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A pó-ética de Augusto de Campos

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    jornalbanquete
  • 1 de mar.
  • 9 min de leitura

Por Flaviano Maciel Vieira



A produção poética de Augusto de Campos constitui-se como uma experimentação radical da materialidade da linguagem e de seus modos de intercâmbio. Trata-se de uma obra atravessada pela inovação e por uma perspectiva visionária que a inscreve no campo das vanguardas da segunda metade do século XX. Desde o surgimento da poesia concreta, suas criações exploraram recursos artesanais e semiartesanais, como a aplicação de letraset e o uso de dobraduras de papel. Com o decorrer do tempo, cada vez mais a palavra torna-se coisa, forma, som e espaço, valorizando a concisão, a saturação semântica e o minimalismo gráfico.


Entre as múltiplas experiências desenvolvidas ao longo de sua trajetória, essa lógica experimental intensifica-se no contexto das poéticas digitais, nas quais o signo passa, de modo cada vez mais evidente, por processos de fragmentação, mobilidade e diluição na tela do computador. Diante desse cenário híbrido, interativo, hipertextual e cinético, observa-se uma recorrência da ideia de pó como materialidade conceitual e poética, o que aqui será denominado pó-ética. Tal conceito apresenta-se como uma possível chave de leitura para a compreensão de sua produção experimental. Não se trata de um simples tema recorrente ou de uma metáfora isolada, mas de um princípio estético, ético e semiótico que atravessa diferentes fases da produção de Augusto de Campos, manifestando-se como uma lógica de fragmentação, diluição e recomposição do signo.


A progressiva decomposição das unidades tradicionais da criação poética – letra, sílaba, palavra e verso – em partículas diminutas, por meio de um processo de atomização das palavras e das imagens, engendra uma unidade complexa, na qual os signos ora se desfazem, ora se recompõem, em consonância com a verbivocovisualidade inerente às obras. Essas partículas organizam-se por aproximações visuais, sonoras e espaciais e passam a operar como poeiras poéticas: signos instáveis que se apresentam em unidades móveis e provisórias, recusando a fixidez do sentido. Instaura-se, assim, uma poética da pulverização sígnica e da transitoriedade do olhar. O poema deixa de se configurar como forma estática e acabada para assumir-se como uma constituição processual, marcada por dispersões simultâneas.


Antes de tratarmos das poéticas digitais de Augusto de Campos, convém observar como a ideia aqui defendida de pó-ética pode ser percebida desde os primeiros trabalhos do autor. Aliás, é interessante notar (questão que ficará para outro texto) que a extensa e inovadora obra de Augusto de Campos constitui um campo fértil para a observação de sua trajetória à luz do que a história da literatura digital tem denominado de gerações da poesia eletrônica ou digital¹.


Voltemos ao conceito de pó-ética aqui defendido. Além de configurar-se como eixo temático em muitas composições, o pó opera como elemento estético e semiótico, o que pode ser observado em praticamente toda a obra do autor. Desde o início de sua produção, Augusto de Campos apresenta forte vocação intertextual, estabelecendo diálogos criativos com tradições e autores diversos. Pratica diferentes modalidades de tradução e de ready-mades intertextuais, reoperando fragmentos diversos em novas estruturas combinatórias e convertendo seus poemas em montagens atravessadas por múltiplos palimpsestos. Além disso, dilui a fronteira entre ver e ler, uma vez que os signos são trabalhados de modo a operarem como uma espécie de névoa poética, articulada por letras, sons, movimentos, interações e formas plásticas. Entre outras iniciativas relevantes, participa da organização, em 1956, da Primeira Exposição de Arte Concreta (Poesia e Artes Plásticas), realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ao longo de suas inúmeras publicações, suas produções mantêm-se em constante sintonia com experimentações das estruturas gráfico-espaciais da folha em branco, valendo-se de signos fragmentados, verbais ou não verbais:


  (amortemor, 1970)

 


  (o pulsar, 1975)

 

Organiza (em parceria com Waldemar Cordeiro de Souza) uma exposição de expoemas, publicado em POPCRETOS, em 1964.



(olho por olho, 1964)

 

Em livros como Poetamenos (1953), já se pode observar uma inflexão icônica de seu discurso, configurando-se como uma das marcas características de sua poética de invenção, tal como formulada por Ezra Pound. O uso de cores, a organização tridimensional das palavras e os movimentos verbivocovisuais antecipam o advento das poéticas digitais, nas quais as palavras passam a interpenetrar-se de forma cada vez mais radical com as imagens, configurando, assim, segundo Augusto de Campos, uma “abertura insopitável para o universo virtual”².



(lygia fingers, 1953)

 

 

(Poemóbiles, 1974, em parceria com Julio Plaza)

 

São numerosos e diversos, como se pode observar, os procedimentos de criação artística que Augusto de Campos vem experimentando desde meados do século XX e que se adequam ao conceito de pó-ética. Tais procedimentos incluem a valorização da concisão, do minimalismo gráfico, a saturação semântica, da fragmentação, da colagem, da sobreposição e da interatividade.


A distribuição e a dispersão sígnica configuram uma linguagem que se recusa à solidez do discurso e à estabilidade do significado, como se este se encontrasse diluído em uma significação construída pelo acúmulo de partículas mínimas, numa constante sugestão de dissipação: poeira poética de signos – pó-ética.


A intesemiose verbivocovisual cria um amálgama entre palavras, sons, imagens, movimentos, cores e outros elementos, configurando uma ampla constelação sígnica de partículas criativas, processo que se intensifica a partir das experimentações com as novas mídias. Os livros Despoesia (1994), Não (2003), Outro (2015) e Pós poemas (2025) confirmam a presença de uma materialidade pó-ética em diálogo com os recursos da linguagem digital. Videoclipes, hologramas e CDs são recursos explorados progressivamente, até a incorporação de programas de multimídia, utilizados de forma experimental em muitos de seus poemas. É sobre essas experiências que passaremos a tratar a seguir.


Augusto de Campos concede uma entrevista a Claudio Daniel, publicada na primeira edição da revista Grou. Nela, entre outros temas, destaca-se a presença da poesia digital. Segundo Augusto de Campos, no contexto das novas tecnologias digitais:


A palavra não deixa de ter seu lugar, mas tem que ser reciclada, entrando em contato direto com a dimensão não verbal, as imagens e os sons, e passa a ser interdisciplinar, intertextual e muitas vezes interativa, além de projetar-se em parâmetros materiais mais amplos, que devem levar em conta critérios de forma, cor, espaço e movimento”.3


Para o poeta, o reciclamento diz respeito à interpenetração progressivamente intensificada entre imagens e palavras. Tal processo decorre dos recursos computacionais, que oferecem ferramentas capazes de promover uma inflexão icônica do discurso. A partir da década de 1980, como se sabe, sua obra intensifica as experiências com as novas mídias, o que aproxima, mais do que nunca, o engenho barroco da tecnologia digital, por meio de interações combinatórias e labirínticas.

 Muitos outros poemas digitais de Augusto de Campos poderiam ser mencionados para exemplificar a essência pó-ética de sua obra, tais como: Walfischesnachtgesang (Canto noturno da baleia); Poema Bomba; viv; TV Grama 4 – erratum; TV Grama 3; Greve; Ininstante; Sem saída; SOS; (cidade city cité) — de Augusto de Campos, com tradução de Erthos Albino de Souza —; e Criptocardiograma, entre outros⁴.


No entanto, em função da extensão e da finalidade deste texto, limitemo-nos a um olhar panorâmico sobre um exemplo mais explícito da pó-ética digital augustiana: o poema digital ⁵. Outros poemas, como Pó do Cosmos⁶ e Pó de Tudo⁷, apenas para citar mais dois, também constituem referências explícitas de uma pó-ética. Tive a oportunidade de analisar o poema Pó em minha tese de doutorado, defendida em 2017⁸. Nela, já se pode identificar o germe do que aqui se define como pó-ética digital na obra de Augusto de Campos.

 

 


(, 2013)

 

Nesta poesia cinética animada, lançada em 2013 na revista on-line Errática, juntamente com o poema Deuses, formas fragmentadas de pontos na tela passam, progressivamente, a representar sílabas, que, por sua vez, passam a se constituir em palavras, formando, por fim, frases organizadas em um eixo sintagmático completo: és pó só pó se és pó sê esse pó poesia. Configura-se, assim, uma “poeira” de signos poéticos que parecem deslizar sobre a tela, sugerindo simultaneamente partículas dispersas e estruturas sólidas que se materializam imageticamente. O sentido transmuta-se em imagem, e a imagem transmuta-se em sentido. O verbal torna-se imagem em ação, em processo. A visualização da poeira, formada por pontilhamentos na tela, configura o próprio ato da leitura.


Ou seja, a palavra não apenas nomeia o pó, mas comporta-se como tal, ao ser composta por partículas mínimas (pontos) que, ao mesmo tempo em que ganham forma (sílabas, palavras, frases), parecem fragmentar-se e cair, acumulando-se lentamente na tela, criando estruturas que emergem, paradoxalmente, da dispersão.

As materialidades fragmentam-se de modo residual, constituídas por minúsculas porções, aparentemente instáveis, dispersas em suas unidades pó-éticas. Isso ocorre em razão do movimento compositivo que faz o símbolo tender à condição de ícone; as palavras aspiram a tornar-se seu próprio objeto; as letras e as imagens desejam converter- se em pó. O sentido emerge e se desfaz no próprio ato da leitura. A materialidade da poesia não apenas tematiza o pó: comporta-se como pó. Nesse sentido, a pó-ética não se caracteriza apenas por uma estética da diluição, mas também por uma ética da linguagem. Em lugar de uma monumentalidade do discurso e da transparência da informação, explora-se uma outra complexidade da materialidade do signo. A linguagem, assim, não aspira à permanência, mas a umO conteúdo do poema remete à brevidade da vida, que passa a ser encarada sob o signo da poesia. Somente assim torna-se possível conferir permanência à poeira da vida, que parece esvair-se em poucos segundos de tela, em alusão à rapidez com que o tempo de uma existência se esgota, evidenciando a finitude e a transformação da matéria. Forma e conteúdo; símbolo e ícone; abstração e materialidade. A recorrência da temática do pó na obra de Augusto de Campos, seja como procedimento formal, seja como imagem explícita, evidencia uma ética da dissolução sígnica na composição de seus poemas. O póapresenta-se, especialmente nas poéticas digitais, como metáfora da própria linguagem criadora, esfarelada em feixes de luz que dançam na tela, configurando materialidades digitais compostas por pontos, pixels, movimentos, unidades fragmentárias e espaços vazios, entre outros artifícios. O resultado é uma estrutura dinâmica e hibridizada, constituída por uma multiplicidade concomitante de elementos sígnicos, que tornam a instabilidade do signo a sua própria essência.


O que o poema digital  nos demonstra é que a obra de Augusto de Campos se compõe de continuidades experimentais, desde o surgimento da poesia concreta até as práticas digitais contemporâneas. Trata-se de uma criação que metamorfoseia os signos em busca de intersemioses inovadoras. Carregados de procedimentos de reciclagem, seus poemas renascem como vídeos, instalações, performances e experimentos digitais, o que configura uma série de redefinições de materialidades e regimes de leitura. Sua pó-ética traz em si uma ética da dificuldade, da condensação e, sobretudo, do estranhamento, características de um poeta que sempre experimentou a transgressão dos limites das mídias.


Ao propor o conceito de pó-ética na obra de Augusto de Campos, passando por poemas concretos, pré-digitais e digitais, em suas dimensões visual, fragmentária e diluída, o objetivo é demonstrar como esses poemas operam no limite entre forma e dissolução, entre signo e ruína, em uma constante alternância entre permanência e desaparecimento. É nesse contexto de materialidade rarefeita, em que o poema se faz pó e o pó se faz poema, que se estabelece uma das principais contribuições de Augusto de Campos para as poéticas contemporâneas e para os estudos da linguagem poética criada através de meios computacionais.


Sem dúvida, o poeta exerceu, e ainda exerce, influência decisiva sobre a poesia digital brasileira e sobre a poesia contemporânea em geral, fornecendo um amplo repertório de procedimentos verbivocovisuais reoperados por novos poetas multimidiáticos, como Arnaldo Antunes, Élson Fróes, Omar Khouri, André Vallias, Ademir Assunção e Alexandre Guarnieri, entre outros. Além disso, sua obra possui grande relevância para o ensino e para a crítica da literatura contemporânea brasileira, pois exige metodologias de interpretação capazes de dar conta das novas literariedades próprias das poéticas digitais e multimodais.


A pó-ética de Augusto de Campos, portanto, permite compreender sua produção como uma evolução coerente de experimentação formal, na qual a diluição sígnica, já prevista no Plano-Piloto para a Poesia Concreta (1958), é elevada da bidimensionalidade à multimensionalidade. Seus poemas tornam-se, assim, campos de força tensionados entre dispersão e unidade formal, entre organização estrutural e dissolução sígnica, confirmando que sua poesia constitui um espaço privilegiado para refletir sobre os limites materiais, tecnológicos e semióticos colocados à disposição dos poetas.


Por fim, é difícil ignorar o valor simbólico do título de sua mais recente publicação em livro, Pós poemas (2025), obra que reafirma, de modo emblemático, uma trajetória inteira atravessada por uma poética de pós.


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* Flaviano Maciel Vieira é poeta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Participou de A linguagem da poesia (Editora Universitária da UFPB, 2011), Epifania da poesia. Ensaios sobre haicais de Saulo Mendonça (Ideia, 2012) e Turbilhões do tempo: notas e anotações sobre poesia digital (Ideia, 2015), organizadas por Amador Ribeiro Neto.

 

Notas


1 Leonardo Flores, no texto Literatura digital de terceira geração (2021), demonstra como a história da literatura digital (o autor se refere à literatura eletrônica) está vinculada à história da computação e das redes. Ele propõe uma periodização da poesia digital em três gerações de acordo com as transformações tecnológicas, culturais e estéticas que afetam diretamente os modos de produção, circulação e recepção do poema. A primeira é caracterizada pelo experimentalismo ligado ao código; a segunda é caracterizada pelo surgimento da multimídia e da internet; e a terceira é caracterizada pelo uso de aplicativos populares e circulação em redes sociais. Segundo o ator: “Proponho a definição de três gerações (ou movimentos) de literatura eletrônica. A primeira, como estabelecido por meus antecessores, consiste em experiências com mídia eletrônica e digital anteriores ao advento da rede mundial de computadores. A segunda geração começa com a Web em 1995 e continua até o presente, consistindo em trabalhos inovadores criados com interfaces e formas personalizadas, publicados, principalmente, na rede. A terceira geração, a partir de 2005 até o presente, utiliza plataformas estabelecidas com bases de usuários massivas, como redes de mídia social, aplicativos, dispositivos móveis com telas sensíveis ao toque, API e web services. Essa terceira geração coexiste com a anterior e é responsável por uma escala numerosa de trabalho nativo digital, produzido por e para o público atual, para quem a mídia digital se naturalizou. Cada geração baseia-se em tecnologias, acesso e públicos anteriores e contemporâneos para desenvolver obras e poéticas características de seu momento geracional(Flores, 2021, p. 358).


2 Citado por Cláudio Daniel em RETRANCA | Poesia, despoesia, pós poemas: Augusto de Campos: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/RETRANCA-Poesia-despoesia-pos-poemas-Augusto-de- Campos.


3 Grou Cultura e Arte, ano 1, jul/ago/set 2023.



5 6 Observatório da Literatura Digital Brasileira.


7 Versão transcriada a partir de um poema do poeta e compositor italiano Giacinto Scelsi (1905- 1988). Esta versão se chama “pó de tudo” (1993), publicado em Despoesia (1994).



Referências


CAMPOS, Augusto de. O rei menos o reino. São Paulo: Edição do Autor, 1951.


CAMPOS, Augusto de. Poetamenos. In: NOIGANDRES 2. São Paulo: Edição dos Autores,      1955.


2. ed. São Paulo: Edições Invenção, 1973.


CAMPOS, Augusto de. Linguaviagem (cubepoem). São Paulo: Edição do Autor, 1970. CAMPOS, Augusto de. Equivocábulos. São Paulo: Edições Invenção, 1970.


CAMPOS, Augusto de. Colidouescapo. São Paulo: Edições Invenção, 1971.


CAMPOS, Augusto de. Poemóbiles (1968–1974): poemas-objetos. Colaboração de Julio Plaza.           São                       Paulo:         Edição            dos                  autores,      1974.

2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.


CAMPOS, Augusto de. Caixa preta: poemas e objetos-poemas. Colaboração de Julio Plaza. São Paulo: Edição dos autores, 1975.


CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia 1949–1979. São Paulo: Duas Cidades, 1979.

3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.


CAMPOS, Augusto de. Expoemas (1980–1985). Serigrafias de Omar Guedes. São Paulo: Entretempo, 1985.


CAMPOS, Augusto de. Não. Poema-xerox. São Paulo: Edição do Autor, 1990.


CAMPOS, Augusto de. Despoesia (1979–1993). São Paulo: Perspectiva, 1994.

 
 
 

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2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

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