top of page

“Fora do alcance da memória” – uma exegese

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • 20 de jun.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de jun.

Por Guilhermino Domiciano

 

Eis que o poeta levanta a cabeça. Acaba de fazer sessenta anos; tinha trinta e cinco quando Osama Bin Laden derrubou as Torres Gêmeas em Nova Iorque; cinquenta e três quando o Exército Brasileiro matou o catador de latinhas Luciano Macedo no Rio de Janeiro. Precisa falar com frescor no mundo que amadurece sob um sol difícil. Olha a própria obra, acrescenta, revisa, melhora o imperfeito. Sabe a fogo de ourives, a sabão de lavandeiro. Trabalha, Homo faber, trabalha; pra que mais você serve?


A chave do livro está na capa. O nome é Fora do alcance da memória, verso do poema Na estação (p. 152). Quem nunca acordou quase, quase lembrando um sonho? O poeta sabe o que faz, que pisa no terreno delicado do significado. Com paciência de garimpo e disciplina de metalurgia, entrega um livro exato e exigente, capaz de tensionar realidade e sonho. Faz lembrar aquele momento fugaz em que o sol estala nas ondas mais distantes. Há que encontrar sentido no ato mesmo do dizer. A poesia existe quando o leitor lê.


Neste mundo múltiplo e vário – diabo colateral aos avanços tecnológicos –, o autor se apresenta múltiplo e vário. Lança mão de um recurso simples e aproveita esta piscina rasa com ares de lago cintilante; usa mil nomes, vê mil mortes, vai em mil lugares. É uma impostura. Não se enganem com a falsa lira de Fabrício Marques, é sempre o mesmo poeta que fala: ponta-esquerda agressivo, de pancada considerável, Fabrício chuta com força. Neste tempo em que se acabaram as sutilezas, o papo é reto, a fala é assertiva, mesmo viril; os muitos nomes não passam disso: nomes. Recurso de retórica, vapor da linguagem: o que interessa é gravitar este lugar de existência intensa e concreta, o agora. E a única coisa relevante agora é o afeto. Somos porque amamos.


Não que o autor não se importe com os nomes. Contei 187 nomes próprios: 96 pessoas e 78 lugares; mais nove coisas e quatro criaturas. Nem que não se importe com a linguagem: o que falamos não é a língua, é secreta arquitetura, istmo a unir terras desoladas. É um mestre do vapor, senhor do vernáculo; e se preocupa muito com o não dito, o difícil de dizer. Este é meu tempo: não tenho palavras. Que bom, digo eu, que precisei ir 56 vezes a enciclopédias e dicionários.


O que ele quer é o gol distante, quase inalcançável; trabalha com a certeza dos doidos, os que vão pra cima, não importa quanto custe, garimpeiros atrás de nadas de painita. Fabrício está entre os piores, perto dos convictos: garante que é possível dizer o indizível, além das palavras, aquilo entre elas; antes, no fundo, terceira margem. Lugar nenhum onde todos estaremos alguma vez na vida.


O livro tem 208 páginas e 176 delas trazem poesias e o elegante grafismo de Antônio Julião – o restante é dedicado a encômios e referências, que não são poucas: o autor está envolvido em 27 publicações ao longo de 25 anos de produção. Estão nele poemas inéditos e éditos revistos, resultando uma obra nova. São oitenta e cinco poemas, divididos em seis capítulos. No primeiro, o vate se apresenta e tange a lira; no segundo, profetiza como no Velho Testamento; no terceiro, discute o próprio ato de criar; no quarto, avança sobre o terreno pantanoso da poesia instantânea, tão querida aos poetas de guardanapo; no quinto, faz simetria doce ao segundo capítulo; e, no último, entrega um réquiem. A simetria é uma das marcas na organização do livro. Basta olhar construção e posição de Sem Fôlego (p. 54) e Fôlego Fátuo (p. 80), ou o quarto e sétimo cantos de Eu-Leitor Ela-Língua (p. 38 e 41).


Há muito material de alto nível: Haja o poema (p. 14), O leilão (p. 90), False start (p. 94), Imposturas (p. 121), Manhã (p. 135), Faltou dizer (p. 162), Como eles morrem (p. 176). Enquanto dormes (p. 30) é um primor: quinze quartetos – rimas leves entre os segundos e quartos versos, métricas clássicas e bárbaras e um discreto apreço pelos decassílabos – dedicados a ela que dorme. É mulher e é língua. E sonha e convida para a algazarra de seres vivos a que serve de abrigo; versos que misturam afeto e anatomia de forma soberba para chegar ao final, quando músculos do pescoço, rosto e quadris sorriem juntos, no despertar da amada. O oitavo movimento de Eu-Leitor, Ela-Língua (p. 42) é outro primor. O verso Todos olharam para trás e foram transformados em sol, por erro de revisão é de qualidade rara. É muito difícil falar muito dizendo pouco e é justamente o volume de significados aquilo que separa pornografia de poesia. Esse verso, e todo o poema, cheio de lugares e histórias que existem e não existem, contém uma esperança profunda, crença concreta no que podemos aprender e ser como criaturas. Não estamos no plano dos sonhos, Fabrício está falando sério sobre este mundo, este mundo aqui.


É um livro importante. Importante que os professores apresentem este livro para seus alunos. Os nove poemas citados são excelentes para que os jovens percebam o esforço para dizer alguma coisa com alguma exatidão, a exigência no vocabulário e no seu manejo, a posição do artista no mercado das mentiras, a delicadeza das rimas e dos ritmos. Mais que tudo, para perceberem o quanto é possível alcançar quando se abre a maravilhosa Caixa de Pandora da linguagem. É Fabrício quem fala: a quem recorrer se a escola dormir?.


Exegese boa tem que falar mal. Sobram algumas cavilhas: bem onde as palavras se desbotam (p. 35) ficaria melhor como bem onde as palavras desbotam; a segunda parte de Lagoa (p. 45) sofre porque as cavilhas fazem o poema perder ritmo. As aspas e colchetes em Onde está (p. 172) são ruído desnecessário. E a editora não identificar autor e obra na lombada é de uma arrogância tola. Isso não altera o resultado: o livro continua muito bom do mesmo jeito.


Muito bom e, repito, importante. Os poetas precisam ler este livro, mais de uma vez. Grandes textos ganham justamente na profundidade, sempre mudam quando lemos de novo. O mais importante para os poetas notarem é que Fabrício publicou um réquiem para o Romantismo brasileiro. Com melancolia, sim, e isso pediu coragem; o atrevimento dos doidos diante do abandono das certezas e da obsessão pela criação. Como continuar romântico sem nunca mais sê-lo. Fora do alcance da memória é o presente de um brasileiro para a língua portuguesa.

 

______________________________________________________________________________________

Guilhermino Domiciano é ator formado pela UNICAMP, com textos publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais. Recebeu o APCA de melhor ator, sob direção de Neyde Veneziano. Dirigiu Esperando Godot, de Samuel Beckett; fez parte do elenco de Hamlet, com Zé Celso Martinez Corrêa; de A comédia dos erros, com Marcio Aurelio; e do longa-metragem Alma corsária, de Carlos Reichenbach.

 
 
 

Comentários


2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

bottom of page