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Haroldo japonês

Por Thelma Médici Nóbrega


Em 1957, Haroldo começou a estudar japonês na Associação Cultural Brasil-Japão, com o professor José Sant’Anna do Carmo, um baiano que passara anos lecionando o idioma para a comunidade nissei na cidade de Marília. Nas aulas em São Paulo, quase todos os alunos eram filhos ou netos de imigrantes, obrigados a aprender japonês para se comunicar com os parentes mais velhos. Haroldo, o único aluno adulto e ocidental da classe, interessado apenas em ler a poesia japonesa, insistia para que o professor ensinasse todos os ideogramas, ou kanji, para desespero dos outros alunos. Depois, em casa, fazia as lições e os exercícios, já tentando decifrar os haicais.[1]


Se não fosse Ezra Pound, Haroldo poderia nunca ter estado naquela classe, debruçado sobre o caderno ao lado das crianças nisseis, repetindo com elas as primeiras palavras no idioma. Foi lendo Pound que ele descobriu as “essências e medulas” da poesia chinesa e japonesa – uma lição que se irradiou por toda sua poesia. Com o aprendizado do japonês, ele se equipou para traduzir essa poética até então pouco divulgada no Brasil.


A palavra de ordem para a tradução era a síntese – buscada através da elipse, da ausência de conectivos e de adjetivação, de explicações e conceitos que pudessem “enfraquecer a ação direta do original”. Como o haicai em japonês compõe-se de uma só linha vertical e o arranjo em tercetos de versos sobrepostos é uma convenção ocidental, ele arejou a estrutura, tornando-a mais espacializada. Procurou reproduzir em português a condensação de imagens do haicai japonês. Dois exemplos:


canta o rouxinol


garganta miúda


– sol lua – raiando


o velho tanque


rã salt’


tomba


rumor de água


No primeiro poema, de Buson, o ideograma akeru (sol+lua), na forma de particípio passado, akete, que significa “amanhecer”, é traduzido por “sol-lua raiando”, para reter a justaposição do ideograma e sugerir o raiar do dia. No poema seguinte, um dos mais famosos de Bashô, a tradução cria o neologismo “saltomba” (grafado salt’ tomba, à la cummings, explicou ele), a partir da palavra composta tobikomu, que aglutina “saltar” e “entrar". A divisão da palavra-valise tornou o haicai ainda mais espaçado, performando o salto da rã.


Nas duas traduções, Haroldo explica o significado de cada ideograma, os efeitos fônicos que procurou obter respondendo aos do original. A operação ainda não se chamava transcriação, mas o alvo do tradutor já não era o conteúdo separado da forma, mas sim a configuração visual/fônica do poema, sua estrutura composicional. Sobretudo, ele emprega o método etimológico, forçando a língua portuguesa a refletir a etimologia do original.


O haicai já fora praticado no Brasil, por poetas como Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida. Foi esse que o popularizou num primeiro momento, mas para isso tentou acomodá-lo à estrutura tradicional do verso brasileiro. Além de lhe dar um título, direcionando a leitura, conferiu-lhe maior regularidade métrica e até mesmo rimas.


Haroldo, ao traduzir o haicai, desacomodou o verso brasileiro para recebê-lo. Assim, recriou-o para uma poesia do presente, ofereceu-o como possibilidade aberta num novo momento e lugar. Uma forma depois explorada de modo especialmente frutífero por Paulo Leminski, que, ao lado de outros poetas, tornou-a popular e parte integrante da poesia brasileira moderna.


Em vez de compor haicais propriamente ditos, Haroldo aproveitou sua concisão e visualidade em sua poesia. Um exemplo claro é a série de poemas yûgen: caderno japonês, compostos por ocasião de sua visita ao Japão, a convite da Fundação Japão. Em “akari”, os ideogramas de “sol” e “lua”, que juntos significam “luz”, são separados ao longo de um poema ainda mais sintético e diáfano que um haicai:



rubi total

ponta de luz

aqui começa o

sol


Em 1998, os poemas de Yûgen foram incorporados a uma série de gravuras de Tomie Ohtake, sua amiga, continuando o diálogo entre poesia e artes visuais, entre Ocidente e Oriente, que caracterizou a poesia concreta e que Haroldo nunca deixou de promover em sua produção poética e tradutória – tanto que, no final da vida, estava traduzindo poemas de Man’yõshü, a mais antiga e reverenciada antologia de poesia japonesa, compilada em torno de 759 d.C.

______________________________________________________________________________________

[1] Depoimento de Carmen de Arruda Campos a mim.


* Thelma Médici Nóbrega é tradutora literária, psicanalista em formação e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Sua tese foi uma biografia de Haroldo de Campos.



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Ana Rodrigues
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