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NO MUNDO DA LUA

Por Ademir Demarchi


Este primeiro livro de poemas de Daniela Pace Devisate, Tantos Quartos Lunares (Editora Urutau) é singular por vários motivos. O primeiro deles é seu marcante anacronismo deliberado. Enquanto todos estamos enredados com os acontecimentos e com os pés na lama da realidade, aplastados de política, com a predominância de poemas e poetas militantes e irados com a miséria, com os desgovernos, com as questões de identidade e sexualidade, indagando onde teria ido parar o lirismo, Daniela expõe sua escolha: decidiu olhar para outra direção, para a Lua. É o cáustico satélite que a seduz com seu brilho prateado, com suas fases influentes, com a languidez que provoca desde que existe humano na Terra.


É preciso, no entanto, que se reitere: o anacronismo é deliberado, tanto que em todo o livro há apenas dois sinais de que ela pisa, e com senso de humor, na lua do presente: o primeiro deles está no poema “Senciente”, palavra que, de cara, já passa o recado: o que predomina nessa expressão é a percepção de tudo pelos sentidos. Feito o aviso, o “eu poético” se lixa: “Deixa que me gritem:/ -Obscurantista!/ Mas não acredito/ Que o homem/ Descenda dos macacos/ Nem que tenha pisado/ A face sagrada da lua”. De fato, a lua, para existir nessa poética, é idealizada, é sagrada, é inalcançável para que nunca cesse sua capacidade de sedução, de fantasia e encanto.


O segundo traço de quebra irônica do anacronismo encenado é o poema “No jardim real”, uma fantasia em que a lua chora enquanto uma cena palaciana infestada pela habitual horda real é descrita em seu ar festivo e cuja descrição é rompida pela indagação do eu-poético que se intromete com outra irrealidade: “(já existe o plástico/ nessa época ¿ )”.


Nessa encenação do estético, contra o contemporâneo, Daniela dá as costas ao mundo assinalando que “Purificar palavras/ Num altar de barro/ É uma missão de exílio”. Eis que o que ela faz é uma espécie de “monoteísmo lunar”, tal como Nefertiti, uma das figuras inspiradoras dos poemas, que foi rainha do Antigo Egito, esposa do faraó Aquenáton, que, com ele, fez a revolução religiosa de abolir o politeísmo e escolher adorar apenas um deus, Áton - o Sol.


Em sua errância de leitura e adoração que é ao mesmo tempo da lua e da tradição, Daniela envereda pelos gregos, como Hesíodo e Safo, passa pelo judaísmo presente na deusa Lilith, adorada na Mesopotâmia e Babilônia mas demonizada na crença judaica, vai pelo japonês Bashô, pelos egípcios, pelo hinduísmo, pelo budismo, se impregna de esoterismo e do simbolismo e da mitologia cerimonial e ritual das religiões e foge pela Arábia em caravanas pelo deserto, onde possa fantasiar uma lua árabe.


Seria pouco se fosse apenas isso, pois outra singularidade dos seus poemas, da sua escrita, é o burilamento e o encontro de imagens de marcante sensibilidade que enfatizam seu lirismo. Não à toa num poema é mencionado o Arcano 17, uma carta clássica do tarô que já inspirou até André Breton a escrever um de seus relatos surrealistas, carta que representa a nudez de uma mulher que deixou para trás os sofrimentos e os apegos e que, conjugada com a Estrela, simboliza um novo dia em que tudo é possível, inclusive ficar otimista.


E se isso não soa fácil para uma existência, um poema diz que a Angústia é um animal cativo, em que se cavalga e se açoita com um chicote de doçuras. A fantasia, assim, arrebata pelas imagens, que vão desfilando aos olhos do leitor: “Os homens-pássaro/ Virão nos buscar/ Descendo/ Pelas escadas de arco-íris”. Ou, em “Souvenir”: “Eu tenho o teu silêncio/ Como uma relíquia/ Eu o guardei/ Numa caixa de vidro/ Eu o admiro/ Quando todos dormem”.


Mas é da Lua que se trata. O leitor atento deve ter notado que acima enfatizei a expressão cáustico satélite. Ela não aparece neste livro e nem faria sentido estar aqui, dada a característica estética que marca os poemas. No entanto essa é, para mim, uma das mais belas imagens de descrição da Lua, ainda que seja corrosiva da ideia de contemplação romantizada que imanta a poesia desde sempre, mas não apenas por isso, por essa rudeza crítica, porém sobretudo pela plasticidade da expressão. Ela vem, para mim, como variante de sugestão do escritor inglês Malcolm Lowry, que, já corroído pelo alcoolismo, mas ainda com imaginação, nomeou uma de suas últimas novelas com o título Lunar Caustic, inspirada no romance Moby Dick, de Herman Melville, outra de minhas predileções cujo enredo incorpora inevitavelmente a Lua durante a navegação noturna indo ao encontro da baleia. Publicada em Portugal pela Assírio e Alvim em 1985, a novela encontrou no escritor Aníbal Fernandes a dificuldade de traduzir o título devido ao sentido lá muito marcado na química, preferindo o tradutor manter o original inglês. Longe de um empobrecido “cáustico lunar” que se poderia arriscar, encantei-me com a variante que ilustra a Lua tal como a vi pela primeira vez representada numa imagem, naquela em preto e branco do dia da transmissão da chegada do homem lá, vista prateada na tevê numa tarde maringaense: cáustica, calcinada - lua cáustica - logo título de um poema que se anuncia no desdobramento que se seguiu ao reencontrá-la na ficção de Júlio Verne, nas pulp science fictions e nos filmes de Hollywood das matinées, até acabar em haicais e outros poemas de contemplação.


A Lua de Daniela é de outro gênero, uma lua viva, pulsante, que sidera, uma “lua grávida de sol”, que se exibe “(em plena madrugada)/ aos cães, príncipes/ e mendigos/

insones e deslumbrados/ com sua nudez de luz”. É uma lua que pode ser vista intensamente viva, feminina, fértil, numa TEMPESTADE (título do poema): “A lua urrava/ histérica e desgrenhada/ sobre o falo do mar”. Mas pode ser também, sempre pulsantemente viva, uma lua toda delicada e lírica, congelada numa imagem:


NOTURNO (GRAVURA)


A madrugada

estava doente

deitava no cetim

e gemia.

A lua estava de férias.

Um céu rasgado

deixava escorrer

seu nanquim,

tingindo lagos e montanhas.


**** ***** ****

ADENDO DE CLAUDIO DANIEL:



Daniela Pace Devisate, poeta e artista visual, desenvolve em seu segundo livro de poesia, Véus de Alethea (Kotter Editor) uma poética da brevidade, com delicada imagética, fluência melódica e sabor oriental, que revela suas leituras de poetas como o japonês Matsuo Bashô e do persa Omar Kahayyam, bem como dos líricos gregos, Safo, Alceu e outros vates helênicos que cantaram a beleza e a fugacidade do amor e dos fenômenos da natureza, por vezes com leve toque de humor. Daniela cria imagens inusitadas de sabor persa ou de fragmento pré-socrático, em que apresenta uma deliberada ambiguidade entre o amor erótico e o amor espiritual – tema recorrente entre os autores sufis, como Rumi e Attar, e que nos faz pensar também nos mistérios órficos, na celebração da vida, paixão, morte e ressurreição ide Dioniso. É uma das vozes mais originais e consistentes da novíssima poesia brasileira. Merece ser lida com atenção.

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