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PARA UMA METAFÍSICA DO SONHO

Por Márcio Suzuki


Antes de mais nada, cumpre dizer que o título do livro não é do próprio Schopenhauer, mas quer dar conta do critério que pautou a escolha dos textos deste volume, que foi o de tentar destacar a importância do sonho no conjunto do seu pensamento. Os textos provêm de duas fontes principais, as obras publicadas e os manuscritos póstumos. Das obras publicadas, foram traduzidos dois ensaios do volume 1 dos Parerga e Paralipomena: a “Especulação transcendente sobre a aparente intencionalidade no destino do indivíduo” (texto integral) e o “Ensaio sobre a vidência” (excerto). Nesses dois escritos o leitor encontra o essencial das reflexões maduras de Schopenhauer sobre os sonhos. Um tanto deixados de lado pelos especialistas, mas também pelos leitores em geral, pois — principalmente no segundo caso — se considera que estejam demasiadamente marcados pela ciência ou pseudociência da época, eles na verdade merecem ser retomados com olhos mais favoráveis.


O primeiro pode ser lido à parte, pois trata da questão do “fatalismo transcendente”, um fatalismo que, combinando mecanicismo e organicismo, causalidade eficiente e causalidade final, determina o destino dos indivíduos. O segundo texto, traduzido apenas em parte, também é importante por descrever as diferenças qualitativas entre os diversos tipos de sonho.[1] Além disso, se é que também vale o argumento de autoridade, os dois textos chamaram a atenção de ninguém menos que Sigmund Freud e Jorge Luis Borges. Do criador da psicanálise, é conhecida sua leitura das reflexões schopenhauerianas acerca do sonho, comentada na Introdução. Quanto a Borges, dentre o sem-número de menções do escritor argentino a Schopenhauer em seus livros e entrevistas, cabe lembrar a do conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, em que, explicando as ideias fantásticas de um grande pensador daquele planeta imaginário, o narrador escreve: “Schopenhauer (o apaixonado e lúcido Schopenhauer) ensinou uma doutrina muito parecida no primeiro volume de Parerga und Paralipomena”.[2] Borges está se referindo justamente à doutrina do sonhador único (a Vontade), que ele transformará numa espécie de panteísmo onírico — fundamental para sua concepção do fantástico, assim como a ideia de que é a ação que revela o caráter do indivíduo.


Dos textos póstumos, a seleção traz principalmente os fragmentos relacionados à fisiologia e à dramaturgia onírica. Muitos deles são versões iniciais de passagens retrabalhadas nos textos publicados; elas têm interesse por mostrar o trabalho do escritor e sua reflexão in fieri, apresentando também algumas nuances diferentes e importantes em relação às versões definitivas. Um último extrato, intitulado “Sobre o interessante”, também foi traduzido porque apresenta uma teoria acerca do drama e da épica que é bem diversa daquela conhecida na obra publicada pelo autor. Nesse excerto, Schopenhauer trabalha com a possibilidade de a literatura não se submeter inteiramente à contemplação estética desinteressada do sujeito puro do conhecimento, podendo estar sujeita ao plano “impuro” da Vontade. O excerto chama a atenção, porque nele se tem o esboço de uma concepção do drama e do romance que foge bastante daquilo que é preconizado na poética aristotélica.


A edição utilizada para a tradução dos textos publicados é o volume 4 das Sämtliche Werke, organizadas por Wolfgang Frhr. von Löhneysen (Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1974). Essas Obras completas foram republicadas, com os mesmos volumes e paginação, pela editora Suhrkamp de Frankfurt em 1986. Para a tradução dos fragmentos póstumos foi utilizada a edição em seis volumes de Arthur Hübscher: Arthur Schopenhauer, Der handschriftliche Nachlaß (Munique: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1985).


[1] Sobre essa diferenciação qualitativa dos tipos oníricos, ver Stephan Atzert, “Zur Rolle des Traums in Schopenhauers System”, em Was die Welt bewegt. Internationaler Kongress zum 150. Todestag Arthur Schopenhauers. Org. de Matthias Kossler e Dieter Birnbacher (Würzburg: Koenigshausen und Neumann, 2014), pp. 4 ss. [2] J. L. Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, em Ficções. Trad. de Davi Arrigucci Jr. (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), p. 27. Para uma análise da importância de Schopenhauer na concepção da literatura borgiana, ver O sonho é o monograma da vida: Metafísica schopenhaueriana e idealismo fantástico borgiano (São Paulo: Editora 34, no prelo).

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