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Cinismos da amargura

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • 20 de jun.
  • 3 min de leitura

Por Ademir Demarchi

 

 

O existencialismo encontrou no escritor e filósofo Émile Cioran (1911-1995) um sagaz e irônico pensador quando ele se mudou da Romênia para a França e começou a publicar livros como Breviário da decomposição (1949). Incomodado com sua própria condição de mal-humorado, mas transcendendo-a, ele criou uma obra pensando o ser humano como uma criatura decaída, asfixiado pela vida cotidiana normatizada e marcada pela insignificância e pelo efêmero. Essa obra, que tem um fundo teológico, o tempo todo questionando o sentido de se ter um deus criado para estar a serviço da consciência humana culpada, após a Segunda Guerra Mundial ganhou um sentido ainda mais especial, histórico, de desnudar a decadência da civilização ocidental.


Diante da criação dessa notável indústria de morte que são as guerras orientadas por ideologias ou simplesmente por interesses econômicos, contabilizando cadáveres aos milhões, o pensamento de Cioran, por mais ácido que seja, tão ínfimo e insuficiente pela impotência que qualquer ferocidade filosófica alcança diante da morte planificada, chega a ser infantil. Ele bem sabia disso, e nele insistia dizendo que o fazia por distração ou vício. Seu negativismo, no entanto, é de uma necessidade saudável e indispensável para roer todas as certezas, que são o vírus inicial de qualquer mortandade. Por isso, ainda que ele afirme ,o tempo todo está colocando em dúvida o arcabouço de ideias brilhantes criado pelo Ocidente.


Em Silogismos da amargura, traduzido por José Thomaz Brum (Rocco, 1991) podemos encontrar a acidez do seu pensamento, o negativismo intenso e o anunciado tom amargo. Porém Cioran, em suas hipérboles existenciais, verdadeiras diatribes, nos faz alcançar também o riso, pois o modo como ele vê a miséria humana retira-a da condição auto dolorosa de tragédia feita para provocar choro, para a de tragicomédia, que, não há dúvidas, é a forma perfeita para mostrar o que é o ser humano: ridículo.


Dito isso, vamos a uma seleção dessas diatribes desse simpático velhinho que é um avô do meu pensamento. “Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá”. “O espermatozoide é o bandido em estado puro”. “Quem não conheceu a humilhação ignora o que é chegar ao último grau de si mesmo”. “Se acreditamos com tanta ingenuidade nas ideias é porque esquecemos que foram concebidas por mamíferos”. “Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. Mas nossa loquacidade é pré-natal. Raça de tagarelas, de espermatozoides verbosos, estamos quimicamente ligados à Palavra”. “Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda dependemos dela por essa súbita necessidade de uivar – último grau do lirismo”. “A sabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos buracos”. “Para nos vingar dos que são mais felizes do que nós, inoculamo-lhes – na falta de outra coisa – nossas angústias. Porque nossas dores, infelizmente, não são contagiosas”. “Como gostaria de ser uma planta, mesmo que tivesse de velar um excremento!” “Quem não viu um bordel às cinco da manhã não pode imaginar para que lassitudes se encaminha o nosso planeta”. “Antigamente se passava com gravidade de uma contradição a outra; agora sofremos tantas ao mesmo tempo que não sabemos mais por qual nos interessar, nem qual resolver”. “Acredito na salvação da humanidade, no futuro do cianureto...”. “Por não ter haver sabido celebrar o aborto ou legalizar o canibalismo, as sociedades modernas deverão resolver seus problemas através de procedimentos muito mais expeditivos”. “O Real me dá asma”. “E se houve um tempo em que invejava esses monges do Egito que cavavam suas tumbas para chorar sobre elas, se cavasse agora a minha seria apenas para jogar pontas de cigarro”. “Todo comentário de uma obra é insuficiente ou inútil, pois tudo o que não é direto é nulo”.

 

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Ademir Demarchi nasceu em 1960 em Maringá e vive em Santos. É escritor, coeditor da revista Poetrishy (Bristol) e Cuypatã (Cubatão). Editou a revista BABEL, de poesia, tradução e crítica (15 edições). Publicou, entre outros, os livros de poemas políticos Gambiarra – Uma pinguela para o futuro do pretérito; In Fuck We Trust; Baile de máscaras – Odiário da peste, além de livros de ensaios como Espantalhos e Contrapoéticas.

 

 

 
 
 

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