top of page
  • Foto do escritorjornalbanquete

GALÁXIAS: UMA OUTRA LEITURA

Por Dirce Waltrick do Amarante


Publicado em 1976, Galáxias, o “livro-viagem” do poeta, tradutor, ensaísta e professor Haroldo de Campos (1929-2003), começou a ser delineado em 1959, quase duas décadas antes de sua publicação. “A idéia norteadora” do livro, segundo seu autor, era a descrição de uma “viagem paródica, homérica e psicodélica ao mesmo tempo”, onde “visões vertiginosas, de quadros, de lugares, de pessoas, de presenças (históricas e mitológicas) aparecem e desaparecem ao longo da tessitura verbal”.


O “formante” (termo que o poeta tomou de empréstimo do compositor francês Pierre Boulez) inicial do livro, entretanto, só foi escrito em 1963 e o “formante” final em 1976. Segundo Haroldo de Campos, entre essas datas se passou “um longo arco de tempo, no qual os acontecimentos, como cicatrizes, foram deixando também as suas marcas textuais, a sua borra e o seu sarro”.


Um desses acontecimentos, mencionado por Haroldo de Campos, em entrevista concedida ao Jornal O Estado de S.Paulo, em 1984, poderia, talvez, estar relacionado a um fato histórico: o início, em 1964 (coincidentemente, data em que foram publicados os primeiros fragmentos de Galáxias), do regime militar no Brasil. Levando-se em consideração essa hipótese, seria possível supor que essa “cicatriz” tenha levado o poeta a definir seu livro da seguinte maneira: “Galáxias não é apenas um livro de epifanias, mas também, ao mesmo tempo, um registro crítico e paródico de antiepifanias [...] Algo assim como um palimpsesto simultaneísta de momentos paradisíacos, atravessados e contraditados por momentos infernais”.


O “livro-viagem” de Haroldo de Campos poderia ser lido, então, como um modelo de discurso híbrido, que mescla história e ficção, à maneira, por exemplo, do escritor irlandês James Joyce, o qual exerceu grande influência sobre o poeta e, em especial, sobre esse seu trabalho: um canto paralelo ao Finnegans wake (último romance de Joyce, publicado em 1939), na minha opinião. Vale aqui lembrar que Haroldo de Campos foi tradutor de Joyce e assinou, junto com seu irmão Augusto de Campos, a tradução pioneira de fragmentos de Finnegans wake, em 1962, sob o título Panaroma do Finnegans wake.


A forma narrativa de Galáxias se constrói, em resumo, sobre registros de memória, fragmentos de crônicas históricas, notas, fábulas, mitos, devaneios etc. Além disso, o livro se estrutura sobre uma superposição de vozes, de imagens e de discursos, numa forma de palimpsesto, de acordo com o próprio Haroldo, onde “qualquer experiência cultural é, por si mesma, um acréscimo às muitas camadas” que compõem o texto.


Desse modo, Galáxias questionaria e desconstruiria um discurso unívoco da história, justo numa época em que o governo impunha uma verdade histórica: “[...] há milumaestórias na mínima unha da estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser a escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora ...”.

No tocante à linguagem do livro, Haroldo de Campos usou, além do idioma português, o espanhol, o italiano, o francês, o inglês, o alemão, entre outros. O livro é “semeado” ainda de “palavras-montagem” (uma parenta das “palavras-valise” (duas palavras embutidas numa só), que foram criadas pelo escritor inglês Lewis Carroll e redefinidas por James Joyce), como “sonhadasonhante”, perdeganhava”, “horáriodiáriosemanáriomensárioanuário”. As palavras-valise também fazem parte dessa teia linguística (“caleidocamaleoscópio”, “cabaléulístico”) que se caracteriza pela ““concreção” de “blocos semânticos” associados por um curto-circuito de significantes”.


Acredito que essa linguagem obscura, similar em muitos aspectos à de Finnegans wake, além de provir de uma escolha estética, serviram para driblar a censura da época, imposta pelo regime militar (segundo apontam alguns estudiosos, Joyce também se valera desse recurso para fugir da censura puritana de sua época).


Certamente, muitos fragmentos de Galáxias seriam “censuráveis”, aos olhos do regime repressor, não estivessem eles envoltos numa atmosfera linguística enigmática. Cito como exemplo os seguintes trechos do livro:


“[...] enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha [...]”


“[...] bitte bittersehr documentos para japonas cinzas e tacões amestrados a polícia die polizei botada como sempre e um vento sacode os lêmures o egrégio parlamento de zômbies sobre as mesas desfeito agora à voz de circular ali [...]”


Diferente de tantas outras obras que foram censuradas nos anos de ditadura militar, Galáxias foi publicada exatamente como seu autor a concebeu, com sua forma estilística ousada e seu conteúdo de duplo sentido.


Quanto à sua leitura, Galáxias pedia e pede, na opinião de Haroldo de Campos, “simplesmente um leitor de olhos novos e de escuta aberta. Um coração cosmonauta. Nada de orelhas varicosas”. Nada, realmente, do que se poderia esperar, na época de sua publicação, de um leitor oprimido por um regime repressor e autoritário.


Cabe ainda dizer que, embora essa leitura vá de encontro à opinião de alguns críticos, para os quais Haroldo Campos teria privilegiado “de modo sectário, a contemporaneidade de seus formalizantes propósitos estéticos”, deixando de lado questões políticas e históricas, ela se fundamenta numa proposição do próprio autor de Galáxias que afirmava: “à medida que o texto vai cindindo seu sujeito, abolindo seu autor, ele se encontra e se perfaz no outro. No outro em devir”.

______________________________________________________________________________________

* Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, escritora e tradutora. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina. Traduziu, entre outros, James Joyce, Edward Lear, Leonora Carrington, Gertrude Stein e Eugène Ionesco. Sobre James Joyce, publicou Para ler Finnegans Wake de James Joyce e James Joyce e seus tradutores, entre outros. É vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos Joycianos no Brasil. Responsável pelo site “James Joyce’s Outsider” https://www.jamesjoycesoutsiders.com.br

76 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Kommentare


bottom of page