top of page
  • Foto do escritorjornalbanquete

O DESAPARECIMENTO DE MOLLY E HILLÉ


Por Dirce Waltrick do Amarante*


Afinal quem é Molly Bloom que salta das páginas finais de Ulisses (1922), de James Joyce, para o palco, na interpretação de Bete Coelho?


No contexto brasileiro, diria que Marion (Molly) Bloom, personagem de Ulisses (1922), do escritor irlandês James Joyce, tem muito em comum com Hillé, personagem central de A obscena senhora D (1982), de Hilda Hilst. Ambas, por exemplo, dependem de seus maridos para decifrar o significado de certas palavras. Em um primeiro momento, Molly e Hillé se colocam em uma posição intelectualmente inferior a de seus homens.


Certa manhã, Leopold Bloom, o protagonista da odisseia joyciana, leva café na cama para Molly. Abro aqui um parêntese, porque nem sempre ele faz isso, como se lê no monólogo final de sua companheira: “[...] ele nunca fez coisassim antes isso de pedir cafénacama com 2 ovos desdo hotel City Arms quando ele gostava de fingir que tava de cama com voz de doente se pagando de sualteza pra parecer adorável praquela velha desgraçada Dona Riordan quele achava que tinha no bico”. Cito a tradução inédita de Luci Collin, que faz integrará a quarta tradução de Ulisses para o português, organizada por Henrique Xavier, a ser publicada pela Ateliê Editorial. Aliás, cito, por uma questão política, traduções de mulheres, pois não queremos mais ficar na cama ou no vão da escada como falarei logo mais. Voltando ao café da manhã, quando Leopold leva o desjejum para ela, ela pergunta a ele o significado da palavra “metempsicose”:

– Aqui – disse ela. – O que isso quer dizer?

Ele se inclinou para baixo e leu perto do polegar coberto de esmalte.

– Metempsicose?

– Sim. Quem é ele quando está em casa?

– Metempsicose – disse ele, franzindo as sobrancelhas. É grego: do grego. Isso significa a transmigração das almas.

– Ó, droga! – disse ela. – Fale com palavras comuns. (Tradução de Bernardina Pinheiro)


Hillé, por outro lado, pergunta ao marido Ehud o significado da palavra "abandono" e ele a explica. Após a explicação, diferentemente de Leopold, Ehud pede um café à esposa: “Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud compreender o quê? isso de vida e morte, esses porquês escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, hen?”


Deve-se notar que nem Bloom nem Ehud confiam no intelecto de suas mulheres: Bloom acredita, por exemplo, que Molly deveria ler um livro mais simples do que aquele no qual aparece a palavra metempsicose; Ehud pensa que as mulheres deveriam “ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento”, fazer um café, ou seja, ficar restritas às atividades domésticas.


As duas palavras que chamam a atenção de Molly e de Hillé têm algo em comum. Metempsicose é a transmigração das almas, por meio da qual uma alma deixa de habitar um corpo para habitar outro corpo: humano, animal ou vegetal. O significado de abandono (abandono, renúncia) e de metempsicose em algum momento se aproxima. Em ambos os casos, um corpo está desabitado ou abandonado. Assim como Molly e Hillé são abandonadas quando seus maridos saem de casa.


Leopold Bloom sai de casa de manhã e segue seu dia normalmente, um dia de um homem do início do século XX em Dublin, enquanto Molly passa o dia em seu quarto e, ao que parece, a maior dele parte na cama. Hillé, antes mesmo da morte do marido, já está restrita ao espaço privado da casa e aos poucos se instala em um vão da escada. Após a morte de Ehud, ela sabe que será ainda mais "difícil sair do vão da escada". Molly e Hillé têm uma vida restrita ao espaço de suas casas.


De acordo com Rebecca Solnit, como se lê em Wanderlust: A History of Walking, um fato que ocorria no passado, e que a meu ver, de certa forma, se estende até o presente, era o de que, para manter as mulheres “privadas” ou sexualmente acessíveis a um homem e inacessíveis a outros, toda a vida delas seria consignada ao espaço privado da casa que servia como uma espécie de véu de alvenaria.


Por que Molly e Hillé não se rebelam e saem de suas casas? Porque elas acreditam que estas pertencem a elas. Molly Bloom é cantora, Leopold Bloom “permite” que ela seja, assim como certas mães do século XIX permitiam que suas filhas estudassem, desde que voltassem para casa como se nada tivesse acontecido e não fizessem nada de excêntrico, como lembra Virginia Woolf em texto publicado em 1927.


Hillé não sai de casa porque lá ela desaparece para os outros, principalmente para os outros homens, e para ela mesma. No passado, contudo, talvez antes de se casarem, Hillé e Ehud saíam para passear.


Hillé tem uma relação complicada com o marido. Ela parece se cansar de viver como a esposa que faz café e recebe carícias quentes de Ehud, ou como uma mulher de quem o marido exige que cuide do corpo: “se cuidasses um pouco do teu corpo”, ele diz.

Enquanto o marido de Hillé estava vivo, ela “engolia o corpo de Deus”; assim, ela transmigrou para o corpo de Deus e esqueceu cada vez mais o próprio corpo e o do companheiro: “te deita, te abre, finge que não quer mas quer, me dá tua mão, te toca, vê? está toda molhada, então Hillé, abre, me abraça, me agrada”. É dessas investidas que ela escapa.


Em Recordações da minha inexistência: memórias, Solnit lembra que muitas mulheres tentam “desaparecer” ou se apagar e se calar para dar mais espaço aos homens, um espaço onde a existência de uma mulher é considerada uma agressão e sua ausência é uma forma de graciosidade, aceitação. Talvez por isso Milly Bloom, filha de Molly e Leopold, ausente da casa dos pais, seja vista com olhos tão bons pelo pai.


Molly Bloom, quando fala, fala para si mesma, não para os outros; ninguém ouve a sua voz, exceto quando ela canta, mas cantando ela não expõe suas ideias, mas a ideia de outros. Hillé também parece falar para si mesma, todos os diálogos saem de sua cabeça, de suas memórias fragmentadas. Se Molly passa boa parte do romance na cama, Hillé, como diz o marido, se encolhe e encolhe tanto que acaba em um vão da escada.


Tanto Molly quanto Hillé conhecem a infidelidade de seus parceiros; sobre isso elas divagam, se consomem, não por causa da infidelidade, mas porque sabem que não podem ou não deveriam agir da mesma forma.

______________________________________________________________________________________

* Autora de Para ler Finnegans Wake de James Joyce e James Joyce e seus tradutores. Organizou e cotraduziu Finnegans Rivolta, a tradução integral de Finnegans Wake, de James Joyce.

35 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page