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DESFORRA FUNDAMENTAL

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*


Excelente oportunidade para enfrentar o sedentarismo no campo das ideias e das emoções: Desforra [poesia desunida 1988-2023], livro do polímata desdobrável Anelito de Oliveira. O poeta mineiro correlaciona estruturas e singularidades, reivindicando tanto a universalidade cara aos conceitos, quanto a singularidade válida para a experiência. Abalando os regimes únicos de referência, o autor considera as múltiplas formas de memória, experiência, afeto, percepto, discurso, razão e imaginação. Trazendo em meu socorro as ideias de Silviano Santiago, quando diz que “falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra” (Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre a dependência cultural, 1978) e que “falar é a própria práxis”, como define Eni Orlandi (Política linguística na América Latina, 1988), e ainda que “dizer é fazer”, conforme postula John Langshaw Austin (1911-1960), a poesia de Anelito de Oliveira reúne tais potências com êxito. E, ainda por cima, tem “a força de fazer acontecer”, conforme postula certa tradição africana (Conceição Evaristo, em Poemas malungos: Cânticos irmãos, 2011).


Além disso, Desforra vai de encontro à falácia descritiva e reivindica como fonte geral da existência coisas “sem sentido”. Anelito desconfia das condições para “performativos felizes” ou “atos convencionais”. Conhece o carteado da linguagem onde perspectivas de processo e evento, realização e possibilidade, desconstrução e construção, criatividade e conservação, vivem embaralhadas. É mister, então, percorrer os caminhos da diversidade, e tecer redes que deem conta de conectar os pontos comuns e diagramar os pontos divergentes das epistemologias criadas e recriadas pelo mundo. Anelito de Oliveira, em Desforra, nos possibilita pensar a poesia como um importante processo de criação, a partir de uma visão particular sobre a escrita do verso. O poeta mostra que tanto a inspiração quanto o domínio da técnica são oriundos do trabalho humano, reforçando a ideia de que a poesia é o resultado de um longo processo de maturação, incluindo um intenso e árduo labor. Não é um simples culto da forma. É bom que se diga. Anelito se relaciona com as palavras para além dos corriqueiros propósitos diários, imprimindo uma poética atinente ao processo de ressignificação com a linguagem.


Desforra problematiza os binarismos que normalmente marcam o processo subjetivo que lida com o sério e o frívolo, o arcaico e o moderno, o extravasamento e a contenção. Artista da linguagem, Anelito desafia a dança macabra das coisas sólidas, sem cair na onda nefelibata. O desenvolvimento artístico com a palavra distancia-se do realismo convencional para que se possa criar um novo ambiente, no qual a imaginação é incentivada como fio condutor. Em Desforra, a transfiguração do real também entra em cena como modo criativo de compreensão e interpretação. Constituindo o tecido com o qual organizamos a produção de sentidos para nosso mundo, os signos e as modalidades artísticas, filosóficas e científicas, em Desforra, deflagram o mesmo gesto, a paixão pelo caos e o gesto que o corta, traçando um plano de organização e um campo de consistência lapidares.


A obra de Anelito supera o surrado original, sendo autêntica e complexa. Do ponto de vista de sua natureza, é autossustentável e perdura para além das circunstâncias coletivo-políticas que a cercam. O poder que freia está por fora. Ler e escrever é um ato de desforra: “[...] Hoje como ontem./E não, no more, nos/Venha dizer que/Você é o Campo de/Concentração, que/Seu nome é Auschwitz,/Que seu nome são/Trezentos anos de/Escravidão no Brasil,/Que seu nome são/Milhões de mortos/Na África na feliz/Década de noventa./Nada. Você quer/Apenas aparecer./Dramatizando./Nada de drama. Você/Também está morto./Você também está/Enredado na rede/Da desistoricização./Você também está/Relegado à vida/Virtual, exangue,/Cínica. Estamos/Todos mortos./Você/Também está morto./Não temos nada/A dizer. Esta é a/Regra. Se alguém/Disser, não será/Ouvido, tampouco/Acreditado. Toda/Exceção é um ponto/Infeliz da regra./Não se declare. A/Infelicidade é o selo/De decadência. Os/Decadentes são/Rancorosos. Sorria./Vá às compras./Jesus te ama, baby./O capital mais ainda” (Anelito de Oliveira, em Pós-história: ou solilóquio sobre a situação da poesia brasileira na primavera de 2011).


Sobre o livro do poeta mineiro, João Almino, romancista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi categórico ao afirmar: “Na diversidade de sua produção, existem, contudo, fios condutores. Um deles é a desforra, que dá o título a este volume: escrever como uma reparação, um acerto de contas, para afrontar, para enfrentar o inimigo, para protestar e denunciar”. Para compreender o percurso de Desforra, o propósito da “justa raiva”, conforme defendeu Paulo Freire (1921-1997), encontra-se amalgamado ao espírito poético de Anelito de Oliveira. Senti-la é um direito daqueles que se indignam perante a desumanização. Estes se indignam com “a elite do atraso” (Jessé Souza, 2019) na linha de comando, com o flagrante aumento da pobreza e da desigualdade social e com a destruição sistemática de nossa fauna e flora. O patriarcalismo, o colonialismo e o capitalismo lideram essa “marcha da insensatez” desde outrora. Anelito amplia o debate crítico sobre as flores do mal, trazendo à tona o que há de mais grotesco e cruel produzido pelo universo da escravidão: “a patologia social do homem branco” (Guerreiro Ramos, 1955), “o racismo estrutural” (Silvio Almeida, 2019) e “o fascismo da cor” (Muniz Sodré, 2023). Assim, o pior dos algozes é destronado com Desforra.


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* Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, professor autônomo e pesquisador independente. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB).


** Artigo realizado ao som do álbum Apartheid Is Nazism (1985), realizado pelo músico marfinense Alpha Blondy.

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