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Por uma poética da memória

Por Ana Maria Haddad Baptista

Quando se pensa que tudo está quase perdido ou que os tempos líquidos afogaram, de forma definitiva, as memórias dignas de permanência em termos de literatura...eis que uma voz se levanta e ressoa no impossível vazio de um abismo incomensurável. Eis o que a leitura deste romance nos diz em primeira mão. Ainda existe uma literatura que pode ser chamada como tal. Ainda existe uma literatura que não se rendeu aos apelos de Narciso e seus fiéis seguidores sequiosos e espelhados nas redes das raízes dos nenúfares que enredam, maliciosamente, almas despedaçadas como diria Spinoza.


A voz de Marco Bin, entre tantas outras coisas, deste livro, que poderiam ser ressaltadas, se ergue. Muito clara a sua proposta – diga-se de passagem – bastante sedutora. Desviam-nos, inclusive, dos belos campos de girassóis e lavandas que circundam a belíssima região de Lucca.


Lembremos de Sartre ao enfatizar que um escritor, autêntico, não resolve escrever algumas coisas. Mas, sim, resolve escrevê-las de um determinado modo. Nessa medida, é que prevalece o estilo! Complemento: a essência da obra. A alma da obra.


Este livro em termos estruturais não poderia ser mais feliz. Capítulos curtos, com a predominância do discurso indireto, poucos diálogos, que instigam a continuidade da leitura e reforçam a unidade necessária para que o leitor, de fato, mergulhe na solidão essencial da leitura. Como declara Blanchot: "A solidão da obra – a obra de arte, a obra literária – desvenda-nos uma solidão mais essencial. Exclui o isolamento complacente do individualismo, ignora a busca da diferença; não se dissipa o fato de sustentar uma relação viril numa tarefa que cobre toda a extensão dominada do dia. Aquele que escreve a obra é apartado, aquele que a escreveu é dispensado" [1].


Somos seduzidos a mergulhar nas memórias de um homem em busca (dolorosa?) de si mesmo. Como se estivéssemos entrando nos entremeios das linhas de fuga propostas por Debussy. Suaves. Sutis. Mas que fique claro: o homem deste romance não é propriamente um homem. Na verdade é um devir-homem. Em outras palavras: o conceito de devir de Deleuze – (tão precioso para a filosofia) – justamente porque o escritor em referência possui voz universal. Expressão fundamental para a literatura que se pode denominar como tal. A personagem expressa claramente a situação de um ser humano nu e cru. Sem pele. Desnudo. Sem qualquer indício de identificação que poderia desmoronar a universalidade. Desprende-se, com absoluta autonomia, da obra. Desprende-se uma voz. A voz de uma interioridade que se propõe a fazer um balanço severo e honesto de sua vida. Aquela que se foi e o que está por vir.


Ângelo Domani é a personagem central. Ora é chamado pelo narrador de Ângelo Domani, ora de Ângelo, ora de Domani. De forma alternada. Tudo indica que tal recurso do autor é a intenção de mostrar uma personagem em busca de uma unidade. Afinal, como esclareceu Kant, não é o tempo que nos é interior. Nós é que somos interiores ao tempo. E como tal, a nossa subjetividade não para de nos empurrar para estratos profundos do nosso próprio eu. Não para de nos cindir.


De fato, Ângelo Domani ao retornar a Bungavília compara o presente com suas reminiscências pretéritas e mergulha num misto de sonolência e angústia. Como diria Jankélévitch: "É antes o caminhar de alguém que não vai a nenhum lugar e que, em todo caso, vai mais longe, o caminhar de alguém que não sabe aonde vai" [2]. Nessa medida, nós leitores, caminhamos com Ângelo. Nosso passado é convocado de imediato e mescla-se ao do personagem: "Os pensamentos turbilhonaram entre a fantasia e a realidade compungida, estimulados por uma vaga consciência anestesiada que não cessou de produzir imagens densas em sua beleza, intensas em sua descontinuidade (...) Exangue, sucumbiu às demandas de seu corpo, encontrando um sutil equilíbrio entre lucidez e devaneio ["Trata-se aí de dois registros de temporalidade. Aquilo que foi já foi: ninguém escapa a essa lei irrevogável, pois essa lei não é outra senão o princípio lógico da identidade aplicada à temporalidade em geral. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de se deter nos jardins nostálgicos do devaneio do ter-sido!"[3]], num processo que duraria não mais que poucos minutos".


Pensando na perspectiva, lúcida e feroz, de Deleuze, quando estabelece que a filosofia, as ciências e as artes em geral, – incluindo a literatura –, são produtoras de conceitos, ao mesmo tempo em que podem estabelecer pontos tangenciais ou não, entre si, podemos afirmar, seguramente, que Marco Bin dialoga com conceitos de tempo-memória entrelaçados com diversas perspectivas filosóficas. Ou seja, em que medida podemos, de fato, recuperar o passado? Bergson e outros grandes pensadores já fundamentaram, de forma magistral, que quando se recupera um passado não temos como escapar da "fantasia e a realidade compungida" como afirma o autor. Somos, na realidade, presos pelas grades do presente que apenas nos concede um passado que jamais poderá ser revivido como uma memória em sua pureza.


Na tentativa de capturarmos nossas lembranças não existe mecanismo de memória que as isole do que vivemos posteriormente. Misturam-se fantasias, imaginação e muitos outros elementos. "Ultrapassou às escuras os umbrais de Buganvília, sem se dar conta do avanço das horas e de seu afastamento progressivo. A friagem noturna abraçava-lhe o corpo desprotegido, provocando-lhe arrepios. Alternava sinais de carona em meio a seu deslocar incerto, até um caminhoneiro acudir aos seus acenos. As luzes cintilantes de Buganvília, seus sons, seus olores, sua gente, sua história, sua cumplicidade, tudo se revelou de imediato em um passado irreversível ao ser aceito como carona e desaparecer rumo ao horizonte desconhecido". O que se passou com Ângelo Domani? O que ele nos diz? Os palácios da memória, por lembrarmos de Santo Agostinho, nos alertam que de fato, o passado não pode ser mudado e temos que aceitá-lo como tal. No entanto, "as luzes cintilantes" podem nos atravessar e indicar instantes privilegiados para que possamos tecer cumplicidades prolongadoras de um devir-memória. Memórias do futuro.


***

primavera [e como tal prefácio do verão] 2022


[1] Maurice Blanchot. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 11. [2] Wladimir Jankélévitch, Béatrice Berlowitz. Em algum lugar do inacabado. Tradução de Clóvis Salgado Gontijo. São Paulo: Perspectiva, 2021. p. 224. [3] Idem, p. 112.

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