”, afirmando uma poética da rarefação e da racionalidade, típica da estética concretista, a despeito de “dizer (1983)” não ser um poema concreto, afinal, a poesia concreta já havia encerrado seu ciclo havia duas décadas. Observemos que “poetamenos” nomeia uma série de seis poemas escritos em 1953, que pareciam anunciar o que viria a ser a poesia concreta. (Gonzalo Aguilar, em Poesia Concreta Brasileira (2005, p. 286-87), faz a seguinte observação sobre Poetamenos: “A leitura concreta, ao denominar esse conjunto de poemas ‘pré-concreto’, recupera seu trabalho com os materiais e sua dimensão espacial e visual, e descarta, convertendo em resto do passado, uma dimensão que reprime: a subjetividade. Na fase concreta, esta foi eliminada a favor de uma concepção estrutural e evolucionista da linguagem poética. É necessário, então, suspender a apropriação teleológica que o concretismo fez desses poemas, para ler neles o que se manifesta como singularidade”.  

 

 

 

Mas o que seria uma “excada”? Uma não-escada? Uma escada sem finalidade, inútil? Uma escada que deixou de ser uma escada? Uma escada para além da escada?

 

A primeira leitura de “excada (2023)” conduz-nos à seguinte e, aparentemente, óbvia conclusão: subir é mais fácil do que descer. O que contraria até mesmo o dito popular, que afirma: “Para baixo, todo santo ajuda.” Mas é claro que o poema de Augusto de Campos não está falando de subir ou descer de uma escada, mas de uma “excada”. Daí o paradoxo. Subir uma escada é mais difícil, diria o bom senso, do que descer. Mas “sub/ir” uma “excada” é, na (ana)lógica poética, mais fácil do que “des/ser”.

 

Mas “sub/ir” para onde? “Des/ser” para onde?

Se “des/ser” seria ocultar o EU, “sub/ir” seria manifestar  o EU?

 

“Excada (2023)” é composto por dez linhas (não por versos, mas por linhas, como preferiria cummings), separadas por traços horizontais na cor branca (que imitam os degraus de uma escada). Dessas dez linhas, podemos perceber semelhanças físicas entre algumas delas, o que dá ao poema uma maior coerência estrutural: IrÉ – IlÉ; FáC – FíC; ILo – ILé; SDi – DeS; dES – SEr. Essas semelhanças físicas são proporcionadas pelo uso de linhas com três elementos (letras), o que, além das similaridades entre as linhas (há sempre dois elementos/letras iguais entre elas), também cria a possibilidade de leitura do sufixo “sub” e da palavra “ser”.

 

Essa “excada” de Augusto começa com a linha “sub”, fragmento da palavra “sub/ir”, que é completada na segunda linha do poema. “Sub” pode sugerir o prefixo “sub”, que significa “abaixo”, “sob”, “posição inferior”. Curiosamente, esse “sub” está “sobre”, ou seja, está no alto da “excada”, está na parte superior do poema. O poema, portanto, na sua primeira linha, já aponta para baixo, anunciando as últimas linhas (“des/ser”).

Em Não poemas, há um poema chamado “sub (2001)”, que diz: “sub/ ir/ on/ de/ sub/ luz/ meu/ mur/ mur/ sus/ sur/ resto/ humano/ para dizer/ ao índigo/ não-digo/ meu/ dim/ inu/ to/ ín/ fim/ o/ vi/ (in/ vi/ sí/ vel)/ ver” (2003, p. 48-49). Diferentemente do “excada (2023)”, que vai do “sub/ir” em direção ao “des/ser”, esse “sub (2001)” faz um movimento ascensional, mesmo que seja um movimento para (não)“dizer ao índigo” sua inSIGNificante existência. Se há a semelhança entre os dois poemas, com ambos se iniciando com “sub/ir”, por outro lado, um termina com “des/ser” e o outro se encerra com “vi/ver”. Se entendermos “des/ser” como não-ser, temos um poema falando da não existência e outro falando de uma existência quase inexistente (“ín/ fim/ o/ vi/ (...)/ ver”). Ou seja: temos dois poemas que refletem sobre a angustiosa existência humana. (Gonzalo Aguilar, em Poesia Concreta Brasileira, analisando a obra de Augusto, fala em uma “poética da angústia”, que se verificaria em seus primeiros poemas, e que retornaria na fase pós-concreta, casos de “excada (2023)” e “sub (2001)”.). Lemos na primeira estrofe de “O rei menos os reino” (1950): “Onde a angústia roendo um não de pedra// Digere sem saber o braço esquerdo,// Me situo lavrando este deserto// De areia areia arena céu e areia” (2000, p. 9).


Céu e areia: “pó do cosmos”: pó e céu. Solidão e angústia. (Voltaremos a falar de “pó do cosmos” mais adiante.)

 

“Excada” é de 2023, quando Augusto completou 92 anos. Augusto estaria sugerindo que “des/ser”, ou seja, deixar de ser, de existir, aceitar a não existência, aceitar a morte, seria algo difícil? Subir a escada da vida seria “fácil”, mas admitir a proximidade do não ser, do “des/ser”, seria difícil, angustiante?


A vida seria essa “excada”, por meio da qual, quanto mais subimos, mais nos aproximamos da queda, do fundo, no que se assemelha, de forma inversa, ao inferno dantesco, onde se desce para subir e, finalmente, “rivedere le stelle”.


Pela “excada” de Augusto não há garantia de rever estrelas, apenas de “des/ser” até o final escuro da página negra, onde, como no poema “anticéu (1984)” (1994, s/p), talvez poderemos divisar o brilho de “ex estrelas”.

 

Em Pós Poemas, o poema seguinte a “excada (2023)” é “próxima parada (2024)”:

  

Lendo o poema, nos veio a pergunta: a espera de “des/ser” (deixar de ser, inexistir), um ano depois (2024), estaria, ironicamente, mais uma vez adiada (“próxima parada/ adiada”; “por favor/ aguarde”)? Ou seja, estaria o nonagenário Augusto de Campos brincando com o fato de ele ter ganhado do destino mais um ano de vida?


Lembremos que o último poema de Pós poemas (sem considerar o poema da contracapa) é um fragmento da obra Colidouescapo: “ex-isto”. Mais uma ironia de Augusto: o ex(des/não/pós/anti) insiste (resiste!) em existir.


Augusto, felizmente, vai ficar por aqui até “um pouco mais tarde”, neste pós-tudo, “sempre o mais vivo de nós todos”, parafraseando o que Pound disse sobre cummings.

 

Para encerrar nosso breve comentário sobre “excada (2023)”, voltemos a “pó do cosmos (1981)”, publicado em Despoesia. Ambos os poemas são escritos sobre um fundo negro e, enquanto “excada” realiza um movimento de descenso, “pó dos cosmos” faz um movimento ascendente. Um (em 1981, quando Augusto tinha 50 anos) vai do pó ao céu. Outro (em 2023, quando o poeta tinha 92 anos), vai do “sub/ir” ao “des/ser”: “sub/ir” ao pó, “des/ser” ao céu?  

Ex(poemas), des(poesia), (poeta)menos, não(poemas), pós(tudo), anti(céu): contra.

Agora-pós-ex-tudo, seguimos, pó de ex-estrelas, ex-calando as augustas ex-cadas para o des/ser.


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* Paulo de Toledo é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP. Publicou os livros de poemas Torrão e outros poemas, A rubrica do inventor e 51 Mendicantos, assim como Eu.E.Cummings, com traduções do poeta norte-americano.

 

Referências

 

AGUILAR, Gonzalo. Poesia concreta brasileira: as vanguardas na encruzilhada modernista. São Paulo: Edusp, 2005.


CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos, 1950-1960. São Paulo: Brasiliense, 1987.


CAMPOS, Augusto. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994.


CAMPOS, Augusto. Não poemas. São Paulo: Perspectiva, 2003.


CAMPOS, Augusto. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.


CAMPOS, Augusto. Pós poemas. São Paulo: Perspectiva, 2025.


CAMPOS, Augusto. Viva vaia: Poesia - 1949-1979. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 2000.


CUMMINGS, E. E. Poem(a)s. Trad. Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.

 
 
 

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