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BEM-VINDOS AO FINNEGANS WAKE

Por Dirce Waltrick do Amarante


E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão.*

Clarice Lispector



O escritor irlandês James Joyce (1882-1941) havia acabado de escrever Ulisses (1922), e se inquietava com a censura imposta à obra e com os problemas de vista, quando começou a escrever seu último romance Finnegans Wake (1939), conforme se lê em uma carta enviada de Paris, em 11 de março de 1923, para Harriet Shaw Weaver, sua editora e mecenas:


Cara senhorita Weaver: fico feliz em saber que o recente acontecimento na sua família é dos mais auspiciosos. Obrigado por enviar o livro para o meu irmão mas por que esses exemplares não estão numerados? É normal? Deploro saber que outros 500 exemplares foram apreendidos. Imagino que isso significa a perda e a ruína de metade de toda a edição.[1] Seria lhe pedir muito que me enviasse por carta registrada um exemplar de La Tribuna com o artigo do sr. Cecchi,[2] pois estou cético quanto à chegada de outro exemplar. Vou mandá-lo de volta. A senhorita Beach me conta que o sr. Powys Mathers lhe disse que saiu um segundo ataque a Ulisses no The Sporting Times dizendo que a segunda [edição] podia ser comprada por 10 xelins. Muitos leitores daquele admirável jornal lhe enviaram ordens de pagamento. Continuo o tratamento com dionina com o dr. Borsch. Estou certo de que você está me repreendendo pela minha covardia e procrastinação. Eu admito no começo mas agora é por sugestão do dr. Borsch que prossigo e embora ele não tenha aumentado a dose minha vista está melhorando lentamente. Tive uma longa conversa com ele uma tarde dessas. Ele disse que se eu tivesse concordado em ser operado em maio[3] com toda a probabilidade eu teria perdido a visão do meu olho completamente. Ele disse que eu não tive nenhum glaucoma agudo (para o qual uma cirurgia é necessária dentro de vinte e quatro horas) e o provou dizendo que nunca tive nenhuma tensão digna de menção desde que passei a me consultar com ele. [...]. Ontem eu escrevi duas páginas – as primeiras que escrevi desde o Sim final de Ulisses. Tendo encontrado com certa dificuldade uma caneta eu as copiei com uma caligrafia grande numa folha dupla de papel almaço para que eu pudesse lê-las. Il lupo perde il pelo ma non il vizio, dizem os italianos. O lobo pode perder sua pele mas não seu vício ou o leopardo não pode mudar suas pintas.[4]


As duas páginas a que se refere Joyce foram inseridas, em um formato ampliado, no final do terceiro capítulo do livro II de Finnegans Wake, mais especificamente na página 380.


Durante os 17 anos que levou para escrevê-lo, de 1922 a 1939, Joyce se referia a esse trabalho como Work in Progress (Obra em andamento). O título definitivo, Finnegans Wake, só foi conhecido depois de seu ponto final. Cabe recordar, contudo, que em junho de 1938 Joyce desafiou alguns poucos amigos, entre os quais Samuel Beckett, Léon Paul-Fargue e Eugène e Maria Jolas, a adivinhar o nome de sua nova obra. Maria Jolas teria se aproximado ao afirmar que o romance se chamaria Fairy Wake, mas Joyce disse que faltava alguma coisa. Em 2 de agosto, depois de o casal refletir, Eugène Jolas lançou o título Finnegan’s Wake, com apóstrofo. Joyce pediu que guardasse segredo até que terminasse o romance.


Com o apóstrofo, Finnegan’s Wake é o título de uma conhecida balada do século XIX, de origem incerta; acredita-se que seja américo-irlandesa. A balada conta a história de um servente de pedreiro, Tim Finnegan, que cai da escada, quebra a cabeça e morre. Mas no seu velório, tipicamente irlandês, em que os convidados comem e bebem, inicia-se uma briga e, no tumulto, gotas de uísque caem no morto, que retorna à vida.


Segundo Joyce, o título da balada revelaria muito de seu novo livro, o qual, todavia, foi intitulado Finnegans Wake, sem apóstrofo. Na balada se encontram alguns elementos centrais que serão desenvolvidos no livro: o enredo cíclico, a morte e a ressurreição do herói, a comicidade como tom geral e uma mescla de ingredientes lúdicos e obscenos, além da descrição de um funeral tipicamente irlandês.


O nome do protagonista da balada, Tim Finnegan, estaria associado ao nome do herói irlandês, o gigante nacionalista Finn MacCool, líder dos fenianos, os guerreiros irlandeses. Diz a lenda que Finn MacCool foi enterrado no Cabo de Howth, mas que seu corpo era tão grande, que sua cabeça ficava num lugar, sua barriga noutro e seus pés no Phoenix Park. O romance de Joyce, aliás, se passa em três lugares: em Chapelizod, um bairro de Dublin à margem do rio Liffey, no Phoenix Park e no Cabo de Howth.


Se Finnegans Wake começa narrando a morte e a ressurreição de Tim Finnegan, o herói da balada, logo depois, o livro se configura como o relato de um sonho, possivelmente de HCE (Here Comes Everybody), uma das reencarnações de Tim Finnegan e de Finn MacCool, como se lê na página 32 do romance, aqui em tradução de Afonso Teixeira Filho:


Vem à baila o grande facto de que, despois daquela data histórica, todos os hológrafos até então exumados iniciados por Arãofredo trouzeram a sigla H.C.E. e, por quanto ele era o bom macrupanta de sempre, bom Duque Unfredo para a faminta laboreira de Lucalizode e Chímbrio, a qual era certamente uma virada prazeirosa da populaça, que lhe deu como sizo daquelas missivas narrativas a alcunha de Hoje Comparecem Esses.


O fato é que Joyce concebeu seu livro como um sonho; e como em um sonho, há associações de ideias, sobreposições de fatos históricos e ficcionais, união de passado e presente. No universo onírico não existe precisão: as personagens e as narrativas entram em metamorfose, se confundem, se entrelaçam. Por isso mesmo, não se pode esperar clareza de Finnegans Wake: “É natural que as coisas não sejam tão claras durante a noite, não é mesmo?”, dizia Joyce.


A língua também se move nesse sonho que é, como dizia o autor, uma espécie de “história universal”, que extrapola em muito o enredo da balada que lhe deu origem e na qual todos narram e cada um conta os fatos à sua maneira. Em Finnegans Wake, a língua também não é uma só. Obviamente o inglês é a língua predominante do livro, pois é a língua-mãe do escritor (o primeiro sonhador), que falava, porém, outros idiomas, pois morou na Itália, Suíça e França, e teve contato com várias línguas além do francês, do italiano, do alemão, do irlandês e do latim, lembrando que o escritor, aos setes anos, foi estudar em um colégio de padres jesuítas. Mas quem sonhar com Joyce também vai encontrar ecos de sua própria língua, o que faz com que Finnegans Wake seja um livro que dá as boas-vindas aos estrangeiros, que acolhe o outro (Here Comes Everybody). Em Finnegans Wake, emergem aproximadamente 60 idiomas.


Joyce afirmava que ele não poderia escrever sobre a noite usando a língua e as palavras em suas ligações habituais. Mas há de se destacar que, no livro, as sentenças são escritas numa sequência normal, ou seja, a do inglês padrão, numa definição ampla (sujeito, verbo e objeto), ainda que os verbos nem sempre estejam conjugados de forma gramaticalmente correta.


Em Finnegans Wake, a invenção está na palavra e no protagonismo que o ouvido ganha (ao lado do olho, obviamente), conforme falarei à frente.


Para alcançar o experimentalismo linguístico que almejava, o escritor lançou mão de vários recursos linguísticos como trocadilhos e palavras-valise, as quais unem duas ou mais palavras numa só, algumas delas de diferentes idiomas.


Esses recursos, entre numerosos outros, reforçam o que Joyce queria dizer em Finnegans Wake: “cada parábola abarrega setuadas sumíticas leituras por tôdolo livro de Dublímane Fimórdio”, como se lê na página 20 em tradução de Teixeira.


São muitas as palavras-valise ao longo do livro, muitas compostas de duas ou mais palavras com sentidos opostos como, por exemplo, laughtears, uma junção da palavra laugh e tears, algo como lagrimassorisso, traduzido aqui por Fedra Rodríguez por “lagrimarrisos” [259].


Esses opostos e duplicidades enfatizam a ideia de que não há uma verdade, mas verdades a serem contadas. Portanto, nada é exatamente preciso, tudo e todos contêm contradições. Em tempos de extremismo, a força da narrativa joyciana ganha, parece-me, ainda mais relevância.


Outro recurso usado por James Joyce é o soundsense, vocábulo formados por uma associação de inúmeras letras, cujo significado talvez só possa ser devidamente decifrado numa leitura em voz alta. Um exemplo de soundsense é o barulho do trovão que aparece já na primeira página do romance e encapsula a palavra trovão em várias línguas, que na tradução ora apresentada ficou assim:


Itukóvitiohochjetlhinganwadichjeqavbotlhtaghjepitlhwadichqunchenmohterajechalñanderuetewaptokwazawr!


A propósito, o barulho do trovão representaria, entre outras coisas, a voz de Deus e a queda de Tim Finnegan, assim como a ebulição da linguagem padrão e o início de um novo período. Vemos aqui a influência do filósofo italiano Giambattista Vico, segundo o qual a linguagem falada teria começado com sons onomatopaicos.


No meio desse caos sonoro, Joyce não deixa seus leitores abandonados; um dos conselhos que ele nos dá é: “se em dúvida, leia em voz alta”. Muitas vezes, seu livro pede que o leitor ouça o que os olhos veem, pois, segundo o escritor, “ouvir lança uma diferente luz”. Diferente, mas não única.


Na página 593, lê-se, na minha tradução: “Cê sonda wahriados assuntos. Névoa do mar do leste pro Ossiano. Houve! Houve! Tass, Patt, Staff, Woff, Havv, Bluvv e Rutter. A nébula tá liventando”.


No texto de James Joyce, no lugar de “houve”, há um here. Assim, os olhos veem o advérbio de lugar “here” (aqui); já o ouvido capta também o verbo “hear” (ouvir). Visão e audição caminham lado a lado nesse e em outros excertos do livro. Em português se vê “houve”, mas se escuta também o verbo ouvir na terceira pessoa do presente do indicativo (ela/ele ouve) ou na primeira pessoa do imperativo (ouve tu).


Na página 409, em tradução de Aurora Bernardini, há um alerta para os olhos e ouvidos: “Ouça! Ouça! Não, ele não. Olhe! Olhe! Pois eu estou no coração da coisa”.


Como os leitores estão acostumados a ver quando leem, Joyce acaba enfatizando a audição em muitas passagens do Finnegans Wake. Somos aconselhados na página 201, na minha tradução, que devemos ouvir o que o livro tem a dizer: “(Agora ouve. Tá ouvindo? Sim, sim! É claro quitou! Sê toda ouvidos. Deixossom trar)”.


Mas, afinal, o que o livro tem a dizer? O que ele narra ou qual é a sua história?


Para um amigo, Joyce resumiu assim a trama básica de seu romance: é a história de uma pequena família que vive em Chapelizod. Mas, para outro amigo, o autor de Ulisses explicou melhor:


eu poderia facilmente ter escrito essa história na maneira tradicional. Todo romancista sabe a receita. Não é muito difícil seguir um esquema simples, cronológico, que os críticos entenderão. Mas eu, afinal, tento contar a história dessa família de Chapelizod de uma maneira nova. O tempo e o rio e a montanha são os verdadeiros heróis do meu livro. Mas os elementos são exatamente o que cada romancista poderia usar: homem e mulher, nascimento, infância, noites, sono, casamento, oração, morte. Não há nada paradoxal nisso tudo. Apenas tento construir muitos planos de narrativa com um único objetivo estético.[5]


Joyce afirmava ainda que seu romance narrava o sonho do gigante Finn MacCool, que, deitado moribundo à margem do rio Liffey, observa a história da Irlanda e do mundo, seu passado e futuro.


O fato é que não se pode reduzir Finnegans Wake a uma trama (Joyce falava em tramas), nem falar do seu enredo sem compreender a lógica e as imprecisões do sonho.


Finnegans Wake não possui um enredo linear. Tampouco se pode falar em enredo no singular; o que existe no livro são, como disse Margot Norris, “múltiplos fios narrativos: todos dispersos no meio de pequenas cenas, histórias, fábulas, diálogos, anedotas, canções, rumores e brincadeiras, que muitas vezes são versões umas das outras, e que são todas versões dos conflitos de uma mesma família”. [6] É essa família que amarra esses fios narrativos.


A família central é composta de cinco membros: Humphrey Chimpden Earwicker (HCE), sua mulher Anna Livia Plurabelle e seus filhos Shem, Shaun e Issy. Todos eles em constante metamorfose, ora têm um nome, ora outro, por vezes são heróis como Finn MacCool, outras vezes, contudo, são montanhas, rios, nuvens, como HCE, Anna Livia e Issy respectivamente.


O patriarca é acusado de um crime de cunho sexual, e Anna Livia tenta defendê-lo. A relação dos pais vem à tona e os filhos se envolvem na trama (drama) dos pais. Eles são quase seus duplos. Porém, essa trama (drama) geral, entrecortada por muitas outras e a mistura de línguas, pode levar o leitor a tirar ora uma conclusão ora outra, ou não chegar à conclusão nenhuma; afinal, como se lê na página 15, em tradução de Teixeira: “Os babeleiros e suas telangas motas foram (confusi-os!) eles vieram e se foram”.


Finnegans Wake é um livro que exige uma outra forma de leitura, que não aquela a que estamos acostumados. Ele pede um leitor performático, que cante suas linhas, que não se preocupe em “entender” o todo, pois o livro é feito de fragmentos, é uma colcha de retalhos, cada retalho tem característica e história próprias, cada palavra é um cosmo ou “caosmos”, como se lê na página 118, em tradução de Daiane Oliveira.


Então, escutemos Joyce de olhos abertos!


***


Uma tradução coletiva


Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí.[7]

Lima Barreto

Como nenhum de vocês sabe javanês darei toda a minha livre tradução da velha parábola do fabulista.[8]

James Joyce


Sylvia Beach, responsável pela publicação de Ulisses, dizia que Joyce comparava a história à brincadeira do telefone sem fio, na qual alguém sussurra alguma coisa no ouvido da pessoa ao lado, que repete não muito perfeitamente para a próxima pessoa, e assim por diante; quando a última pessoa escuta, a frase surge completamente transformada.


Parece-me que Joyce levou essa brincadeira para a sua ficção. Em Finnegans Wake, ele diz, na página 5, em tradução de Teixeira, que “Deve perfazer agora mil e uma estórias conhecidas e parecidas”.


Além disso, destaca-se que Finnegans Wake é uma grande fofoca: tudo gira em torno de um possível crime cometido por HCE. Ninguém tem certeza de nada, e cada um que conta a história conta de uma forma diferente. Afinal, lê-se na página 440, em tradução de Aurora Bernardini: “Aplique seus cinco saberes às quatrúltimas verdades”.


Instigada pelo próprio Joyce e pela fofoca que emerge em Finnegans Wake, foi que decidi empreender uma tradução coletiva. Cada tradutor ficou responsável por um ou mais capítulos do livro. As traduções foram feitas quase ao mesmo tempo e, idealmente, cada tradutor contaria a sua versão da história para os outros. Como uma boa fofoca, de conto em conto aumenta-se um ponto, ou diminui-se.


Mas os olhos não podiam ficar de fora; Sérgio Medeiros traduziu em ilustrações cada uma das quatro partes que compõem o livro.


Portanto, há muitas vozes nesta tradução, muitos pontos de vista e diferentes interpretações da história joyciana. Se uma voz masculina “começa” narrando a história (que não tem começo, meio nem fim, pois é circular), é uma voz feminina que “termina” o livro.


Os tradutores são todos estudiosos de Joyce ou das vanguardas de um modo geral. Cada um traz uma bagagem cultural que se revela em suas escolhas tradutórias. Há capítulos mais solenes, outros mais descontraídos; alguns mais enfaticamente eróticos, outros menos; e há também capítulos que destacam a história na Irlanda de Joyce, da época de Joyce, e outros que mesclam a história da Irlanda com a do Brasil contemporâneo.


Essa multiplicidade de vozes revela também as diferentes leituras que se pode fazer do livro, que na verdade é sisudo e cômico, erótico e pornográfico, que conta a história da Irlanda, que simboliza os muitos países colonizados.


Espera-se para muito em breve as traduções na íntegra do romance assinadas por Afonso Teixeira Filho, Caetano Galindo, Luis Henrique Garcia Ferreira e Vinícius Alves. Serão mais quatro traduções novas que se somarão à tradução na íntegra de Donaldo Schüler e a esta concebida pelo “Coletivo Finnegans”, formado por Afonso Teixeira Filho, Andréa Buch Bohrer, André Cechinel, Aurora Bernardini, Daiane Oliveira, Dirce Waltrick do Amarante, Fedra Rodríguez, Luis Henrique Garcia Ferreira, Sérgio Medeiros, Tarso do Amaral, Vinícius Alves e Vitor Alevato do Amaral.


Há que se recordar ainda que fragmentos da obra já foram traduzidos por estudiosos e amantes do escritor irlandês; os mais famosos são sem dúvida os de Haroldo e Augusto de Campos, que, no livro Panaroma de Finnegans Wake, se dedicaram a verter alguns “momentos mágicos” do romance. Eu mesma traduzi fragmentos do livro que “unidos” contam um dos muitos fios narrativos da obra, numa proposta diferente da dos irmãos Campos. Esse “experimento” pode ser lido em Finnegans Wake (por um fio). Além disso, traduzi na íntegra o capítulo VIII do romance. A tradução desse capítulo integra o volume Para ler Finnegans Wake de James Joyce. Excertos do livro também foram traduzidos por Afonso Teixeira Filho, Caetano Galindo, Paulo Leminski, Arthur Nestrovski, Renato Pompeu, entre outros, e publicados em jornais e revistas.


***


O título


Admitida a tese da impossibilidade em princípio da tradução de textos criativos, parece-nos que esta engendra o corolário da possibilidade, também em princípio, da recriação desses textos.[9]


Haroldo de Campos


Será que podemos comparar o leitor de um texto traduzido ao narrador do conto “A dama no espelho”, de Virginia Woolf, o qual, “das profundezas do sofá na sala de estar [...], podia ver refletidos no espelho italiano não apenas a mesa com tampo de mármore do lado oposto, mas também [...] uma longa trilha de grama que seguia por entre carreiras de flores altas até que, fazendo uma curva, a borda dourada a amputava”?[10] Viria o texto traduzido emoldurado em uma borda dourada, tal como o espelho de Woolf, de modo que algo dele sempre escape, ficando o leitor sem saber o que vem depois da curva? Refiro-me aqui particularmente à tradução de textos criativos, pois me pergunto se nesses casos poderia o texto traduzido dar conta de todas as imagens e sonoridades do texto de partida, ou se nele uma borda dourada impede o leitor de ver depois da curva.


Em Finnegans Wake o problema já começa com o título, ou seja, como traduzi-lo sem emoldurá-lo numa borda dourada?


Finnegan’s Wake com apóstrofo é o nome de uma balada irlandesa tradicional, que, como se viu acima, conta a história de um pedreiro, Tim Finnegan, que cai da escada, morre e ressuscita em seu velório com uma gota de uísque. A tradução do título da balada poderia ser algo como O despertar de Finnegan ou A vigília deFinnegan. O uso de Wake como substantivo, levando-se em conta o enredo da balada, tem nítida essa dupla conotação: vigília (velório) e despertar.


Finnegans Wake, sem apóstrofo, dá novo sentido ao título da balada. Primeiramente cabe destacar que Finnegan é um sobrenome, e também um prenome, de origem celta, Fionnagán. Em gaélico, finn/fionn significa “louro, branco”; án é um sufixo diminutivo. Obviamente num livro como Finnegans Wake, que mistura muitos idiomas, e condensa duas ou mais palavras em uma, podemos pensar em Finnegan também como uma palavra composta: a junção dos vocábulos fine, do latim “fim”, e again, do inglês “novamente”.


Como sobrenome, Finnegans, com “s”, englobaria todos os membros dessa família. Consequentemente, wake seria um verbo, que poderia ser traduzido por despertar, velar ou vigiar. Uma tradução literal do título para o português não daria conta das diferentes acepções da palavra wake, cuja duplicidade é o mote também da trama joyciana: Os Finnegans despertam ou Os Finnegans velam. Qual palavra em português equivaleria ao wake?


Vale lembrar que wake poderia ser também um sobrenome. Finnegans Wake seria, então, algo como Os Joões da Silva.


Finnicius Revém foi como Haroldo e Augusto de Campos traduziram o título de Joyce, o qual foi adotado por Donaldo Schüler. Nele temos fim, do latim, e revém, que lembraria o verbo reveiller (acordar) e rêver (sonhar) em francês, além do verbo vir, em português. Mas o que lembraria o nome da balada irlandesa e onde estariam o louro/branco da palavra finn/fionn em gaélico?


Afonso Teixeira Filho, em sua tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo, traduziu o título de Joyce por Renatos Avelar. Em Avelar, um sobrenome como Wake, está inserido o verbo “velar”, mas não o despertar, que estaria de certa forma implícito em Renatos. É uma solução criativa, assim como a dos irmãos Campos, mas ela também não dá conta de todas as reverberações do título da obra joyciana: deixa fora do campo de visão do leitor, por exemplo, o título da balada irlandesa e os significados da palavra finn/fionn em gaélico.


A propósito, Renatos aparece nesta tradução já na página 04, na qual toma lugar de Bygmester Finnegan: “Renatos, grão mestre obreiro, tartamano de Alvanel, que mexia a massa na areia, morava na mais ampla via soidisante numa lústica longedícula aos messianjos semota suso juízos josuéticos numerar-nos ou Helvítico”


Mais adiante, nesta tradução conjunta, Renatos retorna muitas vezes como Finnegan.

Como já se falou, cada tradutor ficou responsável pela tradução de um ou mais capítulos do livro, mas quem traduziria o título? Eu havia pensado em Finnicius Vaivem e Finnegans Rivolta, título que acabou sendo adotado.


Finnegans preserva uma relação direta com o título de Joyce e com a balada. No romance de Joyce, Finnegans, no plural, significa que são muitos os Finnegans que morrem e despertam. Aliás, no romance, Finnegan está sempre em metamorfose, de modo que nunca é um só, mas vários. Por essa razão, preferi manter Finnegans no plural, como o fez Teixeira e os irmãos Campos ao optarem por Renatos e Finnicius respectivamente.


Sendo Finnegans um prenome, Rivolta poderia ser um sobrenome.


No entanto, se Finnegans se refere a um grupo de pessoas (membros de uma mesma família), rivolta seria um verbo. Rivolta vem da língua italiana rivoltare, que significa capotar, voltar novamente. Se o verbo em italiano concordasse com a terceira pessoa do plural, deveria ser grafado como rivoltano (Finnegans rivoltano); se fosse aportuguesado, teríamos “rivoltam” (Finnegans rivoltam).


Mas o verbo teria que concordar com a terceira pessoa do plural? Talvez não, pois a conjugação verbal nem sempre é respeitada por Joyce em Finnegans Wake. Vejamos como exemplo he war [258], if you two goes [445], I wants to do [409], signs is [275].


Importante na palavra rivolta é que ela encerra uma série de significados. O substantivo, em italiano, significa motim, revolta, insurgência. A escolha desse vocábulo tem a ver com o processo de tradução, a ideia de um coletivo, de um grupo de tradutores que se insurgem ao entendimento de que Finnegans Wake seria intraduzível, ou de que uma tradução conjunta poderia não ter êxito.


Rivoltapode ser lida também como uma palavra-valise, que contém a palavra “ri” e “volta”. Com esta nova tradução, o livro de Joyce retorna para o português e retorna de forma humorada, trazendo à tona a comicidade do livro e a alegria contida no sobrenome do escritor joy (alegria, prazer, em inglês).


Além disso, “rivolta” lida em voz alta soa como revolta. Quanto ao prefixo “re”, que estaria subentendido em “rivolta”, significaria uma repetição (Finnegans Wake volta novamente em português); um reforço (o livro volta para reforçar a sua leitura); e um retrocesso (Finnegans Wake volta, nesta tradução, à estaca zero para ser novamente lido e interpretado).


Neste título, ficaram de fora, entre outras, as conotações do título joyciano, como o verbo velar ou o substantivo vigília/velório. Não há também menção aos significados que a palavra Finnegan contém em gaélico.


Outras sugestões surgiram ao longo do processo de tradução coletiva.


Em uma discussão inicial sobre a tradução do título, Sérgio Medeiros lembrou que, no terceiro capítulo do livro, “diz Joyce (ou alguém em nome dele), ‘(não vou contar estória nenhuma). Sorria!’. E a gente ri de volta, daí, Rivolta”.


Vitor Alevato do Amaral também havia pensado na palavra “rivolta”, pois, segundo ele, “voltamos e revoltamos, que é tempo de rivoltare, de rir e de voltar, de rir de volta, ir de volta etc.”. Contudo Amaral preferiria Finnegan rivolta, “sem plural e com ‘r’ minúsculo”. De modo que Finnegan seria o nome ou sobrenome do protagonista do livro e “rivolta” um verbo, do qual derivariam todas as reverberações acima.


Afonso Teixeira Filho fez diversas sugestões: Finacius Revim, Caio Fincinius, Finatus Ameio, Finório Fiumin (à moda de João Guimarães Rosa). Renatos Avelar, ele guardará para a sua tradução integral da obra. Cada um desses títulos incorpora jogos linguísticos, como palavras-valise, mistura de línguas, e está sempre em consonância com o mote da obra joyciana.


Tarso do Amaral teria optado por Fininguém vivelório (o viver e o velório de ninguém ou de todos) e Vinícius Alves por Finnegans Finna. Para André Cechinel, “uma outra possibilidade seria não o traduzir, uma vez que esse título está inevitavelmente inscrito como monumento na própria obra”.


Essas diferentes possibilidades tradutórias só reforçam a riqueza do título adotado por James Joyce. Há, é certo, em todas elas, perdas e ganhos, razão pela qual volto a Virginia Woolf: o que vem depois da curva, aquilo que a borda dourada da tradução impede de ver, será sempre um enigma no texto traduzido. Enigma que não significa impossibilidade, ao contrário, que instigaria, a meu ver, outros tradutores a buscar a paisagem que ficou fora do espelho.


Obviamente, fica sempre aberta a possibilidade de uma tradução que dê conta de todos os recursos utilizados pelo escritor, ainda que este parece não ser o caso de Finnegans Wake.


***


Ao final deste livro, cada tradutor falará de seu processo de tradução e de características dos capítulos traduzidos por ele.


No mais, “mundodiversimenso no Revelamento de Finnegan”!


***


*LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 16

[1] Trata-se de exemplares de Ulisses da edição de Londres-Paris do outono de 1922 (edição da Egoist, impressa na França). Ao todo 499 cópias da edição foram apreendidas e confiscadas pelas autoridades da alfândega de Folkestone, Inglaterra. “Metade da edição” é um engano, uma vez que esta era de 2.100 exemplares, e não de 1.000 apenas. A edição que Sylvia Beach propôs a Joyce em 1921 era, de fato, de 1. 000 exemplares, e se esgotou no verão de 1922. A edição de Weaver, porém, previa inicialmente 2.000 exemplares, e saiu com 2.100 exemplares, em 1922. Enviados pelo correio aos Estados Unidos, de 400 a 500 exemplares foram queimados pelas autoridades daquele país; em janeiro de 1923, uma edição de 500 exemplares foi feita para substituí-los. Pouco depois, 499 exemplares dessa edição foram apanhados pelas autoridades da alfândega inglesa, justamente em Folkestone. Um exemplar, porém, foi enviado a Londres com sucesso pelo correio. Depois disso, como declarou Weaver, “o livro foi banido da Inglaterra”. [2] O crítico e escritor italiano Emilio Cecchi escreveu um breve artigo sobre Ulisses no jornal de Roma La Tribuna, em 2 de março de 1923. [3] Em maio de 1922, Joyce teve um problema severo na vista. [4] JOYCE, James. Cartas a Nora. Organização e tradução: Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros. São Paulo: Iluminuras, 2018, p. 80-81. [5] ELLMANN, Richard. James Joyce. Tradução: Lya Luft. São Paulo: O Globo, 1989, p. 684. [6] NORRIS, Margot. Finnegans Wake. In: ATTRIDGE, Derek (ed.). The Cambridge Companion to James Joyce. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 164. [7] BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos. Seleção de textos: Maura Sardinha. Ilustrações: Maurício Veneza. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2012, p. 11. [8] JOYCE, James. Finnegans Rivolta. Tradução: Luis Henrique Garcia Ferreira, p. 152 “As none of you knows javanese I will give all my easyfree trans- lation of the old fabulist's parable”. [9] TÁPIA, Marcelo; NÓBREGA, Thelma Médici (org). Haroldo de Campos: transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 4. [10] WOOLF, Virginia. A arte da brevidade: contos. Seleção e tradução: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 81.

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