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Sobre a poesia de Fernanda Spinelli

Por Vanderley Mendonça


Há uma coisa íntima na língua portuguesa que a torna bela, o perfume da flor da fala, essa última flor do Lácio que flora os bosques e aos pássaros alegram o canto em seu latim e assim que o poeta esteja por encontrar o que deseja: fazer da língua o seu ofício (que às vezes é sal ou salário), forjar o verbo. Não são palavras encobertas, desvairadas de sentido, que a todo momento mudam no tempo. São palavras que nos fiam entendimento, soam bem na boca porque se movem na razão.


Não há que se ler uma obra vasta para saber quem tem o dom da poesia. Fernanda Spinelli sabe a artesania do verso. Sua poesia é feita à imagem e semelhança de palavras que se não são raras, lhe são caras: amor e morte. Uma poesia filiada à tradição. Ecos de Al Berto, brincadeiras de Bandeira (“demissionária de atribuições românticas”).

IMAGO é o livro de poesia de estreia da editora Nauta e melhor escolha não haveria na poesia brasileira contemporânea.


O livro é um caudaloso rio versos que ecoa “os sons de todas as coisas”, em ritmo circadiano. Fotoperíodos do florescimento dos dias, luz sobre o que a autora vê e nomeia. E assim, dá vida mesmo a coisas que não têm vida.


Há algo de místico neste livro, no uso das imagens poéticas, como se ressonasse o “Epistolário espiritual para todos os estados”, de Juan de Ávila.


e, no céu da abundância, achei a miséria e, nela, a brecha,

a fissura do caule elementar —

em cada talo, um cavalo em elevação

flertará com deus, até ultrapassar a flecha Moira,

e enfim, à toa, ouvirá os sons de todas as coisas.

 

Há algo de mágico neste livro que fala de amor, uma linguagem de pássaros (chant dels aucèls) que cantam a canção cotidiana, expondo a dolorosa experiência do sentimento como escritura:


queres tudo e algo mais

tantos algos que salgas

te encher a cara d’água

e logo — minha alga

de estimação

mão abrir não

fim fechar sim

mais e mais sais

a gula mora ao lago

 

Há uma certa linhagem na poesia de Fernanda Spinelli. Ecos da “alma livre que se une ao incriado” de Marguerite Porete (Le miroir des âmes simples et anéanties). Ecos de Yourcenar, memória e duração. Ecos de Duras. Três margaridas que, como Fernanda, enxergaram no labirinto pessoal as referências para indagar sobre o fracasso do conhecimento quando interroga sobre o que é rigorosamente verdadeiro ou falso, sonho e realidade. Só a poesia tem o olhar pra ver o que não tem medida. Descascar palavras, arrancar-lhes sentidos e expô-las em versos é uma forma de amor, sobretudo quando o que se escreve é inspirado por alguém ou prometido a alguém.

 

Imago, último estágio da metamorfose, é a transformação da vida em poesia, única salvaguarda contra o falso e o verdadeiro, contra a mentira e a verdade, a estupidez e a inteligência, o fim dos julgamentos, a derradeira tentativa que poetas encontram para emergir nas entranhas do que não se sabe. E Fernanda emerge do seu caudaloso rio de imagens, para nos dizer que as palavras constelam a noite das coisas. E nunca sabem quem as espera.

 

 

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