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“Pós poemas”: linguagem em estado de luta

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • 1 de mar.
  • 3 min de leitura

 

Por Josinei de Souza Arevalo

 

 

 

Poucos poetas brasileiros atravessaram tantas décadas sem transformar sua própria obra em monumento imóvel. Augusto de Campos, desde os anos 1950, construiu uma área de tensão permanente. Fundador da poesia concreta ao lado de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, ele nunca tratou o poema como espaço de expressão subjetiva, mas como artefato crítico, onde palavra, som e forma visual atuam conjuntamente.

 

Pós poemas, publicado quando o poeta já ultrapassa nove décadas de vida, é um livro que opera no presente em ruínas, incorporando a crise da linguagem, da verdade e do discurso público. O “pós” do título não indica superação ou alívio, mas um estado permanente de depois, depois da confiança na palavra, depois da estabilidade. O livro assume que o sentido já não é dado: é disputado.

 

Esse “pós” também se articula com a filosofia contemporânea do pós-verdade e do pós-utópico. Trata-se de reconhecer o esgotamento das grandes promessas totalizantes e a corrosão das certezas. A verdade deixa de ser fundamento estável e passa a ser território de conflito. O sujeito é atravessado por fluxos de informação, imagens e discursos concorrentes. O compêndio incorpora esse horizonte: a poesia surge como prática crítica dentro de um mundo que perdeu garantias simbólicas.

 

Em tempos de inflação discursiva, excesso de opinião e slogans automatizados, o livro aposta no corte, na redução e no silêncio como estratégias críticas. A fragmentação do poema espelha um mundo estilhaçado, saturado de informação e esvaziado de sentido. Cada página exige do leitor atenção ativa, participação sensorial, leitura desacelerada: um gesto quase subversivo na contemporaneidade.

 

Há na obra uma patente linguagem pop, que dialoga com a cultura urbana e com a música, especialmente com a obra de Arnaldo Antunes. Assim como Arnaldo, Augusto trabalha a palavra mínima, o ritmo seco, a repetição que lembra refrão ou mantra. A musicalidade é tensionada; o pop aqui é intelectual, rigoroso, irônico. O poema encosta na canção, mas não se rende à melodia fácil: mantém a aresta crítica.

 

Augusto transforma signos circulantes, palavras gastas, termos saturados em dispositivos de choque visual e semântico. Um exemplo decisivo é o poema visual “vertade”, em que a disposição gráfica das palavras “verdade/mentira” expõe a instabilidade do próprio conceito de verdade. Ao reorganizar visualmente as palavras, o poeta mostra como verdade e mentira podem se infiltrar uma na outra no espaço do discurso. O leitor não apenas lê: vê o conflito. O poema vira um diagrama ético da linguagem contemporânea, atravessada por fake news, manipulação e retórica estratégica. A forma visual não ilustra a ideia; é a própria crítica em operação.

 

Campos e Arnaldo Antunes compartilham a recusa do verso ornamental e a aposta na palavra como objeto físico, sonoro e visual. O livro também dialoga simbolicamente com o espírito de Clube da luta. Assim como a obra de Chuck Palahniuk expõe a fragmentação da identidade, o colapso do discurso e a violência estrutural do sistema, Pós poemas reflete um mundo em curto-circuito. A linguagem pública está corrompida, capturada pela propaganda, pelo algoritmo e pela repetição vazia. O poema, então, se torna um round de combate, um espaço mínimo onde a palavra tenta sobreviver ao próprio desgaste.

 

Cada texto funciona como um mantra da nossa época: um mantra inquieto, laico, desconfortável. A leitura provoca impacto físico e mental, um choque breve e direto. Augusto cria situações de linguagem em que o leitor é confrontado com o esvaziamento do sentido e com a necessidade urgente de atenção. O livro incorpora a crise da verdade, a ascensão de discursos autoritários, a manipulação semântica e a violência simbólica das redes. A poesia, aqui, não é refúgio.

 

Nesse sentido, a longevidade do poeta paulistano se confirma como gesto estético raro. Enquanto muitos suavizam a linguagem para permanecer legíveis, ele a torna mais exigente, mais econômica, mais incisiva. A palavra continua operante porque continua perigosa.

 

Pós poemas reafirma algo essencial: a poesia ainda é campo de luta. Entre a canção pop e golpe seco, entre Arnaldo Antunes, a filosofia do pós, o embate visual entre verdade e mentira e a atmosfera de confronto de Clube da luta, Augusto mantém a linguagem em estado de alerta. Seu livro não encerra uma trajetória: mantém o corte aberto, lembrando que, enquanto houver disputa pelo sentido, a poesia ainda pode ferir, despertar e resistir.

 

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* Josinei de Souza Arevalo é poeta. Nasceu em Tonantins (1982). Inédito em livro, tem poemas publicados nas revistas A Cigarra, Germina, Zunái e Tlön de Portugal.

 
 
 

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