Augusto de Campos, leitor de poesia
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Por Solange Rebuzzi

Publicado em 2006 pela Editora Perspectiva, Poesia da recusa, de Augusto de Campos, integra a Coleção Signos. Passadas duas décadas, a seleção, com projeto gráfico de Sérgio Kon, pode ser relida como um conjunto de poetas cuja obra, segundo o organizador, preserva “integridade ética e estética”.
Entre os treze poetas reunidos, estão Anna Akhmátova, Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva, Óssip Mandelstam, Sierguéi Iessiênin e o alemão Quirinus Kuhlmann. Stéphane Mallarmé comparece no ensaio “A implosão poética de Mallarmé” e em versos bilíngues. A seleção amplia o repertório com traduções de Aleksandr Blok, William Butler Yeats, Gertrude Stein, Wallace Stevens, Hart Crane e Dylan Thomas.
Aleksandr Blok marca presença com um ciclo dedicado às cidades italianas – Ravena, Florença, Veneza. Em “Veneza”:
Pelas lagunas, frio vento.
Gôndolas – mudas tumbas.
Esta noite, jovem e doente,
Sob a coluna do leão, sucumbes (p. 89)
A imagem fúnebre das gôndolas como “mudas tumbas” condensa a tensão entre espaço e morte.
A linguagem de Mandelstam, que escreveu versos satíricos dirigidos a Stálin e morreu em campo de trânsito aguardando deportação para a Sibéria, comparece em poemas como “Vivemos sem sentir o chão nos pés”, cuja dicção evidencia instabilidade histórica e deslocamento.
Poesia da recusa incorpora ainda material iconográfico. O desenho de Akhmátova por Modigliani (1911), as fotografias de época e a escultura de Gertrude Stein por Jo Davidson reforçam o diálogo entre texto e imagem. Nesse sentido, é um livro visual e artístico, além de um objeto poético e referencial aos que também querem traduzir.
A atuação de Augusto de Campos como poeta-crítico se evidencia tanto nos ensaios quanto nas traduções. O termo “intradução” sintetiza sua postura tradutória, marcada por liberdade formal e pela possibilidade de retradução “com olhos de hoje”. Ele trabalha a letra do texto, o ritmo, as aliterações etc., reafirmando uma forma de ler e traduzir que desenvolveu ao longo dos anos trabalhando com outros importantes tradutores: seu irmão Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, por exemplo.
Seus estudos de poesia trazem afirmações fortes, relevantes e pessoais. Trata-se de um leitor-tradutor que contribui também quando revela a artesania dos poemas. Quando apresenta Wallace Stevens, afirma: “um poeta de versos – versos pedras – de - toque” dando lugar ao poeta atento “para a precisão do impreciso”, e que usando “insólitos vocábulos do latim, do francês, do italiano, do espanhol, dá um colorido peculiar” que agrada tanto. E, afirmando a sua liberdade na tradução reconhece, que, por vezes, precisa retornar, depois de anos, ao trabalho de um poema e retraduzi-lo com “olhos de hoje”.
A leitura proposta para três poetas – Gertrude Stein, Anna Akhmátova e Marina Tsvetáieva – permite observar diferentes procedimentos formais e concepções de linguagem.
Gertrude Stein publicou prosa e poesia desde 1909, tendo lançado seu primeiro livro por conta própria. Viveu cerca de quarenta anos na França, onde conviveu com artistas como Matisse e Picasso, além de manter interlocução com diversos escritores. Em Paris, residiu na rue de Fleurus, próxima à montanha Sainte-Geneviève, região também associada a James Joyce.
A recepção de Stein dividiu-se entre leitores que reconheceram sua radicalidade formal e outros que a consideraram hermética. Seus textos provocam estranhamento sobretudo pela repetição e pela economia vocabular. No fragmento de “Escute aqui”:
Quarto ato. E o que é o ar.
Quarto ato. O ar é lá.
Quarto ato: O ar é lá no que há no ar.
E ainda:
“Por gentileza, observem que tudo é de uma só sílaba e pois útil. Não produz sentimento, contém uma promessa, é um prazer, não necessita de estímulo, é só” (p. 249).
A redução silábica e a repetição produzem um efeito de desautomatização, tensionando expectativas sintáticas e semânticas.
A discussão sobre o estatuto artístico de sua obra permanece recorrente na crítica. Observa-se que o uso de formas reiterativas e gerundiais também aparece em outros poetas, como o português António Ramos Rosa, o que relativiza certas objeções quanto ao procedimento formal.
No caso de Anna Akhmátova, a contenção expressiva articula-se à cena íntima. Em “Torci os dedos sob a manta escura...”:
(...)
Desci correndo, sem tocar no corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía. (p. 97)
A suspensão e o corte sintático intensificam a tensão do encontro.
Em “Asa de Akhmátova”:

.
A estrutura fragmentada evidencia solidão e ironia.
Uma bela foto de Marina Tsvetáieva aparece em preto e branco e no jogo de sombra e luz se sobrepõe aos versos em seu sofrimento desmedido, Ela comparece com “Versos à Tchecoslováquia”, que aparece numa página escura e cuja estrofe final explicita a recusa do título do volume:
(...)
Ouvidos? Eu desprezo.
Meus olhos não têm uso.
Ao teu mundo sem senso
A resposta é – recuso.
Seus “Versos a Akhmátova”, “Versos a Blok”, sua correspondência com Rilke e com Akhmátova traduzem a intensidade de sua obra, rica de tudo; invenção rítmica, “sintaxe elíptica, quase telegráfica”, arestas de versos em enjambements, com imagens cinematográficas, escolhemos registrar, dentro desta seleção, ainda o poema “Abro as veias”, cuja associação entre vida e linguagem se intensifica:
Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos. Pelas bordas – à margem –
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.
A construção rítmica e imagética articula fluxo vital e fluxo verbal.
É por meio da escrita, da amizade, do amor à vida e entre poetas de seu tempo que esta fascinante poeta parece ter conseguido sobreviver a tantas perdas e separações prematuras (uma segunda filha, Irina, morre de desnutrição em 1920, o filho Gueórgui de dezenove anos partiu para o combate, o marido Sergeï Efron que na guerra, acabou morrendo em um campo de concentração em 1941, poetas amigos muito próximos se suicidaram, e a filha Ariadna permaneceu um bom tempo presa mas sobreviveu, e só morreu em 1975). Tendo escrito muito e vivido até os 48 anos, constatamos a sua luta na intensa correspondência que manteve com inúmeros poetas amigos: Óssip Mandelstam, Anna Akhmátova, Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, dentre os que conhecemos. As guerras destroem tudo ou quase tudo conforme sabemos, e algumas vezes destroem a esperança também. Marina se suicidou em 1941.
A trajetória biográfica de Tsvetáieva evidencia o contexto histórico em que esses poetas produziram, aquela “geração que dissipou seus poetas”, como diz Roman Jakobson em seu estudo lembrado por Augusto.
A recusa assume, nesse sentido, dimensão estética e histórica. Traduzem a intensidade de sua obra, rica de tudo; invenção rítmica, “sintaxe elíptica, quase telegráfica”, arestas de versos em enjambements. Imagens cinematográficas por vezes, também, dão espaço a sentimentos mesmo nos títulos de seus poemas.
Se estamos nestes nossos dias, de novo, sob efeito das guerras entre povos vizinhos que não conseguem se entender, se a ganância parece reger o mundo que nos rodeia, os poetas de outros tempos tiveram uma tarefa humanista difícil que se fez acima desta linha de tanta destruição e violência. É este compromisso ético de enorme coragem, apesar das mortes e das tristezas imensas que eles viveram, que colhemos e confirmamos que Poesia da recusa articula reflexão estética, memória histórica e prática tradutória. Com isso, o volume reafirma a leitura rigorosa e a experimentação formal como modos de resistência poética.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2026
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* Solange Rebuzzi nasceu no Rio de Janeiro. Poeta e psicanalista. Publicou: O idioma pedra de João Cabral, A bordo do Clementina e depois, Diário de um tempo indeterminado, Livro das marés, Livro da Rainha Isabel de Portugal, Francis Ponge Nioque antes da primavera (edição bilíngue com posfácio).





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