O projeto verbivocovisual em movimento: “Outro”, de Augusto de Campos, e a perpetuação da poesia concreta na era digital
- jornalbanquete

- 22 de fev.
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Por Daniel Osiecki

Quando Augusto de Campos publicou Outro em 2015, já não se tratava apenas do lançamento de mais um livro de poemas. Era a culminação de um projeto estético iniciado seis décadas antes e, simultaneamente, a sua reafirmação no século XXI. Em 1955, ao lançar a série Poetamenos na revista Noigandres, o poeta paulista lamentava as limitações técnicas da imprensa convencional: “Luminosos ou film-letras, quem os tivera!”. Outro é a resposta concreta (no sentido mais literal do termo) a essa interrogação.
Ao contrário de muitos vanguardistas que posteriormente amenizaram seus manifestos, Augusto de Campos manteve-se, nas palavras do crítico Rogério Eduardo Alves, “fiel a seus princípios iniciais”. O “Plano-piloto para poesia concreta”, redigido em 1958, já estabelecia a superação do verso como unidade rítmica e a adoção do espaço gráfico como agente estrutural. Contudo, o elemento mais distintivo da poética campeana é a ênfase na tríplice dimensão do signo: semântica, sonora e visual.
Esta tríade encontra sua síntese teórica no termo “verbivocovisual”, palavra-valise extraída por Haroldo e Augusto de Campos do Finnegans wake de Joyce. Ao contrário de outras experiências de poesia visual que tendiam ao puro grafismo ou ao sonorismo desprovido de significado, a poesia concreta brasileira nunca renunciou à carga semântica. Como o próprio Augusto esclarece, "na poesia concreta, o significado permanece, embora considerado com autonomia poética”. É esta especificidade que distingue a produção brasileira de outras linhagens da poesia visual internacional.
Outro insere-se precisamente nesta tradição. O título sugere não apenas a reunião de textos esparsos ou inéditos, mas um diálogo com o “outro” (o leitor, a tecnologia, a história literária) e, principalmente, a continuidade de um caminho já pavimentado em obras como Viva vaia (1979) e Despoesia (1994).
Uma das contribuições mais significativas da crítica recente é a compreensão do papel do design e da tipografia como elementos constitutivos do poema concreto, e não meramente decorativos. A poesia de Augusto de Campos é, antes de tudo, uma poesia construída. Inspirada pela "matemática inspirada" de Ezra Pound e pela racionalidade construtiva da arte concreta, sua obra opera um controle rigoroso do espaço em branco (à la Mallarmé) branco, do silêncio visual e do tempo de leitura imposto pela diagramação.
Em Outro, este domínio atinge um patamar de sofisticação ímpar. A edição, cuidadosamente projetada, recupera a tradição da “macrotipografia” – a mancha gráfica como forma – sem abandonar a “microtipografia” — a escolha criteriosa da fonte. Os poetas concretos elegeram a tipografia Futura (letro negro) como a materialização visual do ideário construtivista: sem serifas, geométrica, funcional. Em Outro, essa herança bauhausiana é perceptível, mas já transmutada por décadas de experimentação.
A visualidade dos poemas não é um enfeite; é o próprio mecanismo de geração de sentido. Tomemos como exemplo os “contrapoemas”, categoria que Augusto passou a desenvolver intensamente em sua fase tardia e que encontra eco na estrutura de Outro. Derivados da lógica do ready-made, estes poemas operam por contraste e justaposição, aproximando a sintaxe poética da sintaxe visual dos memes e da publicidade crítica. O poema dialoga com a pop art (os “popcretos” dos anos 1960) e com a tradição da sátira política, mas é na disposição espacial dos tipos que a ironia se consuma.
Se Outro é um livro, sua leitura não se esgota no papel. Um dos traços mais distintivos da trajetória de Augusto de Campos é a sua capacidade de migrar de suporte sem jamais descaracterizar a matriz poética. Esta é, aliás, uma vocação originária: o poema “Tensão” (da série Poetamenos) já era pensado como uma partitura para vozes, antecipando a Klangfarbenmelodie (melodia de timbres) de Anton Webern, onde cada cor tipográfica corresponderia a uma tessitura vocal distinta.
Outro insere-se neste fluxo. A obra é concebida em um momento em que o poeta já domina plenamente as ferramentas digitais = o “computador doméstico” que, segundo ele, “abriu todas as possibilidades que vislumbrava no prefácio” de 1955. Não se trata, portanto, de uma simples “digitalização” de poemas antigos, mas de uma recriação que explora a animação, o movimento e a sincronia entre som e imagem.
Os chamados "clip-poemas", muitos dos quais divulgados no site do autor e em plataformas como o YouTube, são desdobramentos diretos da proposta verbivocovisual. Neles, a voz do poeta (ou as vozes de colaboradores como Caetano Veloso e Cid Campos) funde-se à tipografia animada, realizando na tela aquilo que a página impressa apenas podia sugerir: o tempo real da leitura, a ênfase progressiva das sílabas, a dança dos caracteres. É a este fenômeno que Augusto de Campos se refere como a passagem do “tipograma ao videograma”.
A crítica tem utilizado a expressão “Nostalgia do futuro” para caracterizar a obra de Augusto de Campos. O paradoxo é aparente: trata-se de um poeta que sempre mirou adiante – os hologramas, o laser, o videotexto, a animação digital – sem jamais romper os laços com a tradição literária (Dante, Pound, Joyce) ou com a tradição popular (o bolero, o samba, o rock).
Outro é o testemunho mais eloquente dessa condição. Ao reunir poemas que atravessam décadas e ao apresentá-los em um formato que dialoga com as tecnologias do século XXI, Augusto de Campos demonstra que a poesia concreta não é um movimento histórico encerrado na década de 1950, mas um método permanentemente atualizável. O livro – seja ele de papel, seja ele pixel – permanece o espaço de interseção entre o verbo, o som e a visão.
Ao conceder a Augusto de Campos o Prêmio Pablo Neruda em 2015, o júri não homenageou apenas uma trajetória, mas “a capacidade de revisão, reedição e renovação de sua poesia”. Outro é, neste sentido, a prova cabal de que a vanguarda, quando fundada em princípios rigorosos e não em meros modismos, sobrevive à própria época que a viu nascer. A poesia de Augusto de Campos continua a habitar, com igual desenvoltura, o museu e a timeline do Instagram.
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* Daniel Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou Morre como em um vórtice de sombra (2019), Fora de ordem (2021), 27 episódios diante do espelho (2021), o romance Veste-me em teu labirinto (2022) e o estudo crítico O labirinto pós-colonial: identidade e memória na narrativa de António Lobo Antunes (2026), entre outros. É editor da Kafka Edições. Mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro – vozes literárias.
Referências
AGUILAR, Gonzalo. Poesia Concreta Brasileira. São Paulo: Edusp, 2005.
ALVES, Rogério Eduardo. Credo concreto. Folha de S.Paulo, Ilustrada, São Paulo, 4 out. 2003.
CAMPOS, Augusto de. Entrevista sobre pactos da poesia com performance, música e tecnologia. Revista seLecT, São Paulo, dez. 2011.
CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. 4. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2006.
GANDOLFI, Leonardo. Augusto de Campos completa 90 anos e leva poesia concreta para o Instagram. O Globo, Cultura, Rio de Janeiro, 13 fev. 2021.
MALLEA, Macarena. Las voces se escriben en colores: contrapuntos y contrastes en algunos poemas de la serie Poetamenos de Augusto de Campos. Revista Laboratorio, Santiago, n. 9, 2020.
REIFSCHNEIDER, Paulo. Design e tipografia como elementos da expressividade da poesia de Augusto de Campos. ARS, São Paulo, v. 18, n. 40, p. 224-251, 2020.
STERZI, Eduardo. Balanço da voz e outras vozes: Augusto de Campos entre cantores e canções. Outra Travessia, Florianópolis, v. 1, n. 33, 2023.
VÁRIOS AUTORES. A propósito del Premio Pablo Neruda a Augusto de Campos. Letras en Línea, Santiago: Universidad Alberto Hurtado, jun. 2015.
VÁRIOS AUTORES. Verbivocovisualidade e Grupo Noigandres. ICAA Documents Project. Houston: Museum of Fine Arts.





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