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Notas para uma conversa com a poesia de Augusto de Campos

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    jornalbanquete
  • 1 de mar.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 5 de mar.

Por Mário Alex Rosa



 Desde que a poesia surgiu, a rima de alguma forma esteve presente, seja para apenas completar um efeito na leitura, ainda que de modo “simples” como no final de cada verso, seja para posições mais complexas como as rimas toantes ou mesmo as intercaladas. Sem historicizar o emprego das rimas de tantos outros séculos, partimos aqui apenas como uma simplificação do que se conhece por rima. Indo além de uma combinação de sílabas, fonemas, sons ou mesmo para efeito de repetições que porventura ajudaria, por exemplo, numa forma de decorar um poema. A rima, portanto, sempre esteve presente em diversos tipos de poesia É o caso dos versos em decassílabo nos cordéis brasileiros, sobretudo do Nordeste, onde a prática oralizada sempre esteve presente, como nas feiras livres. Não é o caso aqui de qualquer redução sobre essa forma de poesia; muito pelo contrário: os cordéis são potentes e desafiadores no que compete aos que se aventuram nos seus desafios em público. Além de competência, é preciso competência para desembolar um desafio: também ritmo, métrica, e, sobretudo, criação, talento, afinal os desafios não são nada fáceis.


Ainda continuando nos princípios do que se conhece sobre a rima, podemos reafirmar que, em linhas gerais, é a repetição de sons semelhantes num poema, sobretudo naquele mais tradicional, como é o caso dos soneto. Evidentemente a rima está presente na poesia de versos livres. Aliás, e só a título de passagem, o verso livre na poesia moderna surge como uma das formas para quebrar a rigidez da métrica. Para muitos poetas modernos, o uso da rima no século XIX, sobretudo da poesia parnasiana brasileira, parecia como um facilitador ou mesmo pobre na construção de um poema. No século XX, e com as vanguardas literárias, rimar de alguma forma passou a ser sinônimo facilitador para não dizer de pobreza criativa. No entanto, as rimas, seja de qual natureza praticada, jamais foram totalmente abandonadas em qualquer tradição, mesmo porque é um dos recursos que fazem e continuarão fazendo parte da poesia. Rima é como um ímã, mas é necessário saber o que atrair para um poema.


A propósito desse breve comentário do lugar e importância da rima, pretendo trazer aqui alguns exemplos do uso da rima na poesia de Augusto de Campos, poeta que, por excelência, vem, desde o primeiro livro O rei menos o reino (1951), explorando a visualidade nas suas criações. É muito provável que seja o poeta brasileiro que mais explorou e explora a espacialidade visual na poesia brasileira, utilizando diversos recursos para além só do tradicional papel, lápis/caneta, Augusto vem há anos dando um salto da forma mais antiga de escrever um poema, ou seja, de lápis e papel para sofisticados computadores, como é o caso, por exemplo, do seu último livro Pós poemas (2025). A visão apressada de certa crítica de que a poesia concretista se restringe a um ensimesmamento na linguagem ou. na pior das hipóteses, num “autismo”, assinala uma visão conservadora e se esquece que, antes de qualquer coisa, poesia é em síntese bastante simplificada que confirma um trabalho com a linguagem, com a palavra. Forma é conteúdo. Forma é sentido. Olhar para um poema concretista ou visual é mais que circular o olhar no todo é perceber as partes. Além disso, é ouvi-lo e, em alguns casos, até tocá-lo como Augusto de Campos, num gesto de sensibilidade, contribuiu para que um dos seus poemas, “anticéu”, (1984) fosse transformado em braille. Portanto, poesia é forma transformando sentidos.


Se a visualidade é o espaço por excelência na poesia do Augusto de Campos, não será menos a sonoridade tão presente quanto à visualidade na composição de cada texto. Inclusive as rimas não só pelas combinações, mas como uma forma de sonoridades que, além de ecoarem, dão outros possíveis sentidos para a relação entre o campo visual e o sonoro. Um dos exemplos mais sonoros em Augusto é quando se mergulha na leitura de “canção noturna da baleia” (1990). A sensação que o leitor pode ter é que ao ouvir, ler e ver esse poema algo parece ir submergindo do fundo do mar como se nos levasse para ouvir o canto forte desse “poema-baleia”. Imagem e som amalgamados se encontram em movimentos marítimos. Além do fundo em preto (noturno) e a fonte em branco (alvorece) para além de criarem contrastes, que é conhecido entre essas duas cores, há a repetição da consoante “eme”, que se repete  mais de duzentas vezes (272) provocando um movimento exaustivo no espaçamento e no som desse belo  poema-marítimo.



O domínio visual e sonoro faz com que não seja tão necessário, no primeiro momento, saber o que representam os nomes citados, pois o que parece predominar, sem dúvida, é essa combinação feliz ente imagem e som. É o som da baleia que se quer ouvir. No seu último livro Pós poemas, a baleia volta (sleeping whale, 2020), mas agora ouvimos seu canto pelo som dos versos ou rimas (lindo/infindo) que termina sem completar com “dorm”, nada mais tão belo e sugestivo para respeitar o sono das baleias. Em “Tvgrama II”, o som da consoante oclusiva “T” se multiplica como se ouvíssemos diversas tevês ligadas emitindo sons. O som se embaralha com as antenas ou se quiser com as consoantes “T” e “V” que graficamente parecem transformadas nas antigas antenas que se viam sobre os telhados e prédios no Brasil. Novamente imagem e som se encontram justapondo um ao outro. Esses belos poemas construídos por Augusto sintetizam a teoria do linguísta russo Jakobson: “palavras de som semelhante se aproximam quanto ao seu significado”. De fato, os sons fazem/provocam sentidos. A propósito dos sons e das rimas, vale lembrar de passagem a leitura do poema “ão” (1994), do livro Não, feita por Flora Sussekind, no ensaio “(Quase audível) – nota sobre ão -”. No título, poderia se considerar que há o uso de uma rima pobre, em “coração/não/solidão”? No entanto, o que se ouve em “ão” é uma expressão quase ao contrário da possível explosão de um “ão”, um antisom tão fino quanto a própria forma do poema na diagonal. Entre diversas passagens, Flora Sussekind comenta que “…se veem desmentidos pela mesma, mínima, sílaba-título substantivada, pela dimensão das letras, pelo espaço reduzido ocupado pelo poema-em-fio na página”.                  


Trata-se de um estudo já de longa data e ainda são poucos os que se dedicam ao estudo de uma só obra de um autor. Há quase sessenta anos, Hélcio Martins, publicou um longo e profundo estudo sobre “A rima na poesia de Carlos Drummond de Andrade” (1967). Não se trata apenas ou quase de um estudo técnico, o que já seria muito, mas de como entre as teorias da poesia e a leitura do poeta itabirano, Martins nos oferece diversos exemplos de como Drummond usou da tradição até a mais radical desconstrução da rima. Talvez o melhor exemplo já começa na estreia e no primeiro poema do primeiro livro, Alguma poesia, 1930, com o “Poema de sete faces”, na penúltima estrofe que não reproduzirei, e nem é o caso de se estender algum comentário, pois há alguns estudos que já mostraram importantes soluções interpretativas. O que vale dizer é que, se a rima não é uma solução, não deixa também de ser uma solução, à medida que é uma forma de oferecer ao poema um enlace na expressão que se deseja. O que seria do soneto de Camões, ou melhor, o que seria do amor sem a alternância das rimas nesse que é um dos poemas mundialmente conhecido? O que seria do poema “amor/ humor” (Oswald de Andrade) sem a rima final? Ou em “Mora na filosofia”, Caetano canta e pergunta: “pra que rimar/amor e dor” (Monsueto Menezes – Arnaldo Passos). Rimas simples e comuns, no entanto sem elas talvez esses poemas e tantos outros não tivessem a força expressiva que os fazem atemporais. E não estamos aqui considerando apenas as rimas finais que as fazem mais nítidas num poema, mas, em suma, a relevância das rimas toantes, o ritmo, a métrica, os acentos, as aliterações, assonâncias, as anáforas, enfim, a natureza fônica de cada significante. Não é considerável também reduzir a poesia, seja de qual natureza for, a uma equação matemática, ainda que o nosso poeta Augusto de Campos demonstre interesse nesse diálogo, como se ver no poema “poematemáticas” (2016), do seu último livro Pós poemas, ao compor um poema a partir de frases/versos de diversos poetas. Vejamos algumas: “matemáticas severas quanto eu vos amo’ (Lautréamont), “matemática é mágica” (Emily Dickinson), “todo dispositivo poético repousa sobre um fato matemático encoberto” (Paul Valéry), “eu à poesia só permito uma forma concisão, precisão das fórmulas matemáticas” (Vladimir Maikósvski).



A partir da formulação conhecida como “verbivocovisual”, parece que o visual acabou predominando na construção dos poemas concretistas, sobretudo em Augusto de Campos. Assim, parte da crítica, com razão, não foi muito diferente ao chamar mais atenção para os aspectos visuais, mesmo porque o que saltam aos olhos no primeiro momento é justamente a visualidade, a composição do poema na página. Deve-se lembrar que Augusto sempre explorou materiais diferentes, seja o uso da letraset, dos tipos móveis ou quando transportou seus poemas para impressões mais próximas das artes plásticas como a serigrafia.


Os poemas ganham outros suportes, recebem outras técnicas e vão para além do livro. Poemas viram cartazes, por exemplo. Não estamos ainda considerando outros suportes, como vídeos, projeções, gravações e já algumas décadas o computador, a internet. Pode-se dizer que a poesia de Augusto é resultado das ferramentas que sempre buscou imprimir em seus poemas. Afora isso, não se deve negar que, se por um lado, a construção ficou a reboque de um raciocínio cuja lógica tende a predominar, por outro, no entanto, acredito que o sentimento, ou se quiser certo lirismo, não ficou totalmente de fora da construção de alguns de seus sensíveis poemas, como veremos.


Talvez aqui coubesse um exemplo de uma bela composição em que o poeta procura numa síntese não separar razão e sentimento. Veja, ouça e sinta o pensamento do movimento cardiograma do poema “coraçãocabeça”, (1980), que ocupa duas páginas com fundo vermelho, escrito com letras em branco. Com algumas variações, o poeta propõe que o pensamento (cabeça) e o sentimento (coração) se separam e quando se fundem criam uma expressão, digamos, equilibrada ou, se quiserem. matemática. Parece que a velha discussão forma e conteúdo ou, em outra vertente, razão e sentimento, se interrogam, se complementam nessas duas partes centrais do corpo humano: cabeça e coração. Fernando Pessoa escreveu “o que em mim sente está pensando”. Carlos Drummond disse: “o meu coração é maior que o mundo”. A construção a serviço do coração, portanto, do sentir. O poeta russo Vladimir Maiacovski setenciou: “a minha anatomia ficou louca, / agora sou todo coração”. Em suma, muitos exemplos caberiam nessa tensão entre razão e sentimento, ou entre cabeça e coração. Talvez a rima esteja nesse encontro entre essas duas partes do corpo, o que seria uma solução plausível para a poesia, ainda que não seja uma rima no sentido clássico que a conhecemos. Em suma, se não é a rima que soluciona o poema, em “coração cabeça”, de Despoesia (1994), pode ser a busca do equilíbrio de uma equação (poética?) entre sentimento e razão.




A propósito dessas simplificadas anotações, comentarei brevemente alguns poemas de Augusto em que me parecem que a rima, recurso tão explorado em seus poemas, fica mais deslocada, justamente pela presença expansiva da visualidade, como já citamos anteriormente, que predomina tanto no campo semântico quando da página inteira, deixando, assim, “camuflados” os jogos sonoros provocados pelas rimas. Mas, além disso, há nesses poemas certa angústia, talvez mesmo uma melancolia, diante do que de novo cabeça coração ou inverso parecem se encontrarem na busca do equilíbrio. Como se um “eu lírico”, muito negado na sua poesia estivesse ali como alguma razão de ser. Um eu que se sente mais que oco, e aqui o palíndromo deixa esse “eu” ensimesmado na ida e na volta. A beleza do poema “oco” (1998) dói nos ouvidos quando lido em voz alta. Os sons da dor da vida, do ar que respira, do som do silêncio, o branco da página, para sozinho, sufocado em si, guardar o som que emite em silêncio: tudo deixa a indagação no que se refere a um “eu” sufocado ecoando dentro de si. A fonte vazada utilizada nesse poema se confirma na repetição (quatro vezes) na última linha do poema simbolizando o vazio. É possível que esse poema mantenha um diálogo com outro poema de uma beleza rara “joão/agrestes”, (1985). Fábio Vieira, autor do livro a antirretórica do menos - leituras sobre augusto de campos (2016), traz uma longa e sensível análise desse poema. Enfim, se no poema “Graciliano Ramos”, de João Cabral, existe um espelho de Cabral falando também de si mesmo, não nos parece diferente que em ‘joão/agrestes”, de Augusto de Campos, há um espelhamento também. As homenagens, portanto, parecem se converter num autorretrato. Talvez um poema que mais se assemelha a uma autoreflexão seja o poema “aqui” (2001), do livro Não. É construído de maneira que cada linha/verso se enbaralhem entre si e em diversas cores, como se ali o “sujeito antilítico?” colocasse em questão a tensão entre sair e ficar, entre se autoconhecer e sair para a vida. Assim, na vertical, lemos na abertura:


aqui

parado

dentro

de

mim

não

nada

que

me

leve

a

sair    

 

A poesia mais intimista de Augusto toca em ritmos em cujas elaborações há diversos tipos de rimas e de sons entre tantos aspectos visuais. Enfim, a rima amor e dor, já tão gasta, mas nem por isso esquecida, pois se soluciona a rima, ao que parece (ainda) não solucionou o problema desses dois sentimentos universais. De todo modo, no pequeno e precioso livro-objeto datiloscrito de 1990, o poeta nega que o amor e a rima ainda não são poesia, porém fazendo poesia e rima com as negações. Mas ainda não é uma solução nem para a dor, nem para a poesia.


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 * Mário Alex Rosa é poeta, autor dos livros Ouro Preto– Poemas (Scriptum, 2012), Via férrea (Cosac Naify, 2013), ABC futebol clube (Aletria, 2015) (Infantil), Poemas pitorescos (Galileu Edições, 2020), Casa (Impressões de Minas, 2020), Diário de casa (Galileu Edições, 2021), Cosmonauta (Aletria, 2022) (Infantil) e Cartas ao mar (Scriptum, 2023). Coordena junto com o tipógrafo Flávio Vignoli a Coleção de poesia Lição de Coisas – Tipografia do Zé – Belo Horizonte.

 
 
 

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