Noite Devorada
- jornalbanquete

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Flaviano Maciel Vieira

Mar Becker nasceu em Passo Fundo (RS). Seu livro de estreia é A mulher submersa (Urutau, 2020). Em 2021, foi uma das finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria Poesia, e também recebeu o Prêmio Minuano de Literatura. Seu livro de estreia foi bem recebido pela crítica e indicado como um dos melhores livros de 2020 pelo Suplemento Pernambuco e pela revista literária da Folha de São Paulo, Quatro Cinco Um. Com a publicação de Sal (Assírio & Alvim Brasil, 2022), venceu o Prêmio Ages Livro do Ano (Associação Gaúcha de Escritores), do estado do Rio Grande do Sul, e foi finalista do Prêmio Minuano de Literatura e do Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras. Canção derruída é seu terceiro livro. Com ele, passa a constar no catálogo da Assírio & Alvim, do Grupo Porto Editora, em Portugal. Em 2024, publica a plaquete Cova profunda é a boca das mulheres estranhas, eleita pela revista Quatro Cinco Um como uma das três melhores publicações de 2024 na categoria poesia.
Nos últimos anos, tivemos publicações importantes no campo da poesia: “Brinquedos quebrados” (2019), de Élson Fróes, pela Editora Patuá; “O enigma das ondas” (2020), de Rodrigo Garcia Lopes, pela Iluminuras; “Risca Faca” (2021), de Ademir Assunção, pelo Selo Demônio Negro; “Neste momento” (2022), de André Dick, pela Kotter Editorial; “Alma corsária” (2022), de Cláudia Roquette-Pinto, pela Editora 34; “Cabeça de galinha no chão de cimento” (2023), de Ricardo Domeneck, pela Editora 34; “Respiro” (2024), de Armando Freitas, pela Companhia das Letras; e “Cabeza de serpiente emplumada” (2025), de Claudio Daniel, pela Arribaçã Editora, só para citar alguns poucos. Mar Becker segue complementando essas importantes publicações e se configurando como representante do que há de melhor na poesia contemporânea brasileira.
Seu livro mais recente é Noite devorada (2025), publicado pelo Círculo de Poemas/Editora Fósforo. Diante de um contexto em que a poesia tem apresentado uma imensa pluralidade de vozes, Mar Becker mantém a qualidade literária de seus primeiros livros e nos oferece mais uma demonstração de que poesia é trabalho com a linguagem, é domínio da inteligência criadora, como nos diz Paul Valéry, mais do que expressões subjetivas sem consciência da linguagem poética.
A estrutura do livro é organizada em seis partes: Entre pássaros e queda; Tudo onde encosto me descaminha; Que o mar leve os olhos; Aqui uma transparência entra na outra, viola-a; Apenas o rastro sobrevive; e Os que se perdem. Os poemas não têm títulos, salvo o último da penúltima parte (Apenas o rastro sobrevive), intitulado “Para escrever um poema”. Todo o livro é o resultado contundente da condensação extrema de uma voraz fome lírica que busca saciar-se na ambiguidade polissêmica da noite, ora anjo, ora corpo, ora voz. O resultado é uma composição harmônica de ritmo e imagem, fusão indicada por Octavio Paz em O arco e a lira, quando se refere à poesia como presença e manifestação da palavra em sua ontologia da presença poética.
É isso o que sentimos quando lemos Noite devorada: uma mistura de técnica e ritmo que nos apresenta, a cada página, um rastro difuso, corporal e imagético de amor, mesclado a uma vida por tudo devorada: “também a delicadeza devora, a seu modo”. O que temos é um eu-poético perpassado por vozes, movimentos e desejos que nos revelam fotografias próprias de um olhar imbuído de um corpo em êxtase e deslumbramento. Os “pulsos finos” movem-se em busca da escrita poética do corpo, a “procurar a carne de toda lágrima”.
Vale destacar a natureza espacial e temporal dos poemas. Cada página do livro provoca o leitor com a disposição pouco comum das palavras, que pouco se dispõem em versos, mas em passagens fragmentadas que vão do verso ao parágrafo, passando por liberdades estróficas das mais variadas. Um rastro de poeiras formais/corporais vai se formando e se desfazendo a cada página. Existe apenas o espaço do dizer esfumaçado e o tempo da presentificação que, a cada momento, se esvai.
O livro nos oferece uma imagética do impenetrável, do espanto de ser mulher e da inconstância do amor em seu “risco de desabar de um tremor de pálpebras”. “A oscilação breve espanta” ao “urdir o rastro” das palavras/vozes que perpassam os corpos (do poema, do eu-poético e dos discursos a devorar a noite).
O ritmo e as imagens em Noite devorada fazem confluir o desejo estremecido pelos encontros que se embebedam de silêncio. Cada fragmento/poema dessa macro estrutura nos proporciona a beleza do mistério das palavras na imagética dos encontros:
na mesma história contada por lábios de uma
cigana muito pouco criativa
dois tatos que se buscam em
peles que se ignoram
duas bocas cúmplices, chamando-se
em línguas inimigas
os solitários amam a seu modo
O mosaico de fragmentos poéticos que configura o livro nos oferece breves instantes a se formarem e logo se diluírem diante de um rastro que se configura como espaços de uma “cidade invisível”. A extrema condensação da materialidade verbal dos poemas nos faz lembrar dos dizeres de Ezra Pound, quando afirma que grande literatura é linguagem carregada de significado até seu mais alto grau possível. É o que temos em:
amo com minhas perdas
e meu estremecimento
amo neste corpo que pende, indeciso entre
pássaro e queda
***
eriçar a água
tomar nota de como a garoa desce negra ao abrir dos
rímeis envelhecidos
[...]
***
sulcar a miragem
suster a perda
urdir o rastro
A frágil força das palavras, num território de indecisões em que corpos dizem e sentem, perpetua-se em trocas de mistérios em transes de amor. Lembranças do quarto são como casas da memória, numa composição metafórica do corpo como morada.
o quarto, o amor, os objetos de amar no quarto. Barras de
lençol que se alongam, sutiã que guardo na gaveta
encasulando uma taça dentro da outra, de modo a comporem
ambas um só seio mendigo
Alguns poemas nos fazem sentir a inovação formal de Mar Becker diante de um tema já explorado pela poesia brasileira. Como um diálogo aproximativo, quase intertextual, os temas do medo e das ambivalências do eu parecem confluir harmonicamente, como na composição abaixo, que parece dialogar com o poema “Congresso internacional do medo” (Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade:
medo porque dei meu sono de abrigo a uma flor envenenada medo porque permiti à poesia que entrasse que remendasse minhas calcinhas com uma agulha de vidro medo porque não sei o que aguardo e cada vez mais as janelas chamam para perto medo porque conheci o olhar dos mansos e mesmo ele se insinua à passagem, refletido em facas molhadas
medo porque em algum momento olharei para trás e como fez a mulher de sal direi que meu lugar é uma cidade incendiada
medo enquanto procuro pouso medo das lágrimas da mãe, que eram doces e em poucos dias viravam álcool e pelos cômodos iam abrindo flores próprias para seu terror
medo porque tudo excede tudo onde encosto me desencaminha medo porque amo esta língua despedaçada pelo mar, que se ilumina e quebra
Se em Drummond, o medo é condição coletiva e histórica e também categoria organizadora do mundo (sistemático, compartilhado e institucionalizado), em Mar Becker o tema do medo se compõe como uma construção anafórica rítmica e semântica, como algo encarnado, fragmentário e íntimo. O eu-poético teme o excesso da palavra, sua capacidade de ferir: “Agulha de vidro”, “facas molhadas”. A flor de Drummond é herança, e em Mar Becker é objeto envenenado. O medo em Drummond é fruto da guerra, do totalitarismo e da desumanização moderna, estando claramente situado na história. Em Mar Becker a historicidade é alegórica, indireta e mítica. Sendo assim, em Noite Devorada, o medo não é uma explicação perpassada por questões políticas, mas sim metabolizado pelo corpo e pela memória assombrada pela “língua despedaçada pelo mar, que se ilumina e quebra”.
O outro poema parece dialogar com Ferreira Gullar, em “Traduzir-se” (Na Vertigem do Dia):
porque uma de mim chamam as a outra hesita
porque uma de mim espera a noite mas a outra guarda a manhã
porque se cruzam na passagem, e uma olham as a outra desvia
porque permaneci no meio, e o amor deita sombra em minha boca —e numa de mim quero dizê-lo mas na outra calá-lo
na outra, este medo de ferir com a voz
Neste caso, mais do que uma relação temática, temos também uma relação estrutural e conceitual. Em ambos, a cisão do sujeito se configura na composição do poema, apesar da distinção das vozes. Em Gullar, a distinção é necessária, apesar de falha, e avança na contradição. Em Becker, ela é falha e feroz. Amedronta o eu-poético de forma a paralisá-lo no entre, no meio. Este cala para não se ferir.
A relação entre os poemas de Becker e os outros autores citados configura um entrelaçamento de poéticas que fazem dialogar a poesia moderna com a contemporânea. Devorar a noite é também devorar vozes e poéticas, é criar novos mundos expressivos que deem conta da fratura dos corpos de anjos em buracos da noite, como sugere a epígrafe do livro.
Devorar a noite é um estado de profusão em que a casa, o quarto, os objetos, as lembranças e os medos descortinam a violência da noite que tudo fere. O que resta é a solidão das janelas na melancolia pictórica do sujeito-casa-corpo-ilha-mar. O mar-guia, o livro-mar, o mar descoberto, sua voz e a onipresença dos diálogos que transformam e perpassam corpos femininos enredados em suas misturas e diversidade de vozes/funções.
O que resta é mergulhar na metáfora da escrita, é calar ao escrever e deixar ao leitor a pergunta: o que é calar? Esta rebelião metalinguística da linguagem é fruto do desejo da escrita que “pede mãos leves, que alcancem do dizer certo estremecimento, nem mais, nem menos”. Para o eu-poético, resta a voz que o impele à escrita: “Há muito um livro não nascido me procura”; a consequência fica posta ao leitor: “Escrevo com a noite nas mãos”.
Ao lermos Mar Becker, temos a sensação de uma dicção original e criadora que se configura de modo merecido e pleno na poesia contemporânea brasileira. Há um estilo próprio que não se furta à dialética da tradição, mas que propõe a inovação das vísceras composicionais da palavra como um meio de devorar o silêncio, mesclando a imensidão e a força descomunal de um anjo destroçado pelo mar com as feridas e os mistérios da experiência poética, como num ritual de noite devorada.
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Flaviano Maciel Vieira nasceu em João Pessoa (PB). É professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Tem participações nas publicações: A Linguagem da Poesia (2011 Editora Universitária da UFPB. 2011), Epifania da Poesia – Ensaios sobre haicais de Saulo Mendonça (2012 - Editora Ideia. 2012) e Turbilhões do tempo: notas e anotações sobre poesia digital (2015 - Editora Ideia. 2015), organizadas por Amador Ribeiro Neto. Tem poemas publicados na revista Ruído Manifesto e no livro Novas Vozes da Poesia Brasileira: uma antologia crítica (Ed. Arribaçã. 2024), organizado por Cláudio Daniel.





Muito feliz esta critica sobre a obra de Mar. Parabéns ao Flaviano e ao editor desta revista ímpar e verdadeiramente literária.