As palavras de Augusto de Campos: potência, política e passagens da imanência
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Por Adam Joseph Shellhorse

Como argumentei em Antiliteratura (2025), em nosso tempo, os problemas que envolvem o debate literário mudaram, e as categorias e vocabulários tradicionais não são os mais aptos para descrever a natureza da literatura e seu poder interveniente. Precisamos inventar novos conceitos que nos ajudem a pensar de uma nova maneira.
Precisamos forjar conceitos que correspondam à nossa realidade – e essa “realidade” abrange a produtividade e a potência de textos que colocaram a literatura como identidade cultural” e a “literatura como modernismo” em crise [1].
A questão literária hoje é sobredeterminada pela representação, pela sociologia e por valores transcendentais – o que denominei, no contexto dos Estudos Latino-Americanos, o regime representacional literário. Se a literatura persiste em crise hoje, a tarefa atual é reconstituir sua força crítica. Com efeito, na medida em que estamos imersos em um ambiente tecnomediado contextualizado pelo boom eletrônico global, pela ascensão de ideologias retrógradas, autoritarismo, desinformação, antidemocracia e o que William Marx chamou de “indiferença” à literatura, a concepção de Augusto de Campos do poema como uma palavra-coisa autorreflexiva e verbivocovisual nos oferece uma oportunidade seminal para repensar o poder interveniente da literatura e o seu vínculo inexorável com o afeto [2] (Marx 2).
Forma
Uma abordagem antiliterária da obra de Campos implica uma compreensão imanente da escrita experimental como processual, sensório-afetiva e intensiva, ou seja, a partir de seus processos constituintes e destituintes. A forma literária será, portanto, concebida como uma potência e capacidade para estabelecer, intensificar e proliferar relações. Além disso, o poema será compreendido não tanto pelo que diz e significa em um nível linear, literal ou figurativo, mas pelo que oferece, pelo que intensifica, pelo que produz e por toda mídia com a qual interage enquanto meio ou agenciamento radicalizado. Contudo, será também apreendido, de forma importante, pelo que desfaz, pelo que desativa, pelo que torna inoperante e pelo que recusa. Ou seja, o texto antiliterário de Campos é melhor compreendido como modal e dinâmico. É somente por meio de sua combinação com outros corpos e de sua exposição a outros corpos, outras mídias, outros gêneros e outros discursos que a escrita de Campos se torna antiliterária – concretizada – e aumenta seu poder de afetar e ser afetada. Tal abordagem é estritamente materialista e relacional, porque o processo de composição, da escrita subversiva, “deve ser apreendido por si mesmo, através daquilo que dá, naquilo que dá” (à travers ce qu’il donne, dans ce qu’il donne), para citar as reflexões de Gilles Deleuze sobre o plano de imanência de Spinoza (Spinoza 128; “Spinoza et” 169). Implica ler textos não como máquinas de significação unitária, codificação, representação, identidade e metaforização – centradas na palavra –, mas sim como corpos e fluxos multimídia.
Assim, Campos concebe a escrita como um procedimento sensorial e uma força plurívoca. Considere “cubagramma” (1960/1962) (Fig. 1). Aqui, além do abundante jogo de linguagem, testemunhamos todos os materiais do poema – desde slogans anti-imperialistas (Cuba Sí, Yanqui No) até os interesses neocoloniais dos EUA, o jornal do Partido Comunista Cubano (Granma) e a escrita propriamente dita (gramma) – transformarem-se em sensação: cores, formas, intensificação formal e heterogênese multimídia deslocam os modos de leitura convencionais, lineares e ideológicos.

Fig. 1. “cubagramma” (1960/62) de Augusto de Campos. De Invenção: Revista de Arte de Vanguarda, no. 2 (1962). Cortesia de Augusto de Campos.
“palavras” (2000) explora essa vitalidade verbivocovisual e é igualmente descentrado e performativo. O texto também articula um ponto de vista guerrilheiro em relação à crise da literatura nos tempos tecnomediados. Longe de cair no niilismo por meio do sintagma pronto que lemos no centro do texto – “palavras, e nada mais” –, as palavras no texto não estão sujeitas a um ponto central de comando ou a estruturas hierárquicas como a voz lírica, o eu poético ou o poema. A questão não é a redução das palavras ao espaço tradicional do verso, nem fazer com que o texto signifique de acordo com modelos. A questão é produzir “palavras” e, com elas, novos desejos, novas configurações referentes aos poderes de percepção, afeto, conexão, invenção e proliferação do antipoema.
“Palavras, e nada mais.” Assim, a realidade é fabricada. No entanto, no concretismo de Campos, as palavras não são meramente formalistas, linguísticas e visuais, mas animadas por uma pluralidade de sentidos e um funcionamento heterogêneo da matéria. De fato, sabotando o real como ready-made, os textos de Campos convertem signos em linguagem icônica. Assumindo a forma de um vórtice de signos, o termo “palavras” se repete 37 vezes em espiral para fora. O desenho do poema também lembra uma tabela optométrica, uma tabela vocálica, bem como um caosmos de palavras explodindo em três dimensões, evocando experimentos anteriores como “OLHO POR OLHO” (1964) e o mais recente “contemporâneos (mallarmé)” (2009). Por meio da paronomásia visual, a forma das letras do texto se transforma em larvas que se projetam para fora, emergindo como asas na borda do texto: “as / as / as / as” (asas / asas). Como um trocadilho em inglês, “as / as” também aponta para o sistema de relações analógicas que o poema estabelece: sempre em variação, sempre a caminho, para evocar o ditado antropofágico de Oswald de Andrade: Roteiros. Roteiros. Roteiros. Tal como o canibal modernista de Oswald em Pau Brasil (1925), o antipoema de Campos busca encontros inventivos entre diversos regimes de signos. Testemunhando o renascimento da linguagem, essas palavras concretizadas configuram um acontecimento sintético sensorial. Acrescento que o texto inscreve um jogo de contrários: nada e mais, a espiral e a explosão, bem como o nome Adam, conotando a renomeação radical da palavra e do mundo em coordenadas verbivocovisuais.

Fig. 2. “palavras” (2000) de Augusto de Campos. Cortesia de Augusto de Campos.
Em “palavras”, o poema deve usar a máscara do formalismo, do lirismo e de todos os clichês que cercam a instituição literária – uma imagem ridícula da escrita, das palavras e nada mais. No entanto, o texto de Campos conquista a vaidade e a máscara da literatura, conferindo-lhe um novo sentido, um novo acontecimento da escrita: turbilhão de códigos semióticos fervilhando em heterogênese. Em diálogo com o nosso presente, com a reificação tecnomediada do sensível, ele dota o poema de uma tarefa afetiva que expressa sua força intempestiva e antiliterária. Tal afeto – concretizado pela concepção de Campos do poema como um conjunto corporificado verbivocovisual – nos impulsiona ainda mais para um futuro espaço literário que transcende o Estado e as narrativas convencionais do modernismo. Mesmo escrevendo contra o linear e o paradigmático, os poemas de Campos distorcem, detonam e intensificam a linguagem, criando novas variedades de afeto e sintaxe. Com efeito, ao explodir a prisão da linguagem e as concepções ortodoxas do concretismo por meio da experiência dessas obras, caminhamos na direção da revolução verbivocovisual do poeta e seus poderes de afeto – legado e conquista de um mestre aos 95 anos.
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* Doutor pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, Adam Joseph Shellhorse é professor associado da Temple University, na Filadélfia. É especialista em literatura, poesia e cinema latino-americanos dos séculos XIX, XX e XXI, abordados em perspectiva comparativa e interamericana. É autor de Antiliteratura: a política e os limites da representação no Brasil e Argentina modernos (São Paulo: Perspectiva, 2025)
Obras citadas
Andrade, Oswald de. Pau Brasil. Paris: Sans Pareil, 1925.
Beverley, John. Against Literature. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993.
Campos, Augusto de. “cubagramma.” Invenção: Revista de Arte de Vanguarda, no. 2, 1962, p. 9.
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Notas
[1] Para críticas ao paradigma da representação literária nos estudos latino-americanos, ver Beverley (1993), H. Campos (2005), Dove (2016), Graff-Zivin (2020; 2014), Hoyos (2015), Jenckes (2017), Johnson (2019), Legrás (2008), Levinson (2001), Moreiras (1999; 2001), Sánchez Prado (2018), Shellhorse (2025; 2017; 2016), Siskind (2014) e Williams (2002). Uma versão anterior deste artigo apareceu na revista Santa Barbara Portuguese Studies 8 (outono 2021): 44-74, agora revisado e republicado aqui com permissão da revista.
[2] Contudo, diferentemente da compreensão de Marx sobre a antiliteratura como “oposição” à literatura, minha concepção imanente diz respeito à apreensão da multiplicidade, do dinamismo e da força afetiva de textos experimentais, como os de Campos, em termos do seguinte: 1) seu confronto com o campo literário entendido como um habitus e regime de visibilidade e interpretação; 2) sua subversão das concepções monológicas da escrita literária; e 3) seu status como procedimentos intervenientes do sensível (Marx 1-6). Assim, para apreender obras antiliterárias, defendo a necessidade de criar uma tipologia do texto e uma metodologia de leitura novas que entendam a forma literária como um complexo aberto, verbal, vocal e visual de percepção e afeto que dialoga com outras mídias, outras formas de arte e grupos sociais marginalizados. Em suma, contrapondo-se às concepções transcendentais de literatura, que envolvem um sujeito unificado (hegemônico) e sua formação e desenvolvimento, a escrita antiliterária é modal, imanente e minoritária. Ver Shellhorse (2025), 2-6; (2017), 4-7; e (2020).

