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Pérolas poucas

Por Ademir Demarchi


Pérola. Francisco Ivan. Natal: Sebo Vermelho, 2021.


A capa perolada, os tipos barrocos floreados escolhidos a dedo, as folhas de rosto e internas impressas em azul imperial, uma edição cuidadosa, numerada, assinada e com marca d’água do autor, as remissões – no sentido de remeter, ainda que ao fim conclua o leitor que poderia ser no sentido de perdoar... – a autores vários como Joyce, Lorca, Baltasar Gracián, Lorca, Sarduy, Lezama, Rilke, Ovídio, Maiakovski, Miriam Chnaiderman, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos e a cidade imaginosa de Istambul que se mescla sensorialmente com Natal...


Tudo isso que num primeiro momento atrai logo parece começar a ruir diante da pretensão do autor, expressa no preâmbulo, de que tem a certeza de que “O estilo utópico seria o barroco” e de que “foi agraciado” com “o dom especial dos poetas barrocos”, “Espírito que infundiu em meu intelecto o dom da poesia barroca de todos os tempos pelos séculos dos séculos amém”.


Feita essa reza, dito o amém, cavada a desconfiança, eis que se envereda pelos poemas e se constata que o autor se cegou pelo próprio palavrório e ficou na superfície da linguagem, na casca superficial do que poderia ser uma imersão na linguagem barroca com a possibilidade de detonar o senso comum. Porém não é isso o que ocorre, uma vez que sua escrita resulta pasteurizada e uniformizada justamente de senso comum e da superfície o autor descamba para o clichê e para os elogios baratos que resultam babosos quando se afunda nas loas aos ditos concretistas. Assim, do rés da admiração, se arrasta ao rés do chão, cada vez mais longínquo da imagem inicial da lua, a pérola inicial, que pretendia barroca, que poderia ter se singularizado em sua escrita se essa experiência de fato tivesse se aprofundado no sentido estético pretendido e, assim, extraído sentidos barrocos do Sertão.


Afastada a questão estética barroca, que parece ter sido aplicada como uma pátina fantasiosa sobre essa escrita, destaca-se, no entanto, no geral, um lirismo memorial muito próximo das linguagens da cultura popular nordestina, que se evidencia como o âmago dessa poesia de característica retórica, sendo aí que o autor de fato acerta e teria alcançado a circularidade perfeita da pérola.

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