Profilogramas, uma ideia de perfil
- jornalbanquete

- 1 de mar.
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Por Julio Abreu

Começo este texto citando a definição que o próprio Augusto de Campos escreveu para a palavra profilograma:
Com esse nome – PROFILOGRAMA – batizei alguns dos trabalhos encontráveis em três dos meus livros de poemas, VIVA VAIA, DESPOESIA, NÃO. Trata-se de coisas meio inclassificáveis – poemas (às vezes sem palavras), que tentam ser também biogramas. Retratos poéticos que têm a ver com a personalidade daqueles em que se inspiraram: interpretações gráficas que podem ter como tema seja uma frase pessoal do homenageado ou um poema de minha autoria, seja a tradução de algum trecho autorreferencial, ou até fotos do autor-tema [...]. Em outras palavras, um mix de bios: biótipos, biografemas, biopoemas, biotipografias, biofotos [1].
Nessa explicação, o poeta apresenta diferentes palavras para caracterizar a variedade de procedimentos empregados por ele nos trabalhos que chamou de profilogramas; deste modo, essas palavras sugerem distinções entre os diferentes trabalhos e a possibilidade de agrupá-los em conjuntos distintos.
Em seu ensaio sobre o poema “gouldwebern”, Júlio Castañon Guimarães ressalta que “profilograma – já que profil (que em inglês [profile] e francês [profil] tem a mesma forma) é ‘perfil’ – pode ser entendido tanto a partir da ideia de contorno do rosto de uma pessoa vista de lado [...] quanto o de descrição rápida de uma pessoa” [2].
É oportuno lembrar que profilo é perfil em italiano. E as palavras inglês e francês tem origem nessa palavra italiana. Contudo, no ano em que o ensaio de Castañon é publicado, 2010, ainda não se encontrava publicado Profilogramas, que trazia no texto introdutório as definições do autor para este conjunto de poemas, de onde se observa que Castañon não tinhas as referências descritas por Augusto.
Embora as duas definições acima sejam satisfatórias para a compreensão dos trabalhos denominados profilogramas, vale ainda a tentativa de perceber outras nuances do seu significado. No Dicionário Houaiss (2009), o prefixo “pro” designa “a favor de”, “à maneira de”, “sobre” e “por causa de”. Designa também “em defesa de”. Tudo isso remeteria ao trecho final da introdução do livro Profilogramas: “o meu abraço fraterno àqueles que, na primeira hora – queira-se ou não – delinearam com suas obras todo um novo projeto para a nossa arte”.
No entanto, o segundo elemento da palavra profilograma, “grama” (do grego através do latim), significa “letra, sinal gravado”. Por extensão do significado, chega-se a “caráter de escrita, inscrição” e também a “traço, desenho, pintura”. São bastante significativo esses desdobramentos já que os poemas compõem-se também de elementos visuais.
Mesmo que em sentido metafórico, por fim, outras associações são bem vindas, como no caso de filo: “categoria taxonômica que agrupa classes relacionadas filogeneticamente” ou “ainda ramo, tronco, família”. Essas aproximações pretendem reforçar, não um agrupamento de poemas somente, mas o grupo de artistas, amigos, que tiveram certamente grande importância para que merecessem o respeito e a consideração do poeta registrados em poemas.
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O primeiro conjunto de profilogramas está reunido em Viva vaia: poemas 1949-1979 e compreende os seguintes trabalhos: “profilograma 1 – poundmaiakóvski” (1966), “profilograna 2 – hom’cage to webern” (1972), “sousandrade 1874-1974 – fotopsicograma” (1974) e “janelas para pagu” (1974). Trata-se de quatro poemas sem palavras, que se utiliza de procedimentos de sobreposição com fotografias e desenhos. Seguiram-se outros conjuntos, com diferentes procedimentos, que compõem as seções “profilogramas” publicados em Despoesia (1994) e Não (2003), mencionados anteriormente. Em Pós poemas (2024), seu mais recente livro, há uma nova seção de
profilogramas (verbovisuais). Também nos livros de tradução Rimbaud livre (1992) e no de ensaios Música de invenção (1998) figuram profilogramas, igualmente sem palavras.
Ainda não citado, há outro grupo de profilogramas que compõe o livro homônimo Profilogramas (2011). Esse agrupamento constitui uma série e reúne alguns dos poemas já publicados em Despoesia: “fiaminghi (1985)”, “sacilotto (1986)”, “geraldo (1986)”, “cordeiro (1993)”, e outros já publicados em Não: “fejer (1993), “maurício (1996)”, “charoux (1996)”, “judith (2000)”, “wollner (2002)”. Esses títulos se referem aos artistas que participaram, ao lado de Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, da I Exposição Nacional de Arte Concreta, que aconteceu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em dezembro de 1956, e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1957. Também estiveram presentes os poetas Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias-Pino.
Os nove poemas selecionados para esse livro, quase álbum, composto de lâminas soltas agrupadas em uma caixa quadrada que remete a um LP, em projeto semelhante ao do livro Poetamenos, série de 1953 publicada em 1955, partem de imagens dos trabalhos dos artistas homenageados. Escreve o autor:
O que desejo é relembrar momentos significativos de minhas vivências e convivências artísticas. Os pintores/escultores/designers que aqui rememoro são, do grupo pioneiro dos concretos, aqueles com quem mais convivi e dos quais guardei, como marca pessoal, algumas memoráveis imagens. Tento responder-lhes com estes ideogramas verbais que perseguem as suas “personae” [3].
3
O profilograma “geraldo”, composto em 1986, parece ter sido criado como peça de apresentação da exposição de Geraldo de Barros na Galeria Milan, em São Paulo, naquele mesmo ano, conforme pode ser observado no folder abaixo.

No poema, a linguagem opera seguindo o mesmo princípio construtivo que orienta a obra do artista: repetição modular e variação formal. A sequência verbal “são quase quadrados que são quase losangos que quase hexágonos que são quase cubos” desenha uma cadeia geométrica que progride do plano ao volume, como se a sintaxe, a partir de uma grade tipográfica hexagonal, acompanhasse o deslocamento perceptivo das formas. O poema não descreve a imagem, mas reproduz, no plano verbal, a lógica combinatória da composição visual.

O advérbio “quase” torna-se um elemento estrutural importante, que produz uma quebra na ideia de forma pura. As figuras não são quadrados, nem cubos, nem hexágonos: são quase. O rigor geométrico revela-se instável: um quadrado inclinado torna-se losango, um conjunto de losangos pode sugerir um cubo, a projeção de cubos configura hexágonos: a forma deixa de ser essência matemática e passa a ser efeito de perspectiva: o “quase” desloca a geometria do campo da exatidão para o campo da percepção: e o poeta quase pintor consegue o efeito de perspectiva com o uso da cor.
A segunda parte retoma as formas em ordem invertida, criando um efeito de espelhamento: “quase cubos que são quase hexágonos que são quase losangos”. Há
um movimento de ida e volta, como se a sintaxe girasse sobre si mesma, repetindo com variação procedimento análogo ao da modularidade concreta. O retorno final aos “quadrados do Geraldo” escreve novamente a autoria como eixo organizador no jogo: no lance de dados da forma.
O fragmento “jogo de dados” é central no texto do poema, pois introduz outra camada de leitura: o dado é cubo, figura geométrica perfeita, mas também símbolo do acaso (ah, Mallarmé). A obra, de matriz construtiva, aparentemente regida pelo cálculo, revela-se atravessada por um princípio lúdico. A geometria se converte em jogo, e o jogo implica movimento, permutação e contingência. “Jogo de dados” é também o título do objeto em fórmica sobre madeira, de Geraldo de Barros, reproduzido no folder da exposição, a partir do qual o poema se desenvolve.
E assim, o poema transforma a forma visual em operação verbal. Ao repetir e deslocar nomes de figuras geométricas, Augusto de Campos evidencia que a forma nunca é absoluta: ela depende de ângulo, contexto e relação. O “quase” torna-se, então, não apenas recurso estilístico, mas conceito. Entre quadrado e losango, entre cubo e hexágono, há um campo de transição, e é nesse intervalo que a poesia se instala.
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* Julio Abreu é designer gráfico, poeta e artista visual. Publicou o livro de poemas Jogo das horas (Scriptum, 2015) e o fotolivro Dentro da faixa (Scriptum, 2017). É doutor em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG, com tese sobre a poesia de Augusto de Campos.
Notas
[1] Campos, Augusto de. Profilogramas. São Paulo: Perspectiva: 2011 (Signo 54).
[2] Guimarães, Júlio Castañon. “Anotações para leitura de ‘gouldwebern’”. In:
Entre reescritas e esboços. Rio de Janeiro: Topbooks: 2010.
[3] Campos, Augusto de. Profilogramas. São Paulo: Perspectiva: 2011 (Signo 54).





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