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PAULO LEMINSKI: A GUERRA É QUE SÃO ELAS*

Por Paulo de Toledo


Apresentamos uma análise comparativa entre o romance Agora é que são elas e outra obra de Paulo Leminski que, provavelmente por se tratar de uma pequena novela escrita para o público infanto-juvenil, costuma ser raramente mencionada pelos seus comentadores: Guerra dentro da gente[1].


Guerra dentro da gente foi escrita em 1987, como indicado no final do livro: “Curitiba, 27 de julho de 1987” (LEMINSKI, 1991, p. 62). Ou seja, cerca de três anos após a publicação de Agora é que são elas. Também em 1987, Paulo Leminski terminou de escrever o livro Metaformose, como nos informam seus editores: “Este livro começou a ser escrito no final de 86, na Cruz do Pilarzinho, Curitiba, Paraná, e terminou no mesmo local em março de 87” (LEMINSKI, 1994, p. 14). No mesmo ano, Leminski publicou Distraídos venceremos. Como se vê, 1987 mostrou-se um ano bastante produtivo para o autor, a despeito dos problemas de saúde que ele já enfrentava devido ao alcoolismo[2].


A curta novela juvenil (além das ilustrações, há pouco mais de 50 páginas de texto) narra as aventuras de Baita, um garoto que vive com seus pais e que, um dia, encontra um velho numa ponte. Este velho, chamado Kutala (Baita e nós, leitores, só saberemos o nome do velho muitas páginas depois do início da narrativa), ordena a Baita que busque a sandália que ele mesmo, Kutala, havia jogado lá embaixo, na beira do rio. Baita obedece imediatamente. Depois disso, apesar dos protestos dos pais, o jovem rapaz torna-se um seguidor de Kutala, que lhe promete ensinar a “arte da guerra”: “Você sabe das coisas – o velho falou. – Quer aprender a arte da guerra[3]?” (LEMINSKI, 1991, p. 7). A partir de então, Baita passa por várias aventuras ao lado de Kutala, mas, principalmente, enfrenta muitas delas sozinho. Sempre em busca do aprendizado da arte da guerra.


Paulo Leminski, como ele mesmo informa na apresentação de Guerra dentro da gente, era neto e filho de militares. Diz ele: “cresci com a ideia de que a guerra era a mais nobre atividade a que podia se dedicar o ser humano” (LEMINSKI, 1991, p. 4). E, na biografia escrita por Toninho Vaz, lemos um trecho do depoimento de Leminski, gravado por César Bond, em que o poeta discorre sobre a guerra:


A lógica dos militares é a pré-lógica. O macaco-homem se fez pela guerra, se construiu pela guerra e pode morrer pela guerra. Por que nós nos matamos? Para mim ainda é um mistério. Perseguir o mistério da guerra é tentar desvendar todos os mistérios onde a morte está envolvida. E a estratégia da guerra só está absolutamente correta quando a vida humana é reduzida apenas às leis físicas. É a ação mais simples para obter o máximo de efeito: como num haikai. Não quero dizer com isso que sou a favor da guerra. Sou totalmente contra. Mas a exatidão do raciocínio me fascina (apud VAZ, 2001, p. 361).


Num texto em que Paulo Leminski trata especificamente da arte da guerra, chamado “Plano dois”, e publicado em 1989, na Folha de Londrina, há esta declaração do fascínio leminskiano pela guerra:


Napoleão é meu herói e o Da Guerra, do general Von Clausewitz, é meu livro de cabeceira. Nada faço sem antes consultar o manual do general prussiano, clássico máximo, estudo obrigatório em todo Estado-Maior do mundo inteiro (LEMINSKI, 2017, p. 49).


Certamente não é coincidência o fato de os dois únicos personagens do Catatau, outro romance de Leminski, Descartes-Cartésio e Artischevski, serem militares (Descartes foi oficial do exército de Nassau e Artischevski, um coronel mercenário a serviço da Companhia das Índias Ocidentais). No mesmo Catatau, ocorre a oposição “guerra-festa”, bem representada pelas seguintes passagens do livro: “Cheguei tarde na guerra, já era festa e eu com armas” (LEMINSKI, 1989, p. 83); “Na guerra — o necessário, na festa — o luxo nesse cenário” (1989, p. 49). Sobre essa oposição, escrevemos:


Outro aspecto que pode ser salientado é a oposição guerra-festa construída no Catatau como mais uma maneira de rebaixar a classe dominante representada pelos militares. A guerra corresponderia ao mundo repressivo da ditadura, enquanto a festa representaria o mundo alegre da utopia e da liberdade, o mundo do carnaval (TOLEDO, 2014, p. 100).


Igualmente não é coincidência que, no Agora é que são elas, haja uma espécie de “guerra dos mundos”, narrada pela Norminha, a menina que falava com os extraterrestres, como se vê no excerto seguinte:


Nunca tinham sido raça de guerreiros, os warhoos, seu domínio indo dos pós de planetas entre Achernar Austral na constelação de Eridano até os arredores de Pólux Boreal, na constelação de Gêmeos. Seus tradicionais inimigos, os seres gasosos dos pantanais de Canopus, souberam aproveitar muito bem uma falha dimensional entre Vega e Adelbaran, e penetraram em seu sistema molecular (LEMINSKI, 1999, p. 73).


No texto de apresentação de Guerra dentro da gente, Leminski faz a seguinte declaração: “Aos dezesseis anos, vivi, pela primeira vez, o medo de uma confrontação nuclear: a guerra total, sem vencidos nem vencedores” (LEMINSKI, 1991, p. 3). A possibilidade de uma guerra nuclear parece ter sido realmente algo que marcou a vida de Paulo Leminski, tanto assim que, além dessa menção do conflito atômico no texto de apresentação, verificamos, por exemplo, a guerra nuclear ser citada num artigo de 1986, “Punk, dark, minimal, o homem de Chernobyl”, cujo assunto é a pós-modernidade: “Todos sabem que uma guerra total entre Estados Unidos e União Soviética significaria (ou significará?) o fim da civilização, da humanidade enquanto espécie e até da vida no planeta Terra” (LEMINSKI, 2011, p. 90). Essa, digamos, obsessão leminskiana pela “guerra total” certamente o motivou a criar, para o Agora é que são elas, aquele personagem, que acredita ter uma bomba atômica implantada em sua cabeça:


Alguns eu conhecia, clientes de Propp, como aquele biruta que achava que o Pentágono tinha implantado uma minibomba atômica na base do seu cérebro e que, se ele dissesse uma determinada palavra, as ondas das vogais e das consoantes iam fazer a bomba explodir, dando início à solução final do problema da existência humana. Bem, essas coisas (LEMINSKI, 1999, p. 124)


Lembremos que Paulo Leminski viveu praticamente toda a sua vida (1944-1989) durante a chamada “Guerra Fria”, conflito entre as duas maiores potências nucleares do pós-guerra, Estados Unidos e União Soviética, o qual ameaçou destruir todo o planeta.

Outra referência à guerra que encontramos na obra de Leminski é o projeto, não realizado, de um livro sobre a Guerra do Paraguai. Sobre esse livro, escreve Leminski em carta a Régis Bonvicino:


o texto tem duas partes: guerra e paz// a primeira parte é Y (água em guarani)// é uma cosmogonia tropical: o rio os paraguaios uma// paz paradisíaca mas tensa// a segunda parte é TATÁ (fogo em tupi/guarani)// é a Guerra a Invasão é Lopes (sic) (LEMINSKI, 1992, p. 60).


Na mesma carta, Paulo Leminski cita “Mitamoroti (monólogo nô)”, poema ainda não publicado em livro[4], mas que foi reproduzido em Uma carta uma brasa através. O poema tem como narrador o presidente paraguaio Francisco Solano López[5], que, nos últimos versos, diz: “a guerra é o grande acontecimento na vida de um povo// eu fui a guerra/ eu fui lopes/ eu fui o paraguai” (LEMINSKI, 1992, p. 60).


Portanto, a guerra foi um tema caro a Paulo Leminski, presente, de uma maneira ou de outra, em vários de seus textos.


Para finalizar, citemos esse belo poema leminskiano, publicado como pórtico ao texto que escreveu para o livro Sol e aço, de Yukio Mishima:


guerra sou eu

guerra é você

guerra é de quem

de guerra for capaz

guerra é assunto

importante demais

para ser deixado

na mão dos generais


(LEMINSKI, 2001, p. 226)


Agora, antes de começarmos propriamente nossa análise das semelhanças entre o Agora é que são elas e Guerra dentro da gente, julgamos interessante observar que a novela leminskiana possui uma estrutura circular: ela começa com o encontro entre Baita e Kutala na ponte e termina novamente com os dois, vários anos mais tarde, na mesma ponte. Isso nos remete ao Finnegans Wake, obra da predileção de Paulo Leminski e clara influência para a realização do Catatau[6]. Citemos Augusto e Haroldo de Campos em Panaroma de Finnegans Wake:


Com riverrun (riocorrente), em letra minúscula, irrompe o Finnegans Wake, no meio de uma sentença iniciada na última linha do volume. Joyce imaginou para o seu livro uma estrutura aberta: a derradeira palavra prossegue na primeira, num “continuum” circular: continuarração, rio-romance (CAMPOS, 1986, p. 81).


Outra obra leminskiana que possui uma estrutura circular é Metaformose, texto que narra, em forma literária e poética, o universo da mitologia grega. Metaformose tem como início a apresentação da personagem Narciso: “[surgido] antes de tudo, filho de um rio e de uma ninfa da água, Narciso, o filho da Náiade, deitava de bruços e se olhava no trêmulo espelho da fonte” (LEMINSKI, 1994, p. 15); e termina com a sua morte: “(Narciso morre de sede, ao beber sua imagem)” (1994, p. 39).


Além do tema da guerra e da estrutura circular identificáveis em Guerra dentro da gente, outra característica dessa obra, que também encontramos no restante do trabalho literário de Leminski, é a influência da cultura oriental[7], em especial, a cultura japonesa. Kutala, por exemplo, é identificado como um “tengu” pelo pai de Baita: “– Aquilo não é um velho, garoto idiota – o pai berrou. – É um tengu, um espírito da floresta. Ele não tinha um nariz comprido?” (LEMINSKI, 1991, p. 9). Tengu é a denominação de certas criaturas sobrenaturais do folclore japonês que têm cor avermelhada e possuem um longo nariz. No artigo “A hora da lâmina”, escrito em 1989, Leminski menciona os tengu ao falar sobre o livro de Chozan, Discurso sobre a arte dos demônios da montanha:


O espadachim vai se isolar nas montanhas, consultar os tengu, os espíritos do céu, duendes de nariz comprido (no imaginário nipônico, os tengu são modelos de orgulho, força e sabedoria: diz-se “está se sentindo um tengu”, para dizer “está orgulhoso de si”) (LEMINSKI, 2017, p. 62).


A presença do tengu sugere que temos, como cenário da narrativa, o Japão. E, certamente, o nome da princesa Sidarta – o grande amor de Baita, como veremos mais adiante – é mais uma referência à cultura oriental: Sidarta Gautama, o Buda, foi um príncipe que, tal como aquela princesa, abandonou o trono e as riquezas materiais para se dedicar a aliviar o sofrimento humano.


Como sabemos, Paulo Leminski, o “kamiquase”[8], praticou judô, traduziu Yukio Mishima, escreveu uma biografia de Bashô[9], fez contos com temática japonesa[10], produziu dezenas de haicais[11], era leitor de Sun Tzu e, em seus artigos, sempre voltava ao universo da cultura japonesa. Dentre esses artigos, podemos citar “Click: zen e a arte da fotografia”, escrito em 1986, em que o poeta afirma:


Os parentescos íntimos entre o “haicai” e a fotografia me intrigam, desde que, por volta de 1965, comecei a me interessar por essa estrutura poética mínima que os japoneses praticam há, pelo menos, quatrocentos anos (LEMINSKI, 2011, p. 139).


Outro artigo, em que Leminski demonstra toda a sua admiração pela arte japonesa, foi publicado no jornal Nicolau, em novembro de 1987 (mesmo ano da escritura de Guerra dentro da gente), chamado “Ventos ao vento: rabiscos em direção a uma estética”. Nele, o autor de Catatau discorre, entre outras coisas, sobre as diferenças entre a concepção de arte no Japão e no mundo ocidental. Afirma o poeta:


A palavra japonesa Gen-jitsu para significar “as artes” é um composto recente, calcado no conceito ocidental. Havia pintura sumi-ê, ikebana, arquitetura, teatro ; nunca houve uma palavra específica para designar, genericamente “artes” ou “a Arte”. Não havia, portanto, um termo próprio para significar “artista” (LEMINSKI, 1987, p. 22).


A cultura oriental também é tema do artigo “Comunicando o incomunicável”, em que Leminski trata do que ele chama de “modalidades básicas” de oração, de prece, em várias culturas. Dentre essas formas de prece, o autor discorre sobre o “Za-zen” que, “em japonês, quer dizer ‘sentar-meditar’” (LEMINSKI, 2011, p. 184).


E, finalmente, recorde-se que o poema “Mitamoroti”, já citado, tem como subtítulo “monólogo nô”. Sobre o , no texto introdutório de seu Hagoromo de Zeami, no qual traduz a peça Hagoromo (“O Manto de Plumas”) de Motokiyo Zeami (1363-1443), escreve Haroldo de Campos: “O Nô combina passagens em verso (sob a forma de canto ou de recitativo) com outras em prosa (kotoba), declamadas de forma lenta e solene, sem acompanhamento musical” (CAMPOS, 2006, p. 14). Infelizmente, não temos mais nenhuma informação sobre o “Mitamoroti”, além daquelas fornecidas pelo próprio Leminski na carta citada. Contudo, é realmente intrigante a ideia de um poema, na forma de “monólogo nô”, que trata da vida de um personagem como Solano López. Por que Leminski decidiu se utilizar dessa forma poética? Afinal, qual a relação entre López e a cultura japonesa, entre o Paraguai e o Japão? Será que a palavra “mitamoroti” sugeriu, pela proximidade fônica, alguma relação com a língua japonesa? Infelizmente, não temos subsídios para darmos uma resposta a essas questões.


Passemos, agora, para a análise das similitudes entre Agora é que são elas e Guerra dentro da gente.


A primeira semelhança que podemos apontar entre as obras é a que se observa entre os seus protagonistas: Baita e o herói sem nome (o protagonista de Agora é que são elas não é jamais nomeado em toda a narrativa). Ambos são jovens, Baita um pouco mais novo que o herói sem nome, sendo que este aparenta ter uns vinte anos de idade, enquanto que Baita, no início da narrativa, parece ter algo em torno de quinze anos. Porém, os dois igualmente estão à procura de alguma coisa. O herói sem nome busca a sabedoria e Baita quer aprender a arte da guerra, que, ao final, se mostra, na verdade, uma “arte da vida”, uma espécie de caminho para a sabedoria, um Bushi-dô[12]. De acordo com essas características, Guerra dentro da gente, assim como Agora é que são elas, também poderia ser considerado um exemplo de “romance de formação”.


E, para conquistar seus aprendizados, o herói sem nome e Baita contam ambos com seus “mestres”: Propp e Kutala. Outra coincidência evidente entre Agora é que são elas e Guerra dentro da gente.


Ao longo de suas aventuras (ao lado de Kutala e também sem ele), Baita aprende várias coisas, entre elas que, na guerra, não havia beleza: “Ele [Baita] achava que a guerra era uma coisa bonita. Mas a guerra era horrível” (LEMISKI, 1991, p. 39). E, já nas últimas linhas da narrativa, ele alcança o aprendizado final: “– Ninguém ganha uma guerra – dizia. – Numa guerra, todos perdem” (1991, p. 61).


Se não podemos afirmar peremptoriamente que o herói sem nome alcança a tão almejada sabedoria, por sua vez, Baita parece conquistar algo semelhante a isso, tanto assim que o “Grande Rei”, de quem, já perto do fim da história, Baita torna-se o supremo general, diz: “– Além de valente, você é sábio, General Baita” (LEMINSKI, 1991, p. 57).


Lembremos que o pai de Baita é violento e que agride fisicamente Baita e sua mãe. A fuga de Baita da sua casa para partir junto a Kutala é também uma maneira de o rapaz se revoltar contra a opressão paterna, o que pode ser visto como mais uma semelhança entre Guerra dentro da gente e Agora é que são elas, posto que, neste último, verificamos a resistência do herói sem nome contra a opressão do Pai-Propp[13].


Outra similitude entre o herói sem nome e Baita é o fato de ambos perderem as mulheres que amam. O herói sem nome é abandonado por Norma Propp, que foge com Bernardo. E Baita perde a princesa Sidarta, que, apesar de também o amar, decide espalhar o seu amor pelo mundo, auxiliando as pessoas necessitadas: “Mas tudo o que ele [Baita] recebia eram informações sobre uma mulher que andava de vilarejo em vilarejo, consolando os sofredores, ajudando os pobres, cuidando dos doentes, ressuscitando os mortos” (LEMINSKI, 1991, p. 61).


Como Leminski afirmara, “Não quero dizer com isso que sou a favor da guerra. Sou totalmente contra” (apud VAZ, 2001, p. 361), certamente por isso o poeta citou, na apresentação de Guerra dentro da gente, o famoso slogan antiguerra “Faça amor, não faça a guerra”, criado nos anos 1960, durante a Guerra do Vietnã. Considerando o slogan, podemos afirmar que a princesa Sidarta representa, claramente, o amor, enquanto que Baita, a guerra. Porém, ao final da narrativa, a beleza do amor sobrepuja o poder bélico e Baita, influenciado por Sidarta, abandona seu posto de general, desiste da guerra.


Em consequência da fuga de Norma Propp, o professor Propp se suicida, e, devido ao desaparecimento de Sidarta, o rei morre de desgosto: “O Grande Rei, desgostoso com o sumiço da filha, morreu; um sobrinho ocupou o seu lugar” (LEMINSKI, 1991, p. 61). A morte desses dois pais mostra-se igualmente como outra semelhança entre as duas obras leminskianas.


Essas similaridades entre Agora é que são elas e Guerra dentro da gente ajudam a demonstrar que toda a obra de Paulo Leminski está ligada pelo que chamamos de “força motriz”, a qual podemos igualmente identificar no Guerra dentro da gente, e que se trata do desejo de liberdade, este claramente observável na desobediência de Baita a seu pai tirano e, principalmente, nas linhas finais do livro, quando Baita, já um ancião, volta para a sua terra natal e reencontra Kutala naquela mesma ponte e, ao receber novamente a ordem do velho para ir buscar sua sandália, que fora jogada no rio, diz o rapaz: “Vá você” (LEMINSKI, 1991, p. 62).


Baita, finalmente, está liberto de toda a opressão.


É sábio e livre.

______________________________________________________________________________________


*Este texto é uma adaptação de um trecho de nossa tese de doutorado, defendida em 2021, “Agora é que são elas: o desejo de liberdade contra o sem sentido das normas”.


Referências:


CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo. Panaroma do Finnegans Wake. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1986.

CAMPOS, Haroldo. Hagoromo de Zeami: o charme sutil. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

LEMINSKI, Paulo. Agora é que são elas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1999.

LEMINSKI, Paulo. A hora da lâmina: últimos textos-ninja de Paulo Leminski. Londrina: Grafatório, 2017.

LEMINSKI, Paulo. Catatau. Porto Alegre: Sulina, 1989.

LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011.

LEMINSKI, Paulo. Gozo fabuloso. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2004.

LEMINSKI, Paulo. Guerra dentro da gente. São Paulo: Editora Scipione, 1991.

LEMINSKI, Paulo. Metaformose: uma viagem pelo imaginário grego. São Paulo: Iluminuras, 1994.

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

LEMINSKI, Paulo. Uma Carta Uma Brasa Através. São Paulo: Iluminuras, 1992.

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trotski - 4 biografias. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

MARQUES, Fabrício. Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

TOLEDO, Paulo César de. Catatau: um “romance de protesto” barroco e carnavalizado. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

VAZ, Toninho. Paulo Leminski: o bandido que sabia latim. Rio de Janeiro: Record, 2001.


Notas

[1] Segundo Toninho Vaz, a “principal interlocutora [de Leminski] na construção do texto seria a pequena Estrela [sua filha], que passava as tardes ao seu lado, em casa” (VAZ, 2001, p. 266). Ainda no mesmo livro de Vaz, lemos uma declaração de Paulo Leminski sobre o livro: “— É um livro que vai atingir meninos e meninas, ambos vão se identificar com os personagens. Eu quis fazer uma história que atingisse os dois sexos. Mas é justamente a menina que acaba mostrando o outro lado do céu, a dimensão feminina da novela” (apud VAZ, 2001, p. 282). [2] Ver VAZ, 2001, p. 262-274. [3] Há duas obras famosas com o título de A arte da guerra: uma de Sun Tzu, escrita no séc. VI a.C.; e outra, de Maquiavel, escrita no séc. XVI. [4] Em Toda poesia, há uma seção chamada “poemas esparsos”, em que foram publicados poemas dos livros Polonaises e Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase, porém, “Mitamoroti (monólogo nô)” também não consta dessa seção. [5] Num asterisco, provavelmente escrito pelo próprio Leminski, somos informados que “mitamoroti” significa “menino branco, em guarani, apelido com que os paraguaios chamavam ao mariscal solano lopes (sic)” (LEMINSKI, 1992, p. 63). [6] Haroldo de Campos, em Metalinguagem e outras metas, aponta a influência da prosa joyciana sobre o Catatau: “As influências nessa Leminskíada, como eu aqui a batizo, são muitas. Algumas óbvias. Como Joyce. Mais do que o do Ulisses, o do Finnegans Wake, ou Finnicius Revém, já fragmentariamente abrasileirado por Augusto de Campos e por mim na antologia Panaroma (1ª edição, 1962)” (CAMPOS, 1992, p. 216). [7] No Concurso de Contos do Paraná, em 1966, Leminski inscreveu “Descartes com lentes” (texto que deu origem ao Catatau) sob o pseudônimo de “Kung”, um nome de origem chinesa (ver VAZ, 2001, p. 83-84). [8] Ver LEMINSKI, 2013, p. 152. [9] O famoso haicai de Bashô sobre a rã que salta no velho poço é citado parodicamente tanto no Agora é que são elas quanto no Catatau. Eis as passagens em que o poema é mencionado: “Olhou-se numa poça d’água, e pensou estar vendo imaginou estar vendo um sapo apenas um sapo mergulhando num poço” (Agora é que são elas, p. 152); “Velho poço, Tales filosofa e catrapum!” (Catatau, p. 125). [10] Ver os contos do livro Gozo fabuloso (LEMINSKI, 2004): “Daruma arigatô” (p. 56-59) e “O imperador no aquário” (p. 125-127). [11] Sobre os haicais leminskianos, ver MARQUES, 2001, p. 32-42.

[12] Esclarece Leminski: “(...) ‘Bushi-dô’, o caminho do guerreiro, aquele código global de postura e comportamento que caracterizava a casta samurai (e que, de um jeito ou de outro, acabou por impregnar a mentalidade de todos os japoneses em geral)” (LEMINSKI, 2011, p. 235). No poema “Aço em flor”, publicado em Distraídos venceremos, e dedicado a “Koji Sakaguchi, portal amigo entre o Japão e o Brasil”, lemos nos versos finais: “quem nunca viu/ a ternura que vai/ no fio da lâmina samurai,/ esse, nunca vai ser capaz” (LEMINSKI, 2013, p. 198).

[13] Diz Propp ao herói sem nome: “– Quero sim. E quero dizer o que eu bem quiser. Quem é o pai aqui? Eu sou o pai, eu sou o senhor, o mestre, o que dá presentes, o rei que derrota e a mãe que derrama leite na tua boca, o sacerdote que te joga na frente da verdade. E esta que é a verdade, meu adorado imbecil. NÃO EXISTE NOVIDADE” (LEMINSKI, 1999, p. 89).

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