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“Riverrun”: apontamentos sobre Augusto de Campos

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    jornalbanquete
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

 

Por Jardel Dias Cavalcanti


 

Augusto de Campos encarna vigorosamente a paixão pela poesia. Seja na manifestação da poesia em si, seja na sua tradução, seja na crítica criativa, seja na leitura dos poetas. Seria pouco ver apenas a poesia como foco de interesse de Augusto de Campos, já que sua paixão pela música (erudita e popular), pelo cinema de vanguarda e pelas artes plásticas é tão profunda como a que devota à poesia. Uma relação interdisciplinar, diga-se de passagem, de conexões que vão além da simples exterioridade, numa fecundação radical entre as linguagens (ou gêneros), é o que acaba por determinar seu processo criativo.


Pensar e criar de forma interdisciplinar é um processo que parte da modernidade de Baudelaire (“Correspondências”), de Rimbaud (“Vogais”), que se radicaliza em Richard Wagner com seu conceito de “Obra de Arte Total” (Gesamtkunstwerk) e que é explorada no século XX por vários artistas das vanguardas e que em Augusto de Campos serve para desesclerosar o babelismo das artes. A interdisciplinaridade, que Félix Guattari prefere chamar de transdisciplinaridade, é um movimento interno de transformação que, como atitude de espírito que é, é feita de curiosidade, de abertura, de sentido de aventura, de intuição das relações existentes entre as artes e do proveito criativo que daí deriva.


Quando estamos diante de um trabalho de Augusto de Campos, fica evidente a conexão entre as artes, seja num poema, num ensaio crítico ou numa performance de leitura de poesia (onde palavra, vídeo-imagem e música se conectam numa retroalimentação criativa). É notável também nos ensaios de Augusto de Campos essa revolução no processo crítico que, sem abandonar um conhecimento profundo da questão, faz o texto fluir como um momento também da criação (que, na falta de outro termo, podemos chamar de poético-crítico).  O ideal científico positivo da crítica já era para ter sido abandonado em nome de uma prática de mais liberdade artística dessa mesma crítica. Augusto de Campos encarna essa prática em seus textos, que como já disse, não abandonam o rigor, mas se expressam em uma camada superior de criatividade. Na abertura de seu livro O anticrítico, uma citação de Flaubert e outra de Pound sobre a crítica revelam o caminho de interesse para Augusto de Campos: deixando de sermos gramáticos e historiadores “quando é que seremos artistas, nada mais que artistas, mas realmente artistas?” (Flaubert); e a crítica o que deveria ser senão uma “conversa entre homens inteligentes.” (Pound)? A crítica praticada por Augusto de Campos, ele a denominou como uma espécie de “prosa porosa” (via Buckminster Fuller), que escapasse das “teses sem tesão”, dos textos “pesados e pedantes”, cheios de “critiquês” soberbos sem sabedoria.


Em Augusto de Campos essa hermenêutica da abertura para a pluralidade de paradigmas, seja para os diferentes gêneros artísticos ou da ciência e tecnologia, tem também implicações no sentido de uma relação não restritivo-nacionalista, mas universal com a arte. Uma frase de Jorge Luis Borges talvez defina a relação de Augusto de Campos com a cultura universal: “Não devemos temer e devemos pensar que nosso patrimônio é o universo.” E dentro das possibilidades universais para um diálogo poético a escolha é clara: a tradição dos artistas “inventores” (Ezra Pound) é a que mais particularmente sempre interessou a Augusto de Campos.


Devemos, nesse sentido, aos criadores do Concretismo (Augusto, Haroldo e Décio) uma atualização dentro da cultura brasileira dessa linhagem de artistas “inventores”. A tradução e a apresentação crítica desses autores foi e, por certo, não deixará de ser, de fundamental importância para a construção de uma cultura poético-crítica. Para citar apenas alguns desses artistas, nomes como Paul Valéry, Stephane Mallarmé, Arthur Rimbaud, Vladimir Maiakovski, Ezra Pound, James Joyce, Gertrude Stein, John Donne, Rainer Maria Rilke, August Stramm, Lewis Carroll, e. e. cummings, Pierre Boulez, Stockhausen, Luciano Berio, Edgard Varèse, Webern, Schöenberg, John Cage, Malevitch, Marcel Duchamp, Andy Warhol, Torquato Neto, Caetano Veloso, João Gilberto, dentre tantos. No plano da teoria, para citar apenas alguns, o interesse por autores como Umberto Eco, Walter Benjamin, T. W. Adorno, Susan Sontag e Roman Jakobson.


Um outro aspecto do interesse pela interdisciplinaridade é a relação que Augusto de Campos mantém com as artes plásticas e as artes gráficas e como isso implica a criação visual de seus poemas e livros. Marcado pelas criações de vanguarda no campo das artes, seja seu interesse pelo Construtivismo Russo (fotografia, cinema e arte gráfica), seja pelo Neoplasticismo de um Mondrian ou os projetos da Bauhaus e da música de vanguarda, por exemplo, o interesse pela disposição dos poemas na página, a relação da construção “verbivocovisual” de seus poemas, a importância da presença de imagens nos seus livros, fica clara a importância dessa inter-relação das artes.


Rompendo com a sintaxe tradicional do verso, os poemas fruto dessa inter-relação entre as artes buscam a integração da palavra (verbo), do som (voco) da imagem (visual) em um único poema, o que o transforma num objeto visual e sonoro, ocupando o espaço da página e a disposição das letras numa confluência de design e música como matérias-primas que se alinham às artes visuais no uso que é feito da forma, da cor e do espaço (campo por excelência de exploração visual), em que o poema passa a existir como a integração dessas dimensões.


O universo poético, crítico-ensaístico e de tradução de Augusto de Campos não é para amadores. Para enfrentar esse cosmos de referências e de criação,  é preciso acessar uma cultura que transita pelo passado radical, o modernismo também radical e as experimentações do presente (que, talvez, Augusto de Campos encarne melhor do que qualquer um). Sua obra é imensa, intensa, uma avalanche de proposições inventivas, um rio corrente que rompe as barreiras à sua frente inventando o futuro – uma “antena da raça” que capta aquilo que poucos veem (ou não estão dispostos a ver).


Comecei esse artigo falando da paixão de Augusto Campos pela poesia. Trago agora um pequeno trecho de uma entrevista que fiz com o poeta, publicado no site digestivocultural.com, em que ele caracteriza bem o significado dessa paixão. À minha pergunta sobre a razão dele publicar mais tradução do que os próprios poemas, ele responde: “O que me interessa acima de tudo não é a ‘minha’ poesia, mas a poesia ‘tout court’. Gosto do convívio com os outros poetas, os poetas que admiro, e traduzi-los, converter os seus poemas originais, de outros idiomas, em poemas de língua portuguesa, é uma forma de dialogar e aprender, celularmente, com eles. A minha própria poesia passa por um crivo muito severo de autocrítica e não sinto nem compulsão para criá-la nem pressa para publicá-la.”


Como um recado para aqueles artistas que preferem manter-se na retaguarda e não na vanguarda, Augusto de Campos traduz um Epigrama de Marcial que cabe como um recado para nossa literatura regressiva, essa que tem sido praticada no Brasil atual.


Só admiras os velhos, só a arte

dos mortos move a tua pena.

Sinto muito, meu velho, mas não vale

a pena morrer para agradar-te.

 

P.S. O nome Augusto, vem do latim Augustus e significa venerável, sublime, majestoso ou aquele que é grandioso e elevado. Era um título honroso dado aos imperadores romanos, simbolizando grande autoridade, dignidade e respeito, associado a uma personalidade nobre, forte e inspiradora.


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* Jardel Dias Cavalcanti é professor de História da Arte na Universidade Estadual de Londrina, editor da Galileu Edições e autor de Sete poemas de Praga (Scriptum).

 
 
 

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