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MÚSICA DE TODOS OS GESTOS

Por André Dick


Fliperama (São Paulo: Corsário-Satã, 2020) é o mais recente livro de Fabiano Calixto, poeta nascido em Garanhuns (PE), em 1973, que parece procurar uma síntese entre Fábrica, Música possível e Sanguínea, além de Nominata morfina, de prosa poética. Calixto desenha, desde o início do século, uma trajetória poética que busca um discurso sensível e uma captação da rotina, na maneira como insere sua própria vida na poesia, ou seja, sua linguagem, trabalhada com atenção e minúcia, carrega não apenas uma experimentação, como também lances biográficos que falem, em igual medida, com o leitor. Como nos poemas iniciais de Fábrica, que tentavam reproduzir o impacto do trabalho, aqui reproduzido nos “consertos dos calçados / dos sapatos de domingo” e na “angústia dos operários das fábricas”, Calixto envereda por uma espécie de caminhada rumo a encontros com a linguagem – e, nessa linguagem, o traço literário e amoroso.


Há uma mescla entre linguagem mais cotidiana com outra mais “literária”, porém sem cair num tom livresco às vezes desnecessário quando não bem utilizado. Reúne num volume sem seções, que vai fluindo aos poucos, poemas com nostalgia de uma época perdida, mas que se tenta encontrar novamente: “Matinê perdida” (com suas imagens de juventude e liberdade mais tranquila em casa ou na rua sintetizadas num “foi tudo tão passageiro”) ou “Velotrol”, com “os pés metidos / num kichute velho”, uma “geração de subúrbio / perdida / esquecida”, conforme assinala em “Novo aeon”. Nessa caminhada, os escritores também marcam presença, por meio de uma verve densa, em “Mandala” e “No fim do verão” (com suas imagens que parecem “levitar”, como ele se encerra), ou no belíssimo “Nos vemos na segunda”, dedicado ao poeta Donizete Galvão (in memoriam): “o que Borges em nós sonhara /na derradeira luz // ou Goethe, sob os círculos / concêntricos / de dor, / mehr licht / / ou Emiliano Perneta / naquele verso bonito / : / Luar de um círio no azul de um lírio morto...”. Já os esportistas marcam presença em “Churrasco em Pasárgada”, com sua lembrança do jogo Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982 por meio da voz de Luciano do Valle. É tudo aquilo que o poeta Rodrigo Lobo Damasceno escreve na apresentação: “este fliperama não serve a ninguém”, voltando-se contra – contra o que se espera habitualmente de uma linguagem previsível.


O autor surge nesses poemas com seus amigos e familiares, seu amor, ou seja, não é uma figura de linguagem dissociada do que escreve, o que já vinha se desenhando principalmente em Música possível e Sanguínea. “Rubens” é muito bem trabalhado em sua sonoridade; “Para Natália”, em sua incorporação de cenários ao amor. Sente-se o futebol em “Dadaísmo maravilhoso” e em outros fragmentos, assim como a filosofia, em “O silêncio de Sócrates”, com seu “calcanhar libertino”. Apreciável a maneira como se passa do poema curto (inclusive haicais, em “E-mail para Bashô”: “inverno chegando ao fim / bailam perfumes / nas flores de alecrim”) para o mais longo e como eles não se parecem, mas criam inúmeras ramificações; as estruturas e métricas são variadas; há poemas mais sonoros e outros não tanto, porém não acontece nenhum atrito entre eles no desenvolvimento. Nesse sentido, o desenho do livro soa orgânico, inclusive ao colocar poemas mais breves pela metade antes de adentrar em alguns ainda mais longos do que os anteriores, a exemplo de “As ruínas de Hoffmann”, “Sol vermelho”, “Memórias de um homem-bala” e “Concerto para duas vozes”, como se procurasse um novo fôlego e um diálogo mais aberto com sua prosa poética de Nominata morfina.


Apreciável também como se consegue uma autenticidade no discurso sobre como o mundo está deteriorado (a exploração em “Mundo profundo”: “os papéis de parede são franceses, motivos / neoclássicos, repletos de requinte e bom gosto, / classe e beleza / (a parede é resultado de trabalho escravo)”) ou em “Expressionismo tropical”. Igualmente em “Civilização-lixo” e “2012 (antes do fim)”, que reserva imagens mescladas entre várias épocas, culturas, partindo das praias do Rio de Janeiro, passando pelo litoral sul de São Paulo, até a carta de um soldado americano no Vietnã para sua namorada no Bronx, enquanto em “Sol vermelho” o poeta enxerga sonhos estilhaçados “na copa de um álamo”.


Alguns poemas lembram a narração de HQs, uma visão em certa medida apocalíptica, traço que se percebe, por exemplo, em Sebastião Uchoa Leite – também ressonante nas sátiras a sonetos, como “Oficina zumbi” ou “Oficina embosteada”. Há, ao mesmo tempo, sátira ferina em “Tipographia siderada” e “O ventilador pop”, assim como nos títulos dos poemas, a exemplo de “Onde andará Derrida?”, “Bacon Frito, o gato”, “Sindicato dos musgos” e “Fábula para uma noite de tempestade”, para citar só alguns. É uma poesia que visualiza o bom humor num mundo hostil em geral, assim como lida com a dor em imagens cheias de brumas, tentando especificar o retrato de uma geração desamparada no tempo, às vezes sem expectativa (como Lobo Damesceno bem nota na apresentação ao livro), a exemplo do que vemos em “Averno”: “profundos / cobertos de carne-sombra / escrevem cartas / leem Rimbaud / praticam adivinhação / a noite inteira” ou em “Sunday morning”: “um coração de pedra / um paralelepípedo / cardíaco”, tudo cercado por ambientes que vão se afastando na longínqua memória do sujeito: “levados pelo silencioso trem de carga / do esquecimento”, em ruas, avenidas, estações de trem, cercados de encontros e abandonos, de preenchimento e ausência, seja com livros ou amores que chegaram e se foram, em lugares mais ou menos conhecidos para o sujeito que se desloca aqui. Pessoas que chegam e partem, não necessariamente nessa ordem, mas, de certo modo, são permanentes dentro desta poética – Calixto as grava de maneira que possa revê-las. É como se ele colocasse um diário exposto com a qualidade simétrica de versos pensados e executados com grande elaboração linguística, como se a cada poema revisitasse ruas já abandonadas, nunca revistas, e o chão de fábrica um tanto opressor, mas sempre com certa sensibilidade de um encontro ao ar livre.


No entanto, mesmo com toda a dificuldade, a poesia de Fabiano Calixto tem como objetivo a esperança de alguma coisa, com belas imagens se ligando à natureza, imagens de flores e colibris, que soam orgânicas e não algo para fingir poesia que não existe de verdade: “(equilíbrio de colibri na brisa”). Com isso, apresenta imagens singelas e surpreendentes: “as borboletas / bebem as lágrimas / das tartarugas”; “cálices de êxtase / medita, sobre os escombros / do século triste, na calma, a flor” – num diálogo permanente com William Carlos Williams, citado nominalmente no título de um dos poemas. Nisso, uma sucessão de assonâncias em “E-mail para Zhô Bertholini: “onde selvagens artilharias de metáforas, / utopias, maracangalhas, metonímias, / exterminam a canalha, / derrubam bastilhas”.


Outro grande acerto de Fliperama é a disposição dos poemas na página, com o máximo de cuidado nas quebras e brancos da página, inclusive naqueles que homenageiam diretamente Augusto de Campos, como “E-mail a August de Campos” e “O futuro está por um triz”, ou não tanto, como “Thank you ou versos de circunstância em memória de Juan Gelman (para duas vozes)”, com seus versos em colunas funcionais. Ou seja, é um livro que se preocupa com a forma e o sentimento em igual escala. Se há uma ponte que se desenha com Sanguínea, por exemplo, é seu interesse pelo universo pop em geral – também a música, como não poderia deixar de ser, em “A flor hendrixiana”, ou “No fim do verão”, em que Odair José é mencionado em meio a uma conversa singela, ou aqueles poemas a Leonard Cohen e a Bob Dylan –, no entanto em Fliperama essa percepção parece atingir um olhar desencantado sem exatamente ceder a algum desalento. É quando a linguagem se mostra mais forte, assim como a vida se revela como a música de outro livro do poeta, a mais vívida possível e aqui “de todos os gestos”.

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