TUDO É FALSO, MENOS A ARTE (RICARDO LIMA)
- jornalbanquete

- 20 de jun.
- 6 min de leitura
Por Henrique Duarte Neto

Ricardo Lima brinda-nos com novo lançamento (Tudo é falso, Ateliê Editorial, 2025). Ele que é um dos poetas mais parcimoniosos e regulares que conheço no quesito publicação. Oito livros de poesia desde 1994. Nem pouco, nem muito. Publiquei há dez anos, um livrinho (As múltiplas faces do tempo na poesia de Ricardo Lima, Insular, 2016) de pouco mais de 100 páginas sobre o arco que vai de Primeiro segundo, seu opúsculo de estreia, até o sexto, Desconhecer, lançado em 2015. O mote dessa reunião era a questão do tempo e a intuição de que na verdade estava diante de um poeta que dilui a realidade, quase que da maneira dos surrealistas. Cheguei mesmo a sugerir um neossurrealismo do poeta, coisa que, passado um decênio, em virtude principalmente dos dois livros que saíram depois e mesmo em relação à própria mudança de interpretação minha do pequeno universo trabalhado, não faria mais.
Um primeiro aspecto que chama a atenção no livro de 2025 é o título. Como pode ser proposto, tal título levado às últimas consequências é um paradoxo, uma aporia. Na nossa ótica, alicerçada, por exemplo, no primeiro poema, em que aparece a expressão-chave que dá título ao volume, nem tudo é realmente falso. Este primeiro poema é um festival de ricas antíteses, entre o lodo e a orquídea, o feio e o belo, o mínimo e o colossal. Donde este dístico fundamental: “ainda há palavras/ para aninhar num gesto mínimo” (p. 11). Diante da imensidão da Vida, o poeta pode alçar voos líricos no espaço ao qual vai sussurrar dizeres, sem grandiloquência, “sem tendência pra tenor”, como já afirmava em Chave de ferrugem, seu segundo livro. Além disso, no último poema de Tudo é falso, expõe que é melhor, diante das circunstâncias, a falta do que a fartura. Como a dizer que no mínimo da expressão, o máximo de nossa condição.
Nesse sentido, as antíteses se fundem e se harmonizam. A flor precisa do elemento pútrido para vingar. Sem que se dome o vasto mundo em uma expressão enxuta, concisa, irá se cair na verborragia, que muitas vezes é o pecado dos pecados. Por fim, o belo geralmente não é belo por si só, em múltiplas frentes o poeta extrai da feiura ou da imperfeição da existência material, o élan para se propagar. Por isso, a metalinguagem tem um alcance apenas relativo no campo da poesia e, no caso da de Ricardo Lima, discreto, sendo a Vida, principalmente nos últimos três livros, uma chama sempre ativa.
Parece-me, por outro lado, ser verdadeiro que o minimalismo em Tudo é falso não ter a radicalidade de obras anteriores, especialmente de Chave de ferrugem e Cinza ensolarada, por exemplo. Mas é que a pegada também de certa forma se alterou. As associações livres continuam, mas há expressões cruas e realísticas, altamente chocantes (que causam arrepios ou frissons!), no novo livro. Assim, por exemplo, essa, logo no terceiro poema (p. 15): “na perna uma veia vinho/ estourando”. A beleza (ou prazer estético) está presente tanto na aliteração das palavras iniciadas em “v”, como também pelo verbo que preenche todo o segundo verso do dístico e que perdura. Além disso, também pela vivacidade da imagem. Outra expressão muito bem urdida diz respeito ao “inspetor” de bairro (quarto poema, p. 17), que dele quase nunca se afasta (não será apenas um despiste para se referir aos modernos “inspetores” em algumas das grandes e contemporâneas cidades brasileiras, os milicianos?): “para se comunicar com os vizinhos/ deixa pequenos animais enforcados na maçaneta”.
Ademais, há constâncias também no novo livro, como, por exemplo, a referência frequente às idades extremas da existência, infância e velhice. Em todos os opúsculos poéticos de Ricardo Lima há cenas que desenvolvem imagens sobre essas idades. Sobre o escorrer do tempo. Sobre o desencanto de não ser mais criança, fase áurea da Vida, de perceber o imergir no outro extremo. Há mesmo poemas em que as duas idades convergem, como este (p. 35): “hoje vejo crianças/ dentro de meus amigos grisalhos”. Mas também outras idades são enfocadas, em todos os livros, em todos os tempos.
Remeti a discreta existência da metalinguagem na poesia de Ricardo Lima. Esta é uma meia-verdade. Pois se sua poesia é nutrida pela História (e falarei mais disso daqui a pouco), ela também instaura novos mundos, para usarmos os dois vieses elegidos por Octavio Paz, em O arco e a lira, para a possível criação poética. Mas, em Tudo é falso, mais do que em qualquer um dos livros anteriores, há um voltar-se para o mundo artístico, e não só ao poético, embora as referências relevantes a Haroldo de Campos e João Cabral de Melo Neto (p. 33). Também aparecem a música e a pintura, com predomínio da última, possibilitando uma leitura de que estamos diante de uma poesia mais plástica do que sonora, o que não me parece de todo verdade. Mas a referência a pintores é bem mais abundante, quase todos modernos, com exceção de Botticelli, tais como: Cézanne, Manet, Monet, Kandinsky, Chagall. Faltando Van Gogh, o único que faz a ponte entre o impressionismo e o expressionismo, as duas tendências presentes na enumeração e que não está citado. Já na música há apenas dois nomes, e do Barroco, Bach e Vivaldi, revelando, talvez ou quase com certeza, uma menor familiaridade com tal universo de fruição.
Porém, faz uma bela sincronia entre música e pintura no décimo oitavo poema (p. 45): “o violino que levita é chagall/ ou vivaldi no segundo movimento do inverno”. Uma beleza desmesurada assalta-nos ao contemplarmos o Violinista verde, de Marc Chagall, de 1924, e ao deliciarmo-nos com a serenidade do Largo, segundo movimento de “O inverno”, das Quatro estações, de Vivaldi. Diferentes artes, diferentes épocas, diferentes estilos, confluem no poema para gerar, por sua conjunção, uma poesia aberta ao repertório artístico, fazendo da tradição um modo de reelaborar dizeres, de instaurar o novo.
Mas nem só da arte vive a poesia em Tudo é falso, embora haja para ela um lugar de destaque, ou melhor, esteja amalgamada à própria Vida enquanto fenômeno mais urgente e sério. A distinção, que de fato muitas vezes ocorre, se dá pelo fato de se separar a poesia de cunho “social” com aquela de abordagem mais lúdica, que “brinca” com a linguagem, e faz da forma o seu filão. Como se toda a poesia não partisse de um trabalho próprio com a linguagem. É por isso que Octavio Paz tem nossa admiração por ter conjugado a História, a questão do impulso que a sociedade exerce no poeta, mas também, não obstante, a própria invenção que o poeta faz de uma nova linguagem, aquela que dilacera a palavra poética (PAZ, 1984). O poeta é nutrido pela linguagem da tribo, mas cria, por outro lado, uma nova linguagem, aquela que, posteriormente, vai nutrir a linguagem da tribo.
Assim, em Ricardo Lima, os dois aspectos são bastante visíveis. A marca do viés histórico, social e político, principalmente em Pequeno palco, 2020, e agora, em Tudo é falso, de 2025. Por outro lado, cria-se o espaço para a invenção de uma linguagem própria, singular, um viés que deixa claro que o poeta de Jardinópolis, é de fato um transgressor, na maneira pensada por Paz sobre os poetas que fazem jus à tal nome. Quando fala de racismo, de políticos corruptos, proselitismo religioso, temas em alta não só para a academia como para os leigos, Ricardo utiliza uma linguagem repleta de inovações para expressar o que só pode ser expressado por um sujeito sensível e que não está alheio aos dilemas e cataclismos do nosso mundo.
Quando se propõe a refletir sobre os problemas que cercam a Vida e o mundo em que vivemos, não falta também uma riqueza de reflexão. Como depois da crítica no sexto poema (p. 21), em que a ausência de direitos humanos para todos é enfatizada nestes termos: “ou somos o abismo/ não valemos nada”. Ou, mesmo, na reflexão da questão mais primordial de todas, a morte, da qual “não saber consola” (p. 53). Assim, diante de uma poesia que é voltada para a fatura externa, mas, ao mesmo tempo, cônscia da importância do trabalho interno e dele fazendo sua obsessão, sem que com isso se perca miraculosamente todo o seu poder de espontaneidade, vemos alavancados em Tudo é falso, que se esta falsidade permeia a Vida, ela não atinge totalmente a arte. Embora a simulação, o jogo, as figuras de linguagem estejam presentes nela, e sendo o artista o criador de um novo mundo, faz do seu demiurgo artístico, quiçá, mais verdadeiro do que o mundo dito “concreto”. Por isso, em Ricardo Lima, a questão da falsidade é uma questão de escopo, de saber para que lado está se olhando.
______________________________________________________________________________________
Henrique Duarte Neto é funcionário público, crítico literário e poeta. Nascido em 1972 no interior de Santa Catarina. É no seu trabalho com a exegese e a criação poética que encontra sua realização.





Comentários