
Patrícia Marcondes de Barros
20 de jun. de 2026
Uma conversa com Nuno Gonçalvez
Tarde quente, suspensa no ar. Ao fundo, o som de JethroTull. Entre flautas e variações, leio Dicionário dos Medos Imaginários. A leitura conduz a uma atmosfera de deslocamento, onde a poesia se constrói como um percurso por memórias, ruínas e vertigens.
O silêncio dos sonhos
Tudo que é aspira à morte
Do que já foi ou vem a ser
tudo passa e nada é
as estações, o amor, as fábulas
o ódio, a ira, a raiva
Murcharam as flores do mal
E os cânticos de Maldoror
Morreu Rimbaud e a juventude
Entre escravos e armas
Entre escarros e almas
Entre
Veja minha casa, meu pasto
Não há nada
Desta pedra não se tira leite
Este é o deserto, o esquecimento
Este é o mistério
Não querer mais, querendo
Nada saber, sabendo
Germinar na terra infértil
Agir na hora imprópria
Sonhar o silêncio que nos sonha
A invenção da roda, da fortuna & do destino
A poesia de Nuno Gonçalves tensiona vida e morte, desejo e cansaço, palavra e silêncio: nada se resolve. Insiste no que passa, como se soubesse desde sempre, que tudo escapa: “Tudo o que é aspira à morte”.
Rimbaud e Lautréamont ecoam em sua poesia, não apenas como citação, mas como voltagem, uma energia que atravessa imagens duras: o deserto, o esquecimento, o impossível, “Desta pedra não se tira leite.” A linguagem não consola. É dessa tensão que emerge um gesto: “Sonhar o silêncio que nos sonha”. Isso permanece como o impulso de recusar o controle, abrir fissuras na linguagem, não fechar, não explicar. Quem escreve a partir desse lugar?
Nuno Gonçalves nasceu em Pernambuco, em 1977, embora se diga cearense. Publicou Cacos de Cristo, O sol e a maldição, Cartas de navegação, Calabouço de reticências ou a aridez do oceano e O rio das onças. Sua formação em História atravessa a escrita de modo arqueológico: não como documento, mas como expressão sensível do tempo. Hoje, é professor de História da América na UFRB.
É a partir desse percurso que a conversa se abre:
Patrícia - Nuno, em que momento a poesia se constitui como experiência em sua trajetória? E, considerando sua formação em História, como você articula o trabalho com a memória, central tanto à historiografia quanto à literatura, com esse “estado de poesia”, que parece escapar às temporalidades mais estruturadas do campo acadêmico?
Nuno - Patrícia, primeiro te agradeço, esse estado de poesia me parece algo que antecede o nascer e, inclusive, força e dificulta, simultaneamente, o parir a si mesmo. Recordo que eu queria mesmo era ser jogador de futebol, a total incompetência me obrigou a desistir disso. Na casa de meu avô, onde fui criado, no sertão cearense, tinha uma biblioteca. Era o meu lugar, onde me sentia à vontade. Já aos dez onze anos estava certo de que seria escritor. Quando fui fazer vestibular não optei por letras por estar convencido que um escritor não deveria estudar letras. Restaram duas opções: história ou filosofia. Acabei elegendo a primeira e dentro dela terminei estudando as relações entre as narrativas historiográficas e literárias em torno à memória e suas formas de transmissão. Às vezes penso que muita razão tem o dito que não se torna poeta, mas se nasce com esse estado de poesia dentro.
Patrícia - Sua poesia dialoga com Arthur Rimbaud e Isidore Ducasse, entre outros autores associados à chamada tradição “maldita”. Como essas referências foram se sedimentando na sua trajetória e se traduzindo na construção da sua linguagem?
Nuno - O uruguaio Isidore Ducasse conheci através de José Alcides Pinto quando escrevia minha dissertação de mestrado sobre sua obra. Alcides nutria uma admiração imensa por sua figura e isso me levou à sua obra. De uma maneira bem geral te diria que a busca dos ditos "malditos" por encontrar um caminho para uma vida plena e autêntica incorporando os aspectos que tradicionalmente são vistos como opostos ao sagrado apareceu na minha vida como um catalisador de processos internos e externos muito antigos. A nova ideia de inferno que traziam e os horizontes subterrâneos que abriam eram algo do qual seria impossível sair ileso.
Patrícia - Há, em sua poesia, algo que ressoa em mim com a produção dos anos 1970, no sentido do que Flora Süssekind nomeia como “literatura do eu” (2004), uma escrita atravessada pelo cotidiano, pela experiência e por uma espécie de arquivamento da temporalidade. Em que medida você se reconhece em diálogo com essa literatura? E que poetas foram decisivos na sua formação?
Nuno - Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e Cruz e Sousa são os primeiros nomes que me vêm à cabeça agora. É curioso que o único livro de Augusto dos Anjos tenha por título EU! Acho, só acho, que toda literatura é mesmo autobiográfica, mas também imagino a autobiografía como uma exploração de muitas camadas que envolve elementos antropológicos, históricos, sociológicos, biológicos, etc. Gosto de algo da poesia dos setenta e como eles fui fortemente atravessado pelo projeto de Kerouac. Entretanto tenho entrado em estado de desconfiança de certa tendência que enfatiza demasiado os aspectos confessionais e o coloquialismo. Algo me perturba aí nessa forma contemporânea de pensar e falar do eu. Gosto muito mais do que você chama de arquivamento da temporalidade, das temporalidades acrescentaria. A poesia traz à flor do tempo presente formas culturais que todos pensavam mortas. Isso me interessa muito. Tudo que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo. Tem algo de feitiçaria nisso. Algo luciferino mesmo. E cada vez mais me parece que nosso próprio futuro enquanto espécie depende disso. Experiência e imaginação são as armas da poesia contra o desencantamento do mundo e a perversão que chamamos progresso. Estou trabalhando agora num livro sobre a súbita descoberta de que a morte não existe. E isso tem me levado a pensar muito em Nauro Machado, Adélia Prado e outros poetas...
Patrícia - Nuno, quais são seus próximos projetos e onde encontramos seus livros?
Nuno - Meus livros podem ser encontrados no estante virtual, confraria dos ventos, editora corsario, radiadores cultural e comigo mesmo. Estou trabalhando, além do poemario que citei anteriormente, num livro chamado Livro de Hermenegildo. Não posso falar muito dele ainda além do fato de que é uma longa prosa poética onde revisito todas minhas adoráveis obsessões com uma delicadeza que busco a muito tempo.
Aqui a conversa termina, mas permanece aberta.
Para contato com suas ideias, poesias e projetos:
Blog: www.insensatanau.blogspot.com
Instagram: https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios/
Linktree: @poetanunogoncalves
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Patrícia Marcondes é graduada em Letras e História (Universidade Estadual de Londrina, UEL). Doutora em Estudos Literários (Universidade Estadual de Londrina, UEL). Doutora em História e Sociedade (Identidades Culturais, Etnicidades, Migrações) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP, 2007), com trabalho sobre a imprensa alternativa de cunho underground, proliferada nos anos de ditadura militar. Mestre em História e Sociedade (Política: Ações e Representações), pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/FAPESP, 2002) com trabalho sobre a imprensa alternativa no Brasil, tendo como eixo norteador, as obras do jornalista e escritor Luiz Carlos Maciel. Especialista em História Social, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL,2000), com trabalho monográfico sobre identidade nacional e Tropicalismo. É autora do livro ''Panis et Circenses'': a ideia de nacionalidade no Movimento Tropicalista (EDUEL, 2000) e organizadora dos livros ''Sol da Liberdade'' (Editora Vieira Lent, 2014) de autoria do jornalista, roteirista de TV e filósofo, Luiz Carlos Maciel.

