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UMA SEMÂNTICA DOS OLHOS

Por Claudio Daniel


Flor de malagueta, nova coleção de poemas de Neurivan Sousa, apresenta uma epígrafe de Carlos Drummond de Andrade – “Já sei a eternidade: é puro orgasmo”. Dialogando com o poeta mineiro, logo na primeira composição do volume, de apenas três versos, o autor escreve: “tu és pétala / e sobre tua pele / escreverei o meu poema”, profissão de fé em que o poeta associa o gesto erótico ao poético, que afinal se manifesta no corpo da página e na materialidade (sensível) da linguagem. O tema é reiterado no terceto seguinte, de onde foi extraído o título desse volume de versos: “teu pólen na ponta / desta língua de calígula / flor de malagueta”. O poeta, consciente da possibilidade de criação de efeitos sensíveis – sonoros, imagéticos, e por que não, táteis – no texto poético, explora todos os recursos de sua arte, em um Kama Sutra de metáforas, aliterações, assonâncias e metonímias que fazem vibrar o livro-leito em sucessivas vertigens. O poeta presta homenagem a toda uma tradição de autores libertinos, de Catulo a Omar Kahhayam, de Anacreonte a Aretino, de John Donne a Gregório de Matos, buscando traduzir o intraduzível e pronunciar o impronunciável, mergulhado na boca babilônica de sua amada. O corpo em sua inteireza de pele, carne, sangue, nervos, ossos, órgãos e músculos torna-se o corpo de papel, em que nos deliciamos com o desenho das palavras, as curvas das vírgulas, os orifícios das letras. Temos nesta coletânea pura sensualidade semântica, como acontece no poema medusa: “quero a naja/ que se aloja / em tua faringe / quente e úmida / na ambivalência / de uma medusa / caso não seja / para me saciar / não me devores”. Em outra peça, Neurivan de Sousa vai mais longe, prestando sua homenagem à mais deliciosa das teias de tarântulas: “esse escândalo / vermelho ardente / escancarado / para mim / flor de malagueta / os grisalhos pelos /da tua tarântula”, poema em que a palavra grisalho situa eros para além de qualquer mitificação geracional. A Grécia, berço não apenas da filosofia e da política, mas também do lirismo e do erotismo ocidentais, não poderia estar ausente nesta reunião de poemas: em acrópole, o autor escreve: “leio a bula / das tuas nádegas / como se fosse / escrita grega / o alfa e o ômega / desta gula / que te idolatra / na índole / dos cúmplices / e que busca / alcançar a tua / acrópole”. Poemas concisos, substantivos, quase matemáticos, que conciliam a herança da geometria cabralina ao humor oswaldiano (amor / humor) e à reflexão mundana de Drummond, que publicou na maturidade os seus poemas eróticos e pornográficos, que mostraram um lado menos conhecido do poeta mineiro, tão zeloso de sua privacidade. Assim como CDA, Neurivan de Sousa deslumbra-se com a nudez da ninfa, que “já é um alumbramento”, quase um êxtase espiritual. “Sua beleza é tamanha / que até me constrange / devorá-la ou devolvê-la”. Ler este livro é como entrar numa festa em que todos os sentidos estão convidados – e também o intelecto, desde que seja um corpo pensador, corpo dançarino. A poesia brasileira ganha mais um clássico.


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