BAFO DO MONDEGO, DE BRUNO MOLINERO
- jornalbanquete

- 20 de jun.
- 3 min de leitura
Por Amador Ribeiro Neto

“Aí você chega a Portugal e sua vida vira um inferno”, desabafa um imigrante brasileiro na crônica de abertura de Bafo do Mondego (Urutau, 2025). A frase não é apenas um desabafo: é uma chave de leitura — ou, talvez, uma fissura.
A experiência narrada rapidamente se converte em rotina: depois de entregar toda a economia como fiança de um apartamento, resta ao personagem o cerco invisível da burocracia — essa engrenagem opaca que reverbera, por quase um ano, a mensagem automática: “atendentes ocupados”. Quando enfim consegue ser atendido, a emoção irrompe: “quase chorei. Te juro.” Mas o alívio não vem. A espera se prolonga, espessa, sufocante. “Só espera atrás de espera.” E, nesse intervalo, a identidade vacila: nem legal, nem ilegal — suspensa.
Em outra passagem, a prosa assume o corte de um diagnóstico cultural. Os portugueses surgem como matéria dura: “espartanos, rígidos, crus”, tangenciando a aspereza. Sob a crosta, contudo, insinuam uma ternura recôndita. Já os brasileiros, moldados em outra argila, exibem superfície maleável, sinuosa, quase festiva — até que, em profundidade, emerge uma “violência brutal”. Não se trata de oposição simplista, mas de um jogo de espelhos turvos, onde cada identidade revela sua sombra.
O humor, quando irrompe, não suaviza: desestabiliza. Em “Afrouxa essa gravata”, a liturgia estudantil de Coimbra é atravessada por um riso que desmonta a solenidade e reinscreve a memória. Coimbra, depois disso, já não é a mesma: torna-se mais porosa, menos monumental.
O livro se move por dentro do Portugal contemporâneo, mas evita o gesto panorâmico. Prefere a infiltração: vozes, fragmentos e costumes de brasileiros que ali vivem e se debatem. O que emerge não é exatamente um retrato, mas uma atmosfera: um país preso a seus ritos, onde a tradição, por vezes, se torna entrave; onde o cotidiano se enrijece em protocolos; onde o outro — o estrangeiro — é tolerado, mas raramente assimilado.Mas reduzir Bafo do Mondego a um livro de crônicas é empobrecê-lo. O Mondego, mais que cenário, funciona como operador simbólico. Rio que corta e conduz, sugere uma temporalidade que escorre e se deposita — um tempo que deixa resíduos, odores, camadas. O “bafo” do título é a emanação dessa experiência saturada, que atravessa a prosa e contamina a poesia.
A linguagem não se acomoda em fronteiras. O livro se constrói como zona híbrida, em que prosa e poesia se tensionam. Há uma insistência no ritmo — como se cada frase buscasse não apenas dizer, mas pulsar. Não por acaso, a abertura se dá com um “poema-porrada”, herdeiro da energia de Alarido (2015), estreia do autor, onde já se delineava uma dicção que submete o material do jornalismo a uma torção musical e imagética.
Se, em Mensagem, Fernando Pessoa inscreve no mar a epopeia do espírito aventureiro português, aqui o movimento se inverte: não mais a expansão, mas o refluxo. O que se acumula são as lágrimas — não as da glória, mas as do desgaste e da espera. O sal já não consagra: arde. E corrói.
Ainda assim, seria simplista ler o livro apenas pelo viés da denúncia. Há frestas de afeto, momentos em que a dureza cede e uma convivência possível se esboça. Mas as águas que chegam ao mar são densas, plúmbeas. Delas emana um bafo soturno, por vezes macambúzio — atravessado por humor mordaz e musicalidade quase atonal.
No fim, impõe-se não apenas o retrato de uma experiência migrante, mas a construção de uma linguagem capaz de sustentá-la. É nesse ponto que o livro se (a)firma com mais força: não apenas pelo que diz, mas pelo modo como faz da língua um campo de tensão, em que crítica social e invenção formal correm como águas do mesmo tempo.
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Amador Ribeiro Neto (Caconde-SP, 1953). Poeta, crítico literário, artista visual, professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba. Autor de Poemas do amor (2025), Poemail (2019), entre outros. Os três poemas dessa antologia fazem parte da plaquete Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Amador e são inéditos.





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