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ROLETA-RUSSA DE BALAS CERTEIRAS

Por Ademir Demarchi



Roleta-russa. Anderson Lucarezi (edição do autor, 2021). Trata-se de uma plaquete, com apenas oito páginas, suficientes no entanto para uma percuciente reflexão sobre o período pandêmico e sua injunção política movida em prol da barbárie. Não há poesia nela, mas a aplicação da experiência advinda da prática poética com o trato da linguagem que resulta num modo de elaboração crítica eficiente.


Como praticamente todos os poetas em atividade atualmente, impactados pelo esvaziamento da ação política que tem como consequência a viralização do discurso de esquerda na escrita, Anderson Lucarezi foi impulsionado a se distanciar da reflexão poética para destinar energias visando pensar a barbárie, buscando outra forma de experiência textual, por mais que a crítica seja própria da poesia.


É fato que a centrifugação histórica tem sido tão intensa que tem obrigado a todos a isso, porém o resultado, massivo e premido pela urgência, tem levado à constatação da precariedade da linguagem poética para lidar com a circunstância, uma vez que essa forma de expressão tem em geral escorrido para o panfleto óbvio e redundante, matizado de ingenuidade, sobretudo nos novos poetas da cena contemporânea, imantados pela fantasia do protesto, porém imprescindível, evidentemente.


Lucarezi, nesse caso, escapa da expressão poética evitando a redundância e, movendo-se pela inspiração experimentalista, investe num jogo interessante. Partindo da constatação explícita de que o “Brasil escolheu a roleta-russa do coronavírus” como prática, tal como também explicitaram estudantes universitários que fizeram “festas Covid com aposta para ver quem pega coronavírus primeiro”, segundo epígrafe da plaquete, tirada de notícia de jornal, ele se apropria dessa ideia para criar seu conteúdo: adota a aleatoriedade como método, escolhe todas as letras do alfabeto relacionando-as aos primeiros dias do mês de março de 2021, quando a pandemia completou um ano e as associa com os números de mortes diárias, resultando numa soma que foi induzida à busca de uma palavra no Dicionário Houaiss; descoberta a palavra, ele a usou em pesquisa no noticiário sobre a pandemia, resultando numa série de, curiosamente... - 17 – palavras (sim, 17, o número que elegeu o ditadorzeco), uma vez que três foram neutralizadas pela regra criada, sendo consideradas como dias de silêncio em memória aos mortos.


O resultado dessa leitura aleatória é, mais uma vez, como regra de uma movente porém constante identidade nacional, a descoberta do esdrúxulo e da bizarrice como marcas do país, nesse caso purulando do noticiário associado à pandemia. Eis, como exemplo, que o verbete “abaixar” (1/3: 778 mortes) chega a uma de tantas dessas notícias que expõe uma das inumeráveis lições educativas de “ação civilizatória” e terrorismo contra a ignorância como forma de sobrevivência na barbárie: “...quando a descarga é dada sem abaixar a tampa após a defecação, além dos coliformes fecais, o novo coronavírus pode ser suspenso no ar ou alcançar superfícies do ambiente” (Tecmundo, 17/6/2020).


A expressão “Cabeça-de-Porco” (3/3: 1.910 mortes), sinônima de cortiço, por estranha que pareça surge da roleta como o nome de um vereador, “como gosta de ser chamado”, certamente de uma disformia suína (que se pode confirmar por suas fotos) nominada com a habitual crueza que é própria da ralé e seu naturalismo sarcástico de sobrevivência em meio à miséria nas bordas urbanas do capitalismo. Abandonando as hipóteses, em uma pesquisa por esse nome se chega ao seguinte em um jornal (https://www.jlpolitica.com.br/coluna-aparte): “Aqui vale um pós-escrito: que quem não é de Itabaiana não estranhe o apelido de Cabeça de Porco dado a Sinvaldo Gois Teixeira. Isso é muito natural no campo da afetividade do povo itabaianense. Na cidade, raríssimos são os que têm uma vida reconhecida pelo integral nome civil. Os apelidos são soberanos. O deputado estadual e presidente da Alese, Luciano Bispo de Lima, MDB, por exemplo, é afetivamente chamado de Jeguinho. Motivo insólito: quando adolescente e batia babas era um fino corredor. Daí, tacaram-lhe o apelido”. E eis que se tropeça em mais uma estranheza altamente sugestiva, “bater babas”, que, ao rés do chão, significa jogar bola... Já Cabeça-de-Porco, o político, destaca-se pelo trabalho de substituição do Estado ao fazer intenso assistencialismo tendo até mesmo uma tropa de carros para o leva-e-traz da população aos hospitais e festas de entregas de ovos de páscoa e cestas de alimentação, representação típica de como se faz política no país.


Na roleta do dia 5/3: 1.800 mortes, dispara-se a curiosa palavra “eclusa”, que o senso comum, e no próprio dicionário, diria que se trata de “pequeno canal, em águas onde há grandes desníveis, a fim de possibilitar a descida ou a subida de embarcações”. Isso, porém, é bobagem, afinal, não nos esqueçamos, estamos no Brasil. Trata-se de uma ideia adaptada para o confinamento urbano como forma de fosso de castelo para se proteger dos bárbaros que deambulam na miséria desta Idade Média econômica e mental. O próprio texto encontrado na roleta diz por si mesmo o que é este país atual: “‘Os residenciais que lançamos neste ano já estão com reconhecimento facial, sistemas de controle de acesso e câmeras nas áreas comuns, segurança perimetral e olho mágico digital, por exemplo. E estamos projetando eclusas com acesso externo separado nos espaços de delivery, para separação dos fornecedores de entregas, diminuindo o fluxo nos edifícios e melhorando a segurança sanitária e patrimonial’ enumera ele’. (Estadão – 3/1/2021)”. Enumera ele... A coisa não para...


A palavra da roleta do dia 7/3: 1.086 mortes é “gado”: “‘Muito usado para gado’, diz Mandetta sobre ivermectina. (Correio do Estado – 8/7/2020)”, pescando-se a bala certeira dessa roleta-russa ao apontar, por um médico, como o Estado tratou a pandemia e a população (em vez de vacina, com remédio de gado) pela lógica do agronegócio em que se tornou o país, antes república de bananas, agora fazendão de gado e soja gerido por ignorantes armados, travestidos de discursos e uniformes militares e chapeludos posseiros de terras e de cofres estatais.


Juntemos agora dois verbetes para descrever a bacanal mental hegemônica: 8/3: 987 mortes – “harmônico” – “Lembrando que o decote – outro elemento presente na tendência da WGSN – também pode ser um grande amigo nessa tarefa, pois deixa um pedaço maior de pele à mostra, e o resultado é também mais harmônico. Então, nesse momento de quarentena por conta do coronavírus pode ser mais fácil resolver o look das suas reuniões: foca na parte de cima do corpo – a que aparece na webcam – e está tudo resolvido’ (Studio Immagine – 18/3/2020)”. 13/3: 1.997 mortes – “macilento” – “‘O quase idoso com comorbidades e o jovem forte e saudável foram dominados pelo vírus com a mesma violência, como se não existissem diferenças entre eles. Antônio chegou macilento e pálido. Thomas, bronzeado’. (Correio do Povo – 1/3/2021)”.


Conclui-se, assim, que, tendo deixado de lado a poesia (o que remeteria a Adorno, em sua assertiva sobre a impossibilidade da poesia diante do Holocausto), o tiro dado por Lucarezi com essa Roleta-russa, contra a barbárie, foi certeiro na medida em que, de forma criativa, afirmando a possibilidade da reflexão, desvelou com descrições excelentes o estado de coisas político e pandêmico.

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