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Entre a genealogia pessoal e a cartografia do testemunho

A força poética de Rogério Bernardes em O que não sangrou pelo caminho


Por Luciana Barreto


Na contemporaneidade, o desalento vem-se impondo como páthos, evidenciando o sujeito enredado em uma paralisante posição solipsista, cujo clamor se sabe estéril, como nos explica Joel Birman. Face à ameaça do abismo, derivada da necropolítica excruciante e do curso vertiginoso do tempo, a assunção do desamparo como experiência inevitável, por sua vez, demarca a esperada alteridade, que encampa a própria dor, igualmente legitimando o apelo do Outro. E é justamente esse humanizador endereçamento alteritário que nos atravessa em O que não sangrou no caminho (Penalux, 2021), quinto livro de Rogério Bernardes, gesto poético-político dos mais contundentes.

Ao assumir que escrever é inscrever-se, tomando a angústia como sintoma mater –impulsionador tanto do dizer de si quanto do mundo –, é possível antever em sua obra dois eixos nodais: i) a genealogia pessoal do poeta, na qual, sob halo nostálgico, a interioridade é nevralgicamente expandida segundo as apreensões da mãe de “colo guerreiro” e “cabelos grisalhos de rainha”, do pai e “a penúltima lição de matemática” com feijões pretos, da avó e suas pétalas brancas, todo dia ressuscitada para “a água abençoada”, da infância e o menino de olhos fossilizados, da casa ainda evolando alfazemas e fantasmas; ii) e a cartografia do testemunho, a partir da qual Bernardes, na posição do derruído titã Atlas, admite o seu destino: “sujo, maltratado e pesado/ enquanto o segurava/ chorei [...] // desde então/ trago o mundo/ comigo”. Em sua remissão mitológica, consubstancia, desse modo, uma consciência maior, de ordem coletiva, ressoando, em cada leitor, tanto a nossa posição de queda e desamparo – “medo”, “solidão”, “vazio” traspassam seus poemas – quanto “o absurdo do ódio-grito”, a suscitar a contracorrente, o perigo, a fogueira.


Ao alternar a melancólica nostalgia (do grego nóstos = regresso, volta pra casa; álgos = dor) de um dorido tempo outro – aquele da “idade de passarinho” – às inflamadas indignação e rebeldia, pode tudo o poeta: “em pensamento sou capaz de tudo”// [...] // em pensamento degolo meus inimigos”. No transcurso de sua pira em chamas (“sou filho mais que milésimo/ e genitor último de um vazio/ que chora querendo meu leite/ até a morte/ meu gene é bruxa/ e eu já fui o caldeirão/ agora sou a fogueira”), O que não sangrou no caminho, verso a verso, encena e desdobra um ágon trágico, isto é, o embate declarado sob os matizes do que agora eclode como vingança e reparação: seja o insulto historicamente desferido (“viado desgraçado!”) seja o horror encetado pelo Estado: oitenta tiros e “a onomatopeia cheia de ódios/ e a carne/ mais barata/ do mercado/ caída no chão”.


Uma pequena armadilha passível de ser desarmada: mesmo confessando declinar de “palavras bonitas” e se expondo como “anticanônico”, o escritor deixa emergir prodigalidade sonoro-imagético-semântica, o que o credencia inegavelmente como poeta maduro e cioso de seu projeto literário.


Colhendo sustos, sustentando tensões, tangendo urgências, revolvendo espantos, Rogério Bernardes expressa e devassa o próprio mal-estar na civilização, como nos adiantou Freud há quase cem anos. Por meio de suas “mãos sujas” e “pés tortos”, em seu testemunho poético-político persiste a pungente advertência daquele que nos sangra pelo caminho: “nenhum silêncio é para sempre:/ também são bonitas e (se) vingam/ as flores de lótus nascidas na lama/ as filhas bastardas da escória”.

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Luciana Barreto é poeta e professora.

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