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Mais que flores; as sementes...

Por Marli Fróes


O Livro da poeta Jucilene Vieira sempre existiu em estado de movências, circulando nas escolas, nos palcos, nos concursos de poesias, principalmente no Festivale, e nas redes sociais. Agora passa a ocupar, para o nosso deleite, uma materialidade: o oráculo. Essa materialidade conhecida e almejada por leitores e escritores, também conhecida por livro. Roger Chartier com o seu trabalho de investigação sobre a história da cultura e dos livros lembra-nos dessa materialidade, destacando que muito recentemente é que essa tradição se ampliou para compreender a trajetória da leitura, da escrita enquanto práticas sociais. Desse modo quem escreve literatura está no exercício de prática social, ou seja, quer de algum mundo intervir no mundo, seja propondo reflexões, provocações e ou convidando para a experiência da fruição da linguagem e do estético.

Minha Moradia”, por exemplo, é um poema bem realizado, com imagens que balizam no conhecido (cômodos de uma casa), no aparentemente banal, para trazer o inusitado, uma vez que o eu-lírico, apresenta-se situado num corpo-casa, de modo a romper com uma materialidade e se abrir para as instâncias ser-estar-sentir-realizar-vislumbrar. Se conhecemos habitualmente os cômodos de uma casa como partes compartimentadas, no corpo-poesia do eu-lírico há uma abertura para a multiplicidade de quem mora e é, ao mesmo tempo, a morada:


“No porão - nem sei onde fica,

Nenhuma de mim nunca desceu lá,

Temos medo de ir fundo demais, íntimo demais,

Não, é melhor não descer...”


Lendo a poesia de Jucilene Vieira é impossível não ser atravessada (o) por uma experiência estética singular, que nos provoca adesão e idas aos nossos porões internos. Somos conduzidos ao humor, ao riso, ao choro, “ao quente”, “ao frio” e nutrimos o desejo de abraçar o eu-lírico, e, principalmente, abraçar o sujeito atrás da “pena” , esse ser táctil que significa no texto.

O corpo textual e o corpo do ente, pela via da poesia, na poética de Jucilene Vieira, propõe uma abertura para a multiplicidade de uma escrita que conclama a corporeidade do leitor: o olhar para o papel/tela, o movimento de mãos, e a entrega para os sentidos suscitados; os cheiros, as imagens, as cores, a compaixão, a empatia, a acolhida, o riso, a introspecção convocada pelos temos mais delicados(sobretudo os temas sociais, políticos, humanísticos), o imaginar sabores e acordar as nossas memórias gustativas, olfativas, tácteis, tudo isso, consubstancia num “bulinar poético” que culmina na entrega do leitor para o texto.

Quando a poesia possibilita essa con(fusão) de corpos (leitor, o autor, as personas que comparecem na poesia, a função-autor nas suas multiplicidades) é que a poesia aconteceu. A esse propósito, o poema “Enigma”, que abre o livro, na sua natureza metalinguística, revela a consciência poética, aliás, muito mais evidente nas autorias femininas. Nele há uma importante problematização do “ser da poesia e do poeta”:


“Se a poesia fosse um pecado

Com seus atrativos e provocações

Teria Deus criado um inferno próprio

E para lá mandaria os poetas

Para que ardessem em chamas verbais. ”


Ao final, pela via mesma da poesia, Jucilene Vieira, arremata conclusivamente o que a academia não daria conta de esgotar nos ensaios: a poesia e o poeta como um lugar uno, “membros de um mesmo corpo”, a poeta não fecha o conceito, pelo contrário, há uma abertura para pensar a poesia como tudo aquilo que desejamos e ou necessitamos, considerando as singularidades.


Outros poemas comparecem, ao longo da obra (Pão-poesia, Receita: Poema em caldas, como pêssegos), propondo mais reflexões metalinguísticas. É digno de nota, o poema, “Plantio Poético “, revelador de uma grande consciência do fazer poético, ao lado do poema “Constatação” , no qual, concebe-se que o poeta é aquele que recolhe o que já está posto:


“O poeta recicla, adapta

O que é feio

Ele aprimora e enfeita

O que é impuro

Ele recolhe e aceita...”


As imagens e alegorias não são “lugar-comum”, há um trabalho estético e logopéico, uma vez que o intelecto perpassa o campo da imagem sonora, auditiva e da imagem na escrita de Jucilene Vieira. Notemos, por exemplo, o poema “A Colheita”, no qual a poesia e natureza comparecem como uma substância só, como um sumo de um mesmo nascedouro:


“Ah! Eis o intrigante dilema:

Para se manter o ciclo da poesia

Deve-se guardar a palavra-semente... “


Outro poema que merece destaque é “Catarse Acebolada”, testemunhamos a capacidade de uma escrita potente, que consegue transformar o comum, o ordinário em algo extraordinário:


“E no choro de outrem

A pobre cebola

Expurga

A dor de cabeça

De ser-não-ser uma flor!”


Dito de outro modo, a poética de Jucilene Vieira produz pensamento agregado a uma proposta estética rica de imagens, de recursos musicais, muito provavelmente uma influência dos encontros musicais da poeta com a riqueza que é o Festivale.

Não raro, encontramos ainda uma filiação que lembra o prosear das personagens Roseanas, quando a poesia Vieirana explora o gesto de “contar causos”, aliás sempre um gesto que envolve o movimento do corpo, o narrar próprio da oralidade, das oralituras. É possível ter a percepção que o leitor é conduzido por uma mão que o convida a sentar e ouvir as histórias.


Ter o que contar e saber contar poeticamente, de maneira sedutora, revela a sensibilidade táctil de quem “bebeu da fonte” de uma rica ancestralidade. Essa delicadeza pode ser encontrada nos poemas “À Sombra da Janela”, “As mãos”, ” Baião de Três” (que aliás associa delicadeza e humor); “Chegou a Festa”, “A reza” e “A Casa Azul da Esquina”, para citar alguns. Nesse último, pode se ler: “


Em pouco tempo,

Lá estava eu, com toda a minha ruralidade,

Fazendo biscoito champagne,

Carne flambada e pudim de ricota.

Lá estava eu sentada à mesa,

Almoçando junto com todas as moças da casa

Elas não admitiam

Que eu comesse em outro lugar.



O debruçar para o fazer poético é reforçado com a evocação de importantes nomes da literatura, da música e da cultura brasileira e universal. Assim transitam - pela poesia de Jucilene Viera - Camões, Drummond, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Poe e Baudelaire, Clarice Lispector, Adoniran Barbosa, dentre outros. Esse transitar poético também comporta diferentes tipos humanos, dentre outros, o pescador com sua “ casa-oca” , o poeta, o professor, o sertanejo, o artesão do vale, o menino e a sua infância de rio, o lavrador, a garota em sua infância de roça, a adolescente descobrindo a cidade e a luta pela sobrevivência :

“E eu me via,

Miúda e distorcida,

Refletida nos caros objetos argênteos.”


Esses seres são recebidos amorosamente na poética de Jucilene Vieira, evidenciando o comprometimento com o social. Digno de nota, os poemas “ Manifesto pela Equidade entre Cidadãos e Cidadãs”, o poema “As Mãos”, enfim os poemas que propõe um comprometimento com os viventes, com os animais, com a necessidade da preservação da memória, com a preservação do patrimônio e da natureza, sobretudo das águas (confira os poemas Liquefação” “(Per)Curso de Rio”) .


O lócus privilegiado é o Vale Jequitinhonha, mas nele pode se ler o mundo, todos os homens, mulheres e seres envolvidos no que conhecemos, em torno das contradições do humano, como nos lembra o poema “Um Fio em Desafio”. Igualmente somos colocados diante da beleza do humano, sobretudo diante da beleza de Dona Jesus, e da beleza da menina da roça:


“Mas sinto que dentro da alma

A ruralidade continua viva

Pois eu saí da roça

Mas a roça

Jamais sairá de mim!”


É impossível não amá-las. Sobretudo, impossível não amar a moça de “À Sombra da Janela” porque eu, leitora nessa honra de prefaciadora, recebi, da moça da janela, as sementes e passo-as para todos os futuros leitores deitarem as suas sementes. Colham flores!





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