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NOTAS DE DECIFRAÇÃO

Marcelo Ariel escreve sobre seu novo livro Afastar-se para perto – ficção-vida (Ed. Reformatório)


A primeira edição de um livro é a mais representativa de energias capazes de explicitar algo que subsiste  para além do óbvio encontro entre pensamento e forma, no meu caso, a preservação tanto de alguns 'erros que não são erros'  incorporados aos textos, não confundir com ínfimas gralhas que escapam a uma revisão da revisão e que são/ serão eliminadas em edições futuras, me refiro a incorporação estética do erro como parte do pensamento do texto e também do inacabado como elemento constitutivo desse pensamento. A ideia é sempre torcer e se possível escrever contra a língua, como diz Rimbaud em um dos contos do segundo livro. Meu diálogo é em uma chave mais do que explícita com Carolina Maria de Jesus e também com Clarice Lispector, de certa forma  invertendo e  não imitando seus processos. Voltando ao que chamei lá em cima de 'incorporação do inacabado' todos os contos com exceção do conto que dá título ao livro dois 'O TRIUNFO DE CUBATÃO' são estão e louvam o inacabado e a incompletude. O conto A tessitura, por exemplo, é uma  tentativa de investigar o momento em que meu irmão ficou louco tendo como duplo e por que não dizer "alegoria afetiva" o momento no qual o escritor  Philip Dick "enlouqueceu" as vozes que estão em negrito desse conto aparecem num  texto da página 15 do livro anterior  na frase "Trata-se de um livro- ramagem. Ao considerar , segundo a ordem da geometria Spinoza, traçar linhas que expõe um desenho dos estados de entrelaçamento possíveis". O ideal teria sido colocar a frase em negrito para tornar o diálogo com o conto mais nítido mas preferi deixar no texto como se fosse um erro que não é um erro porque aqui e em outros momentos o livro está falando diretamente com quem está lendo e simultaneamente consigo mesmo. No conto Rimbaud: uma entrevista tentei fazer com que as respostas de Rimbaud soassem como se ele tivesse se esquecido do modo de expressão dentro da norma culta para que sua fala fosse também um modo de demonstrar sua pouca vinculação com a figura de um intelectual, como se ele no conto fosse uma espécie de selvagem que não consegue falar muito bem o idioma do entrevistador. O entrelaçamento que está no pensamento dentro da frase é o principal vetor ' Walter Benjamin fala sobre Hilda Hilst na USP' e no fundo é junto com o conceito de tessitura a ideia principal que atravessa todo o livro.


Não se explica um poema? Discordo da Hilda Hilst, às vezes é necessário não apenas explicar mas defender um poema de interpretações absurdas, é claro que a voz do poeta- escritor não deve ser totalitária, não deve ser a palavra final sobre o poema, o conto ou a crônica. Ontem durante o lançamento alguém me perguntou sobre o ou os possíveis significados do título. Seria um Afastar-se para perto da Ficção -Vida? Como escrevi na nota anterior, a ideia de tessitura atravessa o livro, talvez o que chamamos de ficção seja uma tessitura que também atravessa nosso viver, será necessário afastar-se da tessitura ficcional da vida? Como? A outra ideia que atravessa o livro é a do entrelaçamento, palavra que poderia ser associada ao viver como algo maior do que um paradigma. Afastar-se da tessitura ficcional que se interpõe aos entrelaçamentos? Seria essa a decifração do "enigma do título"? É possível que uma das marcas da ficção contemporânea seja a da exposição e dependência da experiência como base para o ficcional e no livro tento transfigurar isso misturando a " base das experiências" com exercícios imaginativos de alteridade, a entrevista com Rimbaud emula trechos de uma entrevista minha jamais publicada ao jornal O Estado de São Paulo e o mesmo acontece com os contos e com a " o falso diário elíptico" que no título entrega o que penso sobre a alteridade e a literatura. Talvez o título do livro seja ele mesmo um poema, um claro enigma: afastar-se ( da tessitura ficcional) pode ser um modo de se aproximar ( dos entrelaçamentos ) com o vivo para além das projeções e para além da própria experiência como base.

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*Marcelo Ariel é poeta e ensaísta

 

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