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“SÓ AMO OS POEMAS QUE PERCO”

Por Lau Siqueira


Numa bela edição do projeto Laranja Original o livro “A casa mais alta do teu coração”, de Clarissa Macedo, nos convida a pensar nos enigmas e litígios da poesia contemporânea. O poema além do verso. O verso além da artesania e da supremacia das formas. Como se significado e significante formassem um jogral de silêncios. Tudo é revelação e nada é definitivo. Eis uma aventura da escrita que se prolonga na leitura.


Concluída a primeira leitura lembrei imediatamente de um achado recente num ensaio do Sérgio Buarque de Holanda: “o poeta não vê com os olhos, mas apesar dos olhos.” A poesia de Clarissa é um pouco isso. Disfarça cicatrizes ao transformá-las em linguagem. Emociona não pela corajosa esgrima temática, mas pelo ritmo impondo a forma e a proporção cabal do que foi dito. A exemplo da última estrofe do poema “Recordação” (pg.63): “Muitas foram as marcas que me puniram:/ a pedrada na cabeça/ a bacia de águas nos braços/ e um falo caído nos meus glóbulos de seis anos.”


A autora nos oferece um percurso que não se alinha nem se limita ao prumo. O que parece denúncia, também é uma destilação de lágrimas. Exige sempre uma segunda leitura, talvez uma terceira e quarta. Talvez mais outra, tamborilada num eco de silêncios retumbantes. Lá onde o voo e o pouso moram na beleza do pássaro. No corte das delicadezas sangrado no pulso e na pulsação. “É difícil deixar os mortos/ quando quem nos vela/ é um abcesso ríspido/ uma artilharia sem adeus/ um ensalmo sem riso/ uma sáfara sem pai.” (Sibarita, pág. 62).


“Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Obediências às regras; criação de outras (...)”. Seduzido pela leitura, busquei definições para o livro de Clarissa. Algo aproximado do que escreveu Octavio Paz em “O Arco e a Lira”. Afinal, ler é sempre um aprendizado e ler poemas é um desafio perene. Engrenagem de infinitos e incertezas. Precisei do poeta mexicano para ler melhor. Como o menino da história de Galeano que, ao descobrir o mar, exclamou: “pai, me ajuda a olhar”.


Na fatura dos seus versos a poeta naturaliza suas provações. “Só amo o poema que perco”, diz em “Inútil paisagem” - pág. 25. Num único verso oferece uma teoria e uma leitura crítica do livro inteiro. Seu horizonte, entretanto, se estende ao imensurável. Se alarga a cada passo. Habita poemas que atestam o vigor de um lirismo coberto com os mantos da inquietude. “Um salário de medos/ veste a carapaça/ tigre de oito metros”. Fecha a estrofe com um soco.


Acerca do que Clarissa Macedo representa na poesia brasileira do século XXI, onde estamos vivendo a simbologia de um ‘silêncio que antecede a explosão’, recorro ao que Micheliny Verunschk define na orelha do livro: “(...) a poesia de Clarissa é mais do que hábil, tem aquela centelha que deve animar a grande poesia: a capacidade de comover”. Aliás, o livro tem um peso adicional. Vem com prefácio de Mariana Ianelli, posfácio de Kátia Borges e quarta capa de Ronaldo Cagiano.


Dividido em duas partes, “Um lugar, ruínas” e a “A casa inacabada”, não perde a unidade em momento algum. Clarissa buscou suas exatidões num resumir-se quase subitâneo. A exemplo de versos como: “Um fósforo se acende na cancela/ e eu sou um engodo, assombração de mim mesma/ sem ti, perfurada e ressequida”. A autora define a diversidade e a unidade da obra com a mesma lâmina. Recorta seu território no fio da navalha para um exercício preciso.


“A casa mais alta do teu coração” traz o impulso de reerguer-se diante do espanto. Um grito regido pela soma de tantas subtrações. Um novo recompor de asas para uma permanência diante do abismo. Como o beija-flor que se equilibra na velocidade das asas. “Só, vivia à margem;/ mas o que não sabes/ é que, sem ti,/ sou a maior hóspede do exílio”, escreve numa estrofe do poema “Luto”.


O livro inteiro é um diálogo de ausências. Carrega para a ribalta as impermanências do tempo e a natureza aflorada da vida. As transformações naturais de quem reconhece a própria fragilidade, mas também o gatilho das reações mais corajosas. Uma obra que recorta memórias e vai tecendo palavras na largura de cada instante. O que parece ser profundo é ainda mais profundo no infinito das imagens que evocam a relação hostil das próprias vontades. Tudo ajustado na diversidade de timbres que afinam uma voz singular.


SOLISTA

Em todas as eras um alvéolo me namora. Ele, com seu idioma de topografia e ecos atrasados, me lança no rosto e nas mãos uma verdade: teu país te chacina. teus pais depositaram teu manto na porta de um lavabo teu amor te salgou o coração como quem observa a pólvora que come o pavio teus amigos estão na vida, a tentar entende-la e tu, como pano roto a secar sem enxágue, pulsa branda no mofo de tua própria estrada, a solista de um teatro em que ninguém paga entrada. (Clarissa Macedo)


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