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Sobre “Não”, de Augusto de Campos

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    jornalbanquete
  • há 5 horas
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Por André Dick


O livro NÃO, de Augusto de Campos, reúne poemas escritos de 1977 a 2002 (exceto um poema datado de 1953-2003) e apresenta uma capa com o enorme NÃO acompanhado por “poemas”, em letras douradas, contra um azul marinho, que, ao contrário do vermelho vivo de VIVA VAIA e do pano de fundo dourado de Despoesia, parece se associar a uma espécie de desesperança (este “des”, como em Despoesia, é vital). Dedicado a Lygia, e in memoriam, a Haroldo e a Julio Plaza, figuras essenciais de sua trajetória: a sua companheira; o irmão, também poeta referencial, e seu colaborador gráfico em projetos como Viva vaia e Caixa preta. Em NÃO, o poeta parece sintetizar todos os seus caminhos. E se mantém de acordo com o tamanho do livro e à organização do Despoesia, com o título numa página e o poema na outra.

Se antes o espaço era materializado no papel, agora só há “do nada do ninguém inascível” ao “início do ninguém do nada”, em “desmargem”:[1] há um certo afastamento da ideia de página como possibilidade, restando um vácuo. As palavras parecem não crer mais num espaço sideral, só no “céu de mentira” da página em “morituro”. No poema, quem saúda o poeta, do “lado de lá”, é o mesmo Mallarmé das “ex-estrelas” em braille. Ele é o “presente / do passado / que não muda”, “do céu / do futuro / que não mente”, o poeta “morituro” que lhe saúda, do céu cheio de constelações de Valvins. Sendo assim o presente, para Augusto, é imutável, e o céu, que abriga o morto, é o do futuro que não mente. Pode-se pensar que Augusto faz um contraponto entre “céu de mentira” e o “céu do futuro que não mente”, mas em ambos ele situa o “céu” como o da página. Mallarmé é o poeta que lhe traz essas “ideias-constelação”. Em “tour”,[2i] ele serve como guia turístico desse “céu do futuro”, com uma sonoridade provocativa (“catacumbas”, “tumbas” e “perturba”; “vindo”, “aqui”, “dizem”; “fim”, “lindo”; “mundo” e “barulho”), mandando, como pretendia Mallarmé, escritos da tumba:

 

Este certa impossibilidade poética no mundo moderno, para Augusto, reitera-se em “desplacebo”,[3] poema de 1977, ou seja, feito na época de Stelegramas. Nele, o poeta define seu caminho nos primeiros versos: “ouvir as pedras / quebrar os espelhos / até o último round / o último suspiro / se eu cair (pound) / não caio de joelhos”. Além da bela referência à música de Luigi Nono (“ouvir as pedras”) e ao “Salut” mallarmeano (os versos se organizam em forma de taça), Augusto desenha o poema que escreve como “último round” – por isso, talvez em “preoposições”[4] ele só não risque o vocábulo “contra”. Há uma ideia de algo incompleto na expressão., ao mesmo tempo: o “mur/mur” (io) e o “sus/sur” (ro), no poema “sub”,[5] que lembra o Bestiário, por seu trabalho vocabular mínimo (“meu diminuto ínfimo viver”).  


Como no poema “NÃO”, o poema “ferida”[6] transmite a ideia de impossibilidade da poesia, e isso parece destacado na orelha escrita por Arnaldo Antunes. Este acerta com precisão ao afirmar que alguns temas se repetem, mas há, para alguns, “novas soluções formais”. Os temas que se repetem assinalam, a meu ver, a melancolia da poesia de Augusto. Nos anos 70, quando escreveu “a flor flore / a aranha tece / o poeta poeta”, ou, nos anos 90, quando escreveu “estátuas estuam / tatos tatuam / sóis suam / luas aluam / nuvens nuam / meus tuam” (no poema “unreadymade”[7]), Augusto já poderia ter escrito “a cor / cora / a flor / flora / o rir / rói / o amor / mói / o céu / cai / a dor / dói”. É a “fer / ida / sem / ferida / tudo / começa / de novo”, pois a “ferida é sem ida”, nunca se extingue. Isso traz uma constante desautomatização da linguagem, outra boa observação de Arnaldo.


Mesmo porque também em NÃO há recuperações formais. O poema “sem saída” [8] contém uma certa autoironia, quando Augusto escreve: “Nunca saí do lugar”, ou “Não posso ir mais adiante”, ou “O caminho é sem saída”. A utilização da tmese de “sub” remete ao “bestiário”. “desespelho”[9] reduz o olhar humano ao “o” centralizado dentro do espelho, ao contrário do poema “espelho”,[10] em que havia a pergunta do objeto e a resposta do poeta (“o espelho me pergunta quem sou eu / ele não me reconheseu”). Na estrutura do poema “caos”,[11] só há as palavras “olho”, “pele”, “alma”, “raiz”, “flor” e “vida” em meio ao conjunto de “caos”.  


No belo “aqui”,[12] ele encadeia com precisão a “vista de fora” e a “vista de dentro” do ser humano (em que “ver-me” pode ser também “verme”, e o “vendo” pode ser tanto do verbo “ver” quanto dos verbos “vender” e “vendar”):

 

Aqui parado dentro de mim há nada que me leve a sair

Fora de mim sem saber como entrar para dentro da vida

De um outro lado me vendo sem me ver de fora ou de dentro

Olhando do avesso me vendo me ver por dentro e por fora

E olhando de outra parte vendo verme de fora de dentro

 

Os profilogramas e as intraduções continuam – este verbo indica a continuidade montada sobre uma estrutura de projeto permanente – sendo homenagens conscientes sobre arte pouco encontradas em outros poetas da modernidade. Entre os profilogramas, “gouldwebern”[13] é exato, sobretudo os versos finais: “o que toca mais rápido / o segundo movimento / um minutoan / oeo/ queparecemaislento”. A admiração de Augusto pela música de vanguarda – a contrapartida, ou melhor, complemento da questão do silêncio que se estabelece em muitos de seus versos – se faz presente também em “ruído”,[14] em que, no “som construído”, o vocábulo ruído aparece fragmentado, ao passo que, em “som destruído”, ele aparece inteiro, mas com as letras cortadas, incompletas, não inteiras como em “construído”.


Em NÃO, Augusto não transforma a poesia numa expressão para as últimas invenções da informática. Isso se acentuaria em Outro e Pós poemas.  Sua poesia resulta de uma subjetividade que procura a expressão diferente, mas que, nessa expressão, conserva também o “já dito”, visível na preferência por determinados temas, como o silêncio. A poesia que lida com o universo digital, hoje, acrescenta pouco às letrasets antigas, a não ser quando se fala em poemas em que se permitem movimentos às palavras e às imagens.


Os poemas a cores muito presentes em Outro e Pós poemas já foram realizados em Poetamenos, mas em NÃO, parece voltar à uma datilografia mais simples (como em “inutil idade”), brincando com o fato da “inutil idade da poesia”. Organiza poemas como uma confusão de grafites de rua (“aqui”), ao mesmo tempo que lança o vazio do sofrimento em letras vazadas (em “oco”) e coloca letras dentro de pedras, que viram catacumbas (em “tour”). Poemas em forma de ideograma (“em “lobograma”), ou de rascunho infantil (“borboleta de khliébnikov”) se meclam a outros com palavras dentro de quadros em preto, vermelho e branco (em “judith”), ou ao redor de um rombo que acaba com o quadrado (em “maurício”). O livro, em seu luxo visual, ganha um contraponto: parece tão primitivo quanto a palavra em “célula viva” que Augusto entendia ser um dos objetivos principais da poesia concreta. O possível luxo que poderia fornecer a informática não atinge a poesia de Augusto, e nisso ela se mantém fiel a essa rarefação que foi a poesia concreta em seu momento principal, nos anos 1950.


A tecnologia em Augusto, apesar de adequada às escolhas que ele faz quanto à distribuição gráficas das palavras e a tipologia digital (eu chamaria “tipografia digital”), não tira de seu trabalho o aspecto de tradição. Não por acaso, no poema “não”, que dá título ao volume, Augusto coloca dentro de quadrados que lembram dados (do “lance” de Mallarmé). NÃO comprova que o verso não acabou: o que acabou foi a necessidade de dispô-lo linearmente na página.


Por isso, a posição de Augusto no prefácio ao livro Linguaviagem é a mais coerente com o que produziu a teoria da poesia concreta. Dizia lá que, “para além da tipologia das novas linguagens que a poesia concreta introduziu, precipitando reações epidérmicas em cadeia”, foi mais importante “a postura ético-poética, levada ao limite do quase silêncio pela linhagem Mallarmé-Valéry, dividido entre os meros restauradores do passado e os diluidores de uma suposta e complacente  ‘alma lírica brasileira’ – para circunscrever a reflexão ao nosso meio”, com as exceções de Oswald e João Cabral”. Se levarmos em conta sua frase em 1987, ano em que lançou Linguaviagem, certamente ela não sofria o influxo, ainda, da tecnologia revolucionária que passou a dominar o mundo a partir dos anos 1990 e Augusto pode ter mudado de ideia. De qualquer modo, o grande legado da geração concreta, a grande conquista, foi não o trabalho que indicou a novas tecnologias, mas sua ética de linguagem.


A poesia de Augusto, consequentemente, é influenciada por Mallarmé, Rimbaud, Cage, pelos provençais, por artistas plásticos, músicos etc. – o passado visto agora. É uma poesia “impura”, uma poesia que filtra uma tradição, desconstruindo e reconstruindo o seu próprio rastro de passagem, talvez por mediar uma ligação entre a poesia concreta e a “tradição” de autores que buscaram a ruptura que a precedeu – para, no fim de seu movimento, fazer parte da “tradição da ruptura”, uma poesia que, através do silêncio, o nega e o torna “polifonia” – mesmo que na contracorrente


Assim, ele parece resumir tudo em “fim de jogo”,[15] assinalando a transitoriedade da existência anulando-o pela figuração de um jogo: “f / i / m / de / jogo / acabou / a partida / vivente nato / que fazer da vida / fogo / fátuo / ?”. O “fátuo” representa essa transitoriedade, essa fugacidade própria da poesia, ligando-se ao “vivente nato” de Despoesia.

 

* André Dick é autor dos livros de poesia, Grafias (Instituto Estadual do Livro/CORAG), Papéis de parede (Funalfa Edições/7Letras), Calendário (Oficina Raquel) e Neste momento (Kotter Editorial). É doutor em Literatura Comparada, com tese sobre a obra de Mallarmé.

 

 


[1] CAMPOS, Augusto de. NÃO. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 41.

[2] Ibidem, p. 113.

[3] Ibidem, p. 17.

[4] Ibidem, p. 43.

[5] Ibidem, p. 49.

[6] Ibidem, p. 47.

[7] Idem. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994, p. 115.

[8] Ibidem, p. 115.

[9] CAMPOS, Augusto de. NÃO. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 59.

[10] Idem. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994, p. 119.

[11] Idem. NÃO. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 61.

[12] Ibidem, p. 115.

[13] Ibidem, p. 73.

[14] Ibidem, p. 57.

[15] Ibidem, p. 121.

 
 
 

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2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

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