
Antônio Moura
20 de jun. de 2026
Sobre Gertrude Stein
Entre os nomes que moldaram a literatura do século XX, poucos foram tão decisivos — e ao mesmo tempo tão desafiadores — quanto Gertrude Stein. Poeta, romancista, ensaísta e figura central das vanguardas artísticas, Stein não apenas escreveu textos inovadores: ela transformou a própria ideia do que poderia ser a escrita. Norte-americana de nascimento, mas parisiense por escolha, fez de sua casa na Rue de Fleurus um dos principais laboratórios culturais da modernidade.
Nascida em 1874, em Allegheny, Pensilvânia, Gertrude Stein cresceu em uma família judia abastada que valorizava a educação. Ainda jovem, estudou psicologia e medicina, passando por instituições como Harvard e Johns Hopkins. Foi nesse contato com o pensamento científico — especialmente com as teorias da percepção e da consciência — que começou a desenvolver seu interesse pelo funcionamento interno da linguagem. Para Stein, escrever não era apenas narrar histórias: era investigar como as palavras constroem a experiência do real.
Em 1903, muda-se para Paris com o irmão Leo Stein. Essa decisão mudaria definitivamente sua trajetória — e, de certa forma, a história da arte moderna. A capital francesa, efervescente no início do século, reunia artistas, escritores e experimentadores de todo o mundo. A casa dos Stein rapidamente se transformou em um ponto de encontro de pintores como Picasso, Matisse e Cézanne. Ali se discutia pintura, literatura, música, política. Mais do que anfitriã, Gertrude tornava-se mediadora cultural, incentivando novas formas de expressão.
Seu contato com as artes plásticas foi decisivo para sua escrita. Assim como os cubistas fragmentavam a perspectiva e desmontavam a forma tradicional da imagem, Stein começou a “fragmentar” a linguagem. Em vez de narrativas lineares, propunha repetições, deslocamentos sintáticos, jogos sonoros e frases que pareciam circular sobre si mesmas. O significado não surgia da história contada, mas do ritmo e da experiência da leitura.
Essa estética aparece com força em obras como Tender Buttons (1914), talvez seu livro mais conhecido. Nele, objetos cotidianos — uma xícara, uma mesa, um pedaço de tecido — são descritos por meio de associações inesperadas, quase abstratas. A famosa frase “A rose is a rose is a rose” sintetiza sua proposta: a repetição não esvazia o sentido, mas o intensifica, revelando a materialidade da palavra. Para Stein, nomear já é criar.
Embora muitos leitores tenham considerado sua escrita hermética, seu impacto foi profundo. Ela abriu caminho para a poesia experimental, para a literatura de fluxo de consciência e para toda uma tradição que entende o texto como construção formal, não apenas como veículo de enredo. Autores como James Joyce, William Faulkner e, posteriormente, os poetas concretos, dialogam — direta ou indiretamente — com esse gesto radical.
Além de escritora, Stein desempenhou um papel fundamental como articuladora da chamada “Geração Perdida”, grupo de autores norte-americanos expatriados que incluía Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Ezra Pound. Foi ela quem cunhou o termo ao comentar o desencanto de jovens que viveram a Primeira Guerra Mundial. Muitos desses escritores frequentavam seu salão literário, recebendo críticas, estímulos e, às vezes, conselhos duros.
Sua vida pessoal também desafiava convenções. Stein viveu por décadas com Alice B. Toklas, sua companheira e secretária, numa relação afetiva que, embora discreta para os padrões da época, era conhecida no círculo artístico. Essa parceria foi fundamental para sua estabilidade criativa, permitindo que Stein se dedicasse integralmente à escrita.
Curiosamente, o livro que lhe trouxe maior popularidade foi uma espécie de autobiografia escrita em terceira pessoa: The Autobiography of Alice B. Toklas (1933). Com humor e ironia, Stein narra sua própria história como se fosse Toklas observando-a. O texto combina memória, ficção e comentário cultural, tornando-se um retrato vívido do ambiente artístico parisiense das primeiras décadas do século XX.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Stein permaneceu na França. Após o conflito, sua reputação consolidou-se como a de uma das pioneiras do modernismo. Morreu em 1946, em Paris, cidade que escolheu como pátria intelectual.
Ler Gertrude Stein hoje é um exercício de estranhamento produtivo. Sua escrita exige paciência e abertura, mas recompensa o leitor com uma experiência singular: a percepção de que a linguagem não é transparente, e sim matéria viva. Ao desmontar frases, repetir sons e brincar com a lógica, ela nos convida a olhar o mundo como se fosse a primeira vez.
Mais do que uma autora difícil ou excêntrica, Stein foi uma arquiteta da sensibilidade moderna. Sua obra nos lembra que a literatura pode ser laboratório, risco, invenção. Entre a América que a formou e a Paris que a acolheu, construiu uma ponte estética que ainda sustenta grande parte da produção experimental contemporânea. Em um século marcado por rupturas, ela fez da palavra o lugar mais radical dessas transformações.
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Antônio Moura é poeta, escritor e tradutor nascido em Belém do Pará (1963), reside em Petrolina, Pernambuco. Tem 17 livros publicados, entre obras autorais e traduções do francês e espanhol, além de traduções de parte de sua obra para o inglês, o espanhol, o catalão e o alemão. Em 2012 o livro Rio Silêncio recebeu no Reino Unido o prêmio John Dryden, (tradução de Stefan Tobler). Realizou leituras na Casa Fernando Pessoa (Lisboa), Espaço Agora, em Paris, e no Centro Internacional de Poesia de Marselha (França). Indicado ao Prêmio Candango de Literatura (2022) e vencedor do prêmio de Pesquisa, Criação e Experimentação Artística do Instituto de Artes do Pará (IAP) com a novela epistolar “Nau sem porto – uma correspondência inescrita entre Rainer Maria Rilke e Paulo Plínio Abreu”, Moura tem sua obra traduzida e publicada em diversas revistas e antologias nacionais e internacionais em países como Inglaterra, Estados Unidos, México, Alemanha e Espanha.

