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UM POETA DE INCALCULÁVEIS TEMPOS E ESPAÇOS

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • 20 de jun.
  • 6 min de leitura

Claudio Daniel

 

Augusto de Campos é o poeta central da literatura brasileira contemporânea, ou seja, desde a segunda metade do século XX até os dias atuais, e não apenas por sua obra poética autoral, tema de estudo do presente livro, mas também por seu trabalho como tradutor, ensaísta, crítico literário e pensador da poesia e da cultura. O poeta vivenciou um período conturbado de nossa história – dos governos nacionalistas de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart até o golpe de estado civil-militar de 1964, seguido por um período de vinte anos de ditadura militar, encerrado em 1984, quando teve início um processo de redemocratização. Foi contemporâneo do novo ciclo de industrialização do país, impulsionado por Juscelino Kubitschek, da construção de Brasília, projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, e de importantes manifestações de vanguarda na cultura brasileira: Bossa Nova, Tropicália, Cinema Novo, Teatro Oficina, Arte Concreta e Neoconcreta, Vanguarda Paulista. Augusto de Campos vivenciou e participou ativamente desse período de efervescência artística, tanto nas trincheiras da Poesia Concreta quanto em sua atividade como crítico, que contribuiu para a justa valorização de artistas como João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das parcerias musicais com Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Péricles Cavalcanti, Cid Campos e outros compositores de nossa música popular mais inventiva.


Claro: seu trabalho poético e teórico enfrentou, e enfrenta ainda hoje, os preconceitos de uma crítica literária conservadora, apoiada mais na sociologia do que na poesia, incapaz de compreender qualquer trabalho literário que não se enquadre nos escaninhos de uma concepção já anacrônica e conformista do fazer poético. Não foi apenas um embate com os epígonos de Antonio Candido, no âmbito da crítica acadêmica, e com a Geração de 45, que recusou as conquistas formais do Modernismo; houve ainda um segundo embate, em décadas posteriores, com os cultores de um coloquialismo e prosaísmo derivados de uma leitura redutora de Bandeira, Drummond e da repetição acrítica da Poesia Marginal, sem acréscimo de informação estética nova. Houve ainda outros embates com o Partido Surrealista Brasileiro, que considerava o Concretismo “frio e desumano”, e com outros grupos da vanguarda poética brasileira, como a Poesia Processo e a Poesia Práxis, sem mencionarmos a recepção pouco calorosa da mídia hegemônica da época, como a revista O Cruzeiro, que em uma de suas edições chamou a Poesia Concreta de “o rock and roll da poesia brasileira” (comparação que desejava ser depreciativa, revelando assim um duplo preconceito). A universidade também foi pouco receptiva ao trabalho do grupo Noigandres, formado pelos irmãos Campos e Décio Pignatari: nos departamentos de Letras de importantes universidades públicas, o estudo da poesia brasileira ia do Modernismo (sobretudo em suas vertentes menos radicais e inovadoras) até Ferreira Gullar e Adélia Prado, “saltando”, assim, as vanguardas das décadas de 1950 e 1960, sobretudo a Poesia Concreta. Houve ainda um outro embate, dessa vez fora do âmbito literário, com uma parcela da esquerda brasileira que considerava a Poesia Concreta “incompreensível para as massas”, contrapondo, às invenções formais do trio paulista, uma estética retórico-didático-discursiva cujo melhor exemplo talvez sejam os romances de cordel de Ferreira Gullar – autor que fez parte da tribo concretista no início do movimento e que poucos anos depois migrou para as fileiras do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, em meados de 1960. Será a partir da década de 1990, talvez, com o ingresso de novos professores concursados, que os cursos universitários passarão a estudar seriamente obras como Galáxias, de Haroldo de Campos, Poetamenos, de Augusto de Campos,  e a poesia inclassificável e desnorteadora de Décio Pignatari. Também a mídia hegemônica, sobretudo o antigo caderno Folhetim, do jornal Folha de S. Paulo, passou a publicar resenhas dos livros de Augusto de Campos, e ainda poemas, traduções e artigos do poeta, que teria algumas de suas obras publicadas por editoras como a Brasiliense e a Companhia das Letras, ampliando o seu público leitor.


Hoje, a importância da contribuição crítica e criativa de Augusto de Campos em nossa história literária é indiscutível, mas, apesar disso, poucos estudos foram publicados sobre o poeta, destacando-se o livro Sobre Augusto de Campos, organizado por Flora Süssekind e Júlio Castañon Guimarães, publicado em 2004 pela editora 7 Letras, além de trabalhos de mestrado e doutorado que não foram publicados no formato livro. Esta reduzida fortuna crítica deve-se, sem dúvida, à dificuldade da leitura e interpretação da poesia do autor paulista, ainda hoje provocadora, inventiva, radical, “difícil de ler”, sobretudo quando não são usadas as lentes apropriadas, aquelas da teoria literária mais avançada, como a desenvolvida por Umberto Eco em seu livro Obra aberta. A dificuldade acontece, sobretudo, porque esta é uma “poesia” que nasce como literatura e se desdobra para além da literatura: no início, por seu diálogo com as artes visuais – Caixa Preto, Poemóbiles, por exemplo, desenvolvidos em parceria com  o artista Júlio Plaza, poemas-objeto que escapam ao conceito tradicional de “livro” –  com a música, como acontece no CD Poesia é risco, criado por Augusto de Campos em parceria com o músico Cid Campos, e depois com as tecnologias eletrônicas, como os poemas interativos criados para serem acessados via computador no ciberespaço. Ezra Pound dizia que a poesia estava mais próxima da música e da pintura do que da literatura;  o autor de VivaVaia radicalizou esse conceito, trazendo a poesia para a era digital. Como explicar que Colidouescapo, Poetamenos ou Expoemas são “poesia” para leitores ou críticos que ainda insistem na ideia de que “poesia é sentimento” (ou seja, lirismo discursivo, em linguagem coloquial, sem preocupação estética ou estrutural)? Ou ainda, como explicar a tese da superação do verso tradicional  pela unidade verbivocovisual a quem ainda não assimilou sequer as conquistas formais de Oswald de Andrade, Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto?  


A obra de Augusto de Campos é desafiadora e necessita de uma análise crítica que esteja situada, também, no campo da vanguarda, para que os conceitos e métodos de avaliação estejam em sintonia com as obras estudas. Olhos novos para o novo. O próprio pensamento aristotélico-cartesiano, tão presente na cultura ocidental, é desafiado por códigos nos quais, em lugar da sucessão linear de signos, encontramos a simultaneidade, propiciada pela mobilidade estrutural, que em vez de uma mensagem unívoca transmite uma pauta plurívoca de mensagens afins, possíveis ou contraditórias, num planejado caos criativo. A lição do Lance de dados de Mallarmé foi aprofundada por Augusto de Campos, não apenas em sua sintaxe espacial e geometria textual, mas também em seu aspecto logopaico, como “máquina de produzir desordem”, para citarmos a frase de Ana Hatherly, expoente da Poesia Experimental Portuguesa (Po-Ex), que encabeçou revolução similar em Portugal. Em artigo publicado na revista Poiésis, da Universidade Federal Fluminense, afirmamos:


O Escritor, de Ana Hatherly, é um livro sem palavras, formado por linhas, formas gráficas, cores, letras, números, dispostos numa ordem geométrica caótica no espaço em branco da página, contrariando hábitos rotineiros de leitura. Dizer que este livro é um “romance” é um gesto transgressivo da autora, uma vez que a obra escapa a qualquer definição de texto literário, questionando inclusive o conceito de literatura, já que o seu “texto” é puramente visual. A impossibilidade de leitura linear desse livro estranho convida a inteligência do leitor a perder-se em seus intermináveis trajetos possíveis, numa aventura entre o risco e o cálculo planejada pela autora, que busca uma relação de cumplicidade criativa com o leitor. É evidente que neste labirinto destituído de centro que não oferece as regras de um programa para facilitar sua decifração, toda tentativa de leitura é uma temeridade, ou, mais exatamente, uma das quase infinitas possibilidades de construção do sentido; acrescentar mais uma é apenas cumprir o desígnio da própria obra, que rejeita certezas estáveis: seu território é o da instabilidade criadora, e nisso reside o seu encanto.


Claro: há evidentes diferenças entre a poética dos dois autores – em Ana Hatherly, há um grau maior de abstração / indefinição e uma desejada releitura do barroco visual português, em contraste com uma preocupação maior do poeta paulista com a clareza, mesmo no interior de uma selva selvagem de signos sobrepostos, mas ambos convergem na construção de uma outra lógica, menos linear que labiríntica, cujo símbolo geométrico não pode ser a linha, mas a espiral; uma lógica quântica, talvez – recordando que o conceito, em física, se aplica a partículas que podem se comportar simultaneamente como matéria e energia, além de conseguirem estar em dois espaços ao mesmo tempo, contrariando a mecânica newtoniana. A internet e a computação gráfica abriram um novo campo de possibilidades para a poesia, em que quase tudo é possível ao poeta, tendo como único limite a sua própria imaginação. Augusto de Campos é um poeta central em nossa literatura não apenas pelo conjunto de sua obra realizada até aqui, mas ainda por ser o ponto de partida para futuras experiências das novas gerações, para quem um manual de software ou um tratado de física avançada pode ser mais inspirador do que um poema de Adília Lopes, Cacaso ou Chico Alvim, por exemplo. A impossibilidade de uma leitura única, linear e o convite à inteligência do leitor para que explore um labirinto de intermináveis trajetos possíveis é talvez o legado mais inovador da poesia de Augusto de Campos, um poeta para o futuro.


São Paulo, fevereiro de 2026 

 

 
 
 

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2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

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