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O Maiakóvski da Rússia, o Maiakóvski do Brasil

Por Astier Basílio


Desde que nos mudamos para Moscou, há sete anos, uma questão intrigava: como os russos viam o poeta Vladimir Maiakóvski? Qual era o seu legado? Que lugar lhe é reservado pela crítica e pelo público? Esta questão, em alguma medida, já foi abordada pelo Professor Livre-docente de Literatura e Cultura Russa na USP, Bruno Gomide: “Não há dúvidas sobre a importância de Maiakóvski para a poesia russa. Em toda parte, ele ocupa uma posição relevante, mas não, mesmo na Rússia, tão central como a de que dispõe no Brasil”.


Embora não dê para encontrar uma resposta exata a uma pergunta de natureza subjetiva, é possível ter uma ideia disso ao compartilhar o relato de nossa experiência não só acadêmica, mas na vida cultural moscovita. Não foram poucas as vezes que ouvimos falar em Maiakóvski, no período do mestrado no Instituto Púchkin, bem como agora, no período de finalização do doutorado no Instituto Maksim Górki. E não foram poucas as vezes, fora do âmbito acadêmico, em noites literárias, lançamentos de livro e em festivais de literatura, que tivemos a oportunidade de perguntar a opinião de literatos russos a respeito de Maiakóvski.


Chegamos à conclusão de que a melhor forma de compreender a importância de Maiakóvski no panorama da poesia russa seja vê-lo no contexto histórico em que surgiu e não apenas no horizonte da experiência vanguardista.


Ao contrário do Brasil, em que o Modernismo se instaura pela vanguarda, sendo ele próprio a escola a superar o Parnasianismo, na Rússia sua instalação se dá pelo surgimento do Simbolismo e uma década depois, pelo aparecimento simultâneo de várias escolas com linhas estéticas divergentes, sem que os simbolistas fossem de todo considerados como ultrapassados. Tem-se como um dos marcos do Modernismo russo, a conferência escrita em 1892 por Dimitri Merejkóvski (1865-1941): “Sobre as razões do declínio e sobre as novas tendências da moderna literatura russa” («О причинах упадка и о новых течениях современной русской литературы»).


Assim sendo, teríamos o Simbolismo como primeira escola moderna. Ao lado de Merejkovski podem ser listados aqui como os principais representantes do que veio a ser chamada de a velha geração simbolista: Zinaida Gippius (1869-1945), esposa de Merejkovski – o casal também se aventurava na prosa; Valeri Briusov (1873-1924), além de poeta, crítico respeitado e um dos primeiros a teorizar a metrificação do sistema russo; e Constantin Balmont (1867-1942), o mais popular dos poetas simbolistas. A nova geração pode ser representada por nomes como Viatcheslav Ivanov (1866-1949), poeta que em sua “torre”, em São Petersburgo, mantinha uma oficina de formação de outros poetas; Andréi Biéli (1880-1934) poeta que também marcou sua presença no romance; e Aleksandr Blok (1880-1921) tido por muitos como maior expressão da poesia russa da Era de Prata e até como o maior poeta do século XX.


A vanguarda, por sua vez, surgirá dentro do Modernismo como resposta às inquietações do século XX. Embora hoje sejam classificados como futuristas, muito em função do que a imprensa escrevia, categorizando grupos diferentes sob a mesma denominação, em 1910 surgiam os “Budetlyane” liderados por David Burliuk (1882-1967) e tendo como expressões máximas Vielimir Khlébnikov (1885-1921) e Aleksiéi Krutchônikh (1886-1968). Naquele mesmo ano, o grupo iria mudar de nome para “Gilea”. Em 1911, surge o primeiro grupo com denominação inspirado no movimento italiano criado por Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), o ego-futurismo, sob a égide de Igor Sievieriânin (1887-1941), poeta mais individualista, sem pretensão de manter sob si a liderança de um grupo.


O futurismo russo terá ainda, abrigados sob estes princípios estéticos, outros grupos como “Centrífuga”, de Moscou, do qual fez parte o poeta Boris Pasternak (1890-1960). Vladimir Maiakóvski (1893-1930) vai se integrar aos Budetlyane um pouco mais tarde, em 1912, e àquela altura o grupo já se denominava “Gilea”. No ano seguinte, os poetas passaram a atuar juntos com os artistas plásticos da União da Juventude, grupo do qual fazia parte Kazimir Malevich, e desta junção resultou o nome Cubo Futurismo.

A respeito dos vários grupos sob denominação comum, se faz-se oportuno registrar a opinião de Maksim Górki, em 1915, sobre o tema: “Não existe futurismo russo, existe apenas Igor Sievieriânin, Maiakóvski, D. Burliuk e Kamiênski. Entre eles há sem dúvida pessoas talentosas que com o tempo serão separadas do joio e crescerão em importância”.


O Modernismo russo comportou ainda outras tendências que não se propunham vanguardistas, mas postulavam uma evolução, como é o caso do Acmeísmo, com Nicolai Gumiliov (1886-1921), Anna Akhmátova (1889-1966) e Óssip Mandelstam (1891-1938); o Imaginismo, com Sierguéi Iessiênin (1895-1925); além dos poetas modernos que não pertenciam à escola nenhuma como Innokenti Ânienski (1855-1909), considerado por muitos como o pai do modernismo russo, grande poeta que influenciou a geração posterior à sua; Ivan Bunin (1875-1953), poeta de viés mais clássico, primeiro russo a vencer o prêmio Nobel de Literatura; Mikhail Kuzmin (1872-1936), pioneiro na literatura gay russa, poeta que Vielimir Khlébnikov considerava seu mestre; e Marina Tsvetáeva (1892-1941), autora cada vez mais conhecida entre nós, que dispensa apresentações.


É compreensível que o termo “Era de Prata” não seja tão bem apreendido e difundido na dimensão que deveria, entre nós. Pesa o fato de que o maior divulgador da literatura russa no país, Boris Schnaiderman (1916-2017), não ter se ocupado do assunto e, como exemplo, sequer mencionou o termo no prefácio da referencial antologia Moderna poesia russa (1968), traduzida em parceria com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, a quem, seguramente, pode ser creditado a consolidação, no Brasil da obra de Vladimir Maiakóvski. Tal “lacuna” foi observada por Bruno Gomide, no artigo que citamos anteriormente e de onde destacamos outro trecho bastante significativo que faz referência à recepção da Era de Prata no Brasil: “Boris Schnaiderman praticamente não tocou nas especificidades desse período ou fez qualquer tipo de inventário de sua vasta riqueza musical, pictórica, poética ou literária”.


Se formos observar o que houve na Rússia, também encontraremos dificuldades. Apesar das constantes disputas na esfera acadêmica nos dias de hoje sobre a primazia no uso do termo, convencionou-se creditar ao imigrante russo, o escritor Nikolai Otsup (1894-1958), o pioneirismo no uso da expressão, ao escrever, em Paris, o artigo: “A Era de Prata da poesia russa (1933)”. A expressão seria consolidada em 1962 com o livro No parnaso da Era de Prata (На Парнасе Серебряного века ), escrito por Serguêi Makóvski (1877-1962), editor da Apollon, uma das principais revistas russas pré-revolucionárias.


O caso é que esta obra também foi publicada em Paris, à época principal centro migratório que reunia a elite intelectual que havia ido embora da Rússia após a chegada dos bolcheviques ao poder que, por sua vez, só a muito custo reconhecia a produção literária russa feita no exterior. Vigorou durante, bem dizer, toda a existência da URSS a sentença de Trótski: não existe literatura russa fora da Rússia. Praticamente, apenas com a abertura política instaurada com a Perestroika, no final dos anos 1980, é que aos poucos a expressão Era de Prata passou a integrar o vocabulário acadêmico russo. E isso pode ser atestado pelo depoimento do professor de literatura russa Nikolai Alekseevich Bogomolov (1950-2020), em palestra feita em 2018: “este termo há uns 30 anos, era absolutamente, um tabu por razões de cunho político. O poder soviético não gostava muito quando era lembrado que havia uma outra cultura russa.” Um exemplo de como a União Soviética refutava o termo Era de Prata pode ser visto no título de uma antologia poética editada em 1977: “Poesia russa do começo do século XX: período pré- revolução de Outubro”.


Em face de toda esta questão historiográfica, neste livro procuramos não apenas traduzir Maiakóvski mas tentamos, ao mesmo tempo, inseri-lo no contexto histórico da Era de Prata, sobretudo com o ensaio biográfico “Entre o rei morto e o rei novo, 1913, o batismo poético de Maiakóvski” final desta edição.


Se é fato conhecido e fartamente propalado que Maiakóvski se via como discípulo de Vielimir Khlébnikov, este, por sua vez, proclamou como mestres não só o já citado Kuzmin como também o simbolista da nova geração Viatcheslav Ivanov. Aliás, quando os seus colegas futuristas decidiram depreciar Kuzmin inserindo seu nome no manifesto “Uma bofetada para o gosto do público”, Khlébnikov deixou clara sua total discordância e, ao ser vencido, prometeu escrever uma carta à imprensa marcando sua posição contrária, porém, não chegou a publicá-la. Tanto Ivanov como Kuzmin eram contemporâneos de Maiakóvski que a ele sobreviveram. Mencionamos estes fatos para mostrar a diversidade estética e estilística deste que é um dos períodos mais férteis da poesia mundial em todos os tempos, a Era de Prata. Se, em certo sentido, já está pacificado que a Era de Prata iniciou-se no começo da década de 1890, seu final ainda é motivo de discussão. Porém, há três períodos que estão entre os mais evocados para determinar o seu término: 1) o ano de 1921, com o fuzilamento de Nicolai Gumiliov pelos bolcheviques e a morte de Aleksandr Blok 2) o ano de 1922, com a morte por inanição de Vielimir Khlébnikov 3) 1934, com a realização do I Congresso de Escritores, no qual foi anunciada a implantação do Realismo Socialista. Feitas estas observações mais abrangentes sobre a Era de Prata, que pode ser considerada como a boneca maior desta matrioska, na qual seria abarcada o Simbolismo, o Futurismo, o Acmeísmo, o Imaginismo… voltemos à nossa questão inicial: qual seria o lugar que Maiakóvski ocuparia na literatura russa. Não foram poucas as vezes que escutamos no Brasil que Maiakóvski seria o maior poeta russo de todos os tempos. Este juízo de valor não encontra respaldo na Rússia, que considera como sua maior expressão literária o poeta Aleksandr Púchkin (1799-1837), glória da Era de Ouro e “o nosso tudo”, conforme expressão do crítico literário Apollon Grigoryev (1822-1864), tornada provérbio e repetida frequentemente por aqui.


Não sendo, portanto, o maior poeta de todos os tempos, caberia a Maiakóvski o título de maior poeta de seu tempo, então? Raramente, ouvimos alguém externar tal juízo de valor. A maioria credita a Aleksandr Blok o título de maior poeta da Era de Prata. Poeta por quem, aliás, o próprio Maiakóvski tinha uma profunda relação de respeito e, como praticamente todos os seus contemporâneos, reconheciam nele o timbre e a força de um poeta maior. Há um episódio bem ilustrador disso. Em 1914, ao ouvir do poeta Lev Nikulin que Blok não lia bem os próprios poemas, Maiakóvski retirou-se e rabiscou num papel dois traços verticais com números: “De dez poemas meus, cinco deles são ótimos, três medianos e dois ruins. De Blok, de dez poemas, oito são ruins e dois são ótimos, mas tão ótimos que, provavelmente, não me é possível escrever daquele jeito”.


Mas, então, qual seria o papel que Maiakóvski ocupa na poesia russa? Em torno do poeta há, pudemos constatar, uma unanimidade: a sua fase pré-revolucionária, que é respeitada por praticamente todos. Como ilustração de um pensamento comum por aqui, trazemos um trecho de um ensaio escrito pela grande poeta do underground soviético, Yelena Schvartz (1948-2010): “O que Maiakóvski seria para a poesia russa se em 1916 ele tivesse morrido ou se dissipasse então pelos espaços? Ele, bonito, de vinte e dois anos, teria sido o nosso Rimbaud”.


A rebeldia e a irreverência conferiram a Vladimir Maiakóvski a preferência no coração do público jovem. É o que atesta levantamento feito, em 2022, pela revista de poesia russa Prosodia. De nossa parte, podemos corroborar isto. É comum ver o rosto de Maiakóvski em bolsas, camisetas, além de ser figura comum em memes nas redes sociais, bem como seus poemas são musicados com frequência por rappers. Para ficarmos só em eventos mais recentes, em 2011, foi apresentado no principal canal de televisão aberta a série Maiakóvski.

Dois dias (direção de Dmitri Tomachpolski e Aliona Demyanenko). Desde 2014 é realizado um festival de poesia, com formato de competição futebolística, que leva o nome de Maiakóvski. Ano passado lançou-se o quinto, dos vinte volumes, das obras reunidas de Maiakóvski, sob a edição de uma equipe de especialistas do Instituto de Literatura Mundial Maksim Górki. Tivemos a honra de participar do lançamento, ocasião em que fizemos uma comunicação sobre a presença de Maiakóvski na literatura brasileira, bem como recitamos trecho de nossa tradução do poema A Nuvem de Calças. 


Feitas estas observações, voltemos ao nosso livro. Em Eu! a experimentação não foi algo que ficou restrito apenas ao conteúdo, mas estendeu-se, inclusive, à confecção tipográfica. Maiakóvski se encarregou da ilustração da capa, na qual, antecedendo o nome da obra Eu!, colocou uma vírgula. É de onde vem o título de nossa tradução, a partir da experimentação gráfica que está presente no próprio original.


O livro de Maiakóvski é composto de um poema que se desdobra em quatro outros, numa espécie de ciclo: “pela estrada de minh’ alma…”, “algumas palavras a respeito de minha mulher”, “algumas palavras a respeito de minha mãe” e “algumas palavras a respeito de mim mesmo”. Para uma melhor compreensão do leitor, reproduzimos nesta edição o livro original na íntegra, tal como foi publicado em 1913.


O método de trabalho empregado na tradução consistiu no estudo dos poemas, amparado no repertório de análises, produções acadêmicas e ensaios existentes na língua russa, além de anotações feitas a partir de palestras registradas em vídeo, além da leitura de biografias e livros de memória. Foi ainda primordial ouvir a leitura e declamação de todos os poemas que foram por nós traduzidos: desde registros de leitores anônimos até apresentações de atores de renome e, supremo privilégio, escutar o próprio Maiakóvski recitando o poema “E você?”.


Maiakóvski além de ter sido um poeta de alta voltagem experimental, encantava as plateias com a declamação de seus poemas, que, por serem extremamente musicais, eram afeitos ao grande público, para serem ditos em volta alta - para usar aqui o termo de João Cabral de Melo Neto. Ao optar por trazer todos os quatorze primeiros poemas de Maiakóvski, nosso objetivo foi oferecer ao leitor brasileiro a oportunidade de acompanhar a evolução do poeta que, inicialmente, compunha poemas seguindo os princípios da versificação e aos poucos foi introduzindo novos elementos e abrindo rupturas.


Para uma melhor compreensão do jogo intertextual, além dos quatorze poemas iniciais de Maiakóvski, traduzimos ainda poemas de Anna Akhmátova, Aleksandr Blok, Innokenti Aniênski, Igor Sievieriânin, Constantin Balmont e Aleksiéi Apúkhnin.


Sobre este período inicial de criação, Roman Leibov, doutor em literatura e professor docente de literatura russa da Universidade de Tartu, na Estônia, observou que, do ponto de vista estrutural, os poemas de Maiakóvski “eram escritos corretamente pela métrica do sistema sílaba-tônico, mas em alguns já havia quebras, metros não tradicionais, ou seja, Maiakóvski não havia ainda encontrado a sua voz”.


O objetivo deste livro é justamente o de apresentar o jovem poeta Maiakóvski na busca de sua dicção. Na tarefa de verter para o sistema poético em língua portuguesa esse processo de descoberta inventiva de Maiakóvski, nos valemos do octossílabo, eneassílabo, além do decassílabo heróico, sáfico e em gaita galega, bem como o hendecassílabo, ainda hoje usado pelos cantadores nordestinos sob o nome de galope à beira mar.


Por fim, acreditamos que o amor devotado por Maiakóvski não vai se alterar com o fato de que o juízo que fazemos dele não corresponde com o de seus patrícios. Em termos de comparação, é como se um russo soubesse que, no Brasil, o escritor Jorge Amado não é tido por nós como a maior expressão literária. Isto não mudaria em nada a estima pelo romancista baiano. Acreditamos que ao oferecer ao leitor brasileiro uma maior contextualização histórica e estética do rico universo do poeta Vladimir Maiakóvski estaremos dando nossa contribuição para que ele continue sendo cada vez mais amado e admirado.

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Astier Basílio é poeta, tradutor, mestre em literatura russa pelo Instituto Estatal Púchkin e doutorando em literatura russa pelo Instituto Maksim Górki, de Moscou.

 

 

 

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