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coisas que aprendi com Augusto de Campos

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

 

Por Arnaldo Antunes


 

coisas que aprendi com Augusto de Campos:

 

— dizer só o essencial.

— a clareza, a síntese, a precisa “aplicação da palavra à coisa” (Pound).

— forma é conteúdo e vice-versa, por isso interessa.

— a ética dentro da estética.

— o vento do invento: para arejar.

— cada poema inaugura um novo mecanismo, sem método ou manual de instruções.

— criar uma regra para quebrá-la inserindo a exceção.

— a linguagem verbal pode ser usada como um jogo de tabuleiro, mas também como uma massa de modelar, que permite partir ou amalgamar os vocábulos, retorcer a sintaxe, moldar a forma do poema no espaço.

— palavras: coisas. Que sugerem outras. Coisas.

— não só sentidos, mas também sugestões de sentidos (gomos dentro de uma fruta, sementes dentro dos gomos, potencial de renascer dentro das sementes, e assim por diante...) eclodem nas fraturas dos vocábulos, nas sobreposições gráficas, nas redes aliterativas.

— conciliar o rigor à naturalidade do discurso, não forçar a barra, não complicar desnecessariamente.

— abolir o que empola, o que embaça, o que não vai direto ao ponto.

— um poema se faz tanto ou mais por subtração do que por adição.

— as palavras não precisam estar numa linha sequencial, uma depois da outra, mas podem estar soltas, em múltiplas ordens de leitura. Assim também um livro não precisa ter uma página depois da outra, mas pode tê-las livres, intercambiáveis, como na Caixa Preta.

— os sentidos que os signos irradiam dependem de suas posições no espaço. E dos tipos, cores, tamanhos com que são grafados.

— a unidade mínima de um poema não é a palavra, mas a letra.

— escapar do bidimensional, como nos Poemóbiles, hologramas e poemas-objetos.

— poemas podem ser lidos como partituras (poetamenos).

— beber de muitas fontes sem turvar a água de nenhuma delas.

— não se conformar com as formas estabelecidas, nem com as fórmulas transgressoras.

— os recursos inéditos que um novo instrumento oferece nos desafiam a buscar respostas de linguagem para eles.

— não perder tempo com filiais de diluidores; ir direto às matrizes da informação original.

— a ciência e outras linguagens podem ser mais úteis à poesia do que a literatura.

— o que às vezes parece muito simples e direto pode guardar outras camadas de apreensão, assim como as anamorfoses nas pinturas renascentistas, ou os anagramas estudados por Saussure.

— sem pensar não se sente, na poesia como em nossa própria fisiologia (“coraçãocabeça”).

— o indizível, o impossível, o inalcançável, não são limites mas alvos.

— ser generoso sem ser concessivo.

— desabituar a mente, estranhar o comum, desestagnar o ambiente, desestandartizar a sensibilidade.

— dá pra ser jovem aos 95 anos de idade, assim como “o antigo que foi novo é tão novo como o mais novo novo” (Verso, Reverso, Contraverso).


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* Arnaldo Antunes é músico, poeta e artista visual, nascido em São Paulo, em 1960. Integrou os grupos Titãs e Tribalistas. Em carreira solo desde 1992, tem vários discos, entre os quais Nome, O silêncio e Saiba, e livros publicados, entre os quais As coisas, 2 ou + corpos no mesmo espaço e Algo antigo. Participou de mostras de poesia visual e realizou exposições individuais, no Brasil e no exterior.

 
 
 

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