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Sobre “Poetamenos”, de Augusto de Campos

  • Foto do escritor: jornalbanquete
    jornalbanquete
  • 22 de fev.
  • 4 min de leitura

 

Por Djavam Damasceno



Os poemas que integram a série Poetamenos figuram entre as experiências poéticas mais singulares realizadas ao longo da segunda metade do século XX. O conjunto – composto entre 1952 e 1953 por Augusto de Campos aos seus vinte e poucos anos – implode a linguagem poética corrente e, de seus fragmentos, aponta para todo o potencial semiótico da palavra inscrita sobre a página.


Tudo concorre para uma opacidade sígnica que espanta e desencoraja qualquer empreitada de leitura linear mais convencional: fragmentação sintática e morfológica, policromia, plurilinguismo, neologia, justaposição paratática e tantos outros recursos concentrados em apenas seis poemas curtos de mote amoroso. Essa estranheza é índice de uma recusa em oferecer um significado acabado e transparente ao leitor. Cabe a ele organizar estratégias que possam ordenar, ainda que provisoriamente, a convulsão de formas que aí se apresentam. Quebra-se, assim, um protocolo de leitura lastreado no automatismo perceptivo e abre-se espaço para que a linguagem, em sua materialidade concreta, emerja ao primeiro plano da experiência.


Esse gesto insubmisso de invenção construtiva parece ser mediado, como aponta o texto introdutório à obra1, por um desejo de produzir, na linguagem poética, uma equivalência com um dos nomes centrais da música experimental europeia: Anton Werben. Nesse sentido, Poetamenos pode ser compreendido como uma transcriação intersemiótica da radicalidade da música serial do compositor vienense, especialmente do princípio da Klangfarbenmelodie (melodia de timbres) (1).


Na música de Webern, a melodia contínua é substituída por um espraiamento de sons no espaço sonoro; cada nota é atribuída a um instrumento diferente, fragmentando a linha melódica e deslocando-a entre timbres, de modo que a unidade não é dada pela continuidade linear, mas pela articulação descontínua que descentraliza a emissão, “uma melodia contínua deslocada de um instrumento para outro, mudando constantemente sua cor” (CAMPOS, 1973).


Augusto procura produzir efeito de sentido semelhante. Tendo como instrumentos todo o material linguístico – “frase/palavra/sílaba/letra(s)” –, o poeta procurará desarticular a linearidade verbal ao projetar sobre ela um princípio de descontinuidade.


Se a língua se realiza em sucessão temporal, o poeta aqui procurará sustê-la, fragmentando-a e espraiando na página. Ao quebrar a sintaxe e isolar os componentes da palavra, ele cria múltiplos focos de tensão e suspende o fluxo discursivo. Essa operação permite que cada fragmento – uma cor, uma sílaba, um som – adquira autonomia perceptiva, tal como uma nota isolada na música de Webern, cujo valor está tanto em sua própria sonoridade quanto na tensão que ela estabelece com os elementos que a circundam.


Aqui cabe falar da estrutura policrômica dos poemas, característica pela qual talvez o conjunto seja mais conhecido. Inspirado pela melodia de timbres de Webern, Augusto de Campos utiliza as cores como se fossem diferentes timbres ou vozes instrumentais. Cada cor agrupa fragmentos de palavras, sílabas ou letras em uma unidade organizada de leitura, ainda que descontínua. Dessa forma, o leitor pode seguir cada um dos blocos cromáticos e perceber como essas diferentes vozes se sobrepõem, se interrompem e dialogam no espaço da página. A cor, portanto, cria uma sintaxe paralela, não linear, que substitui a lógica gramatical tradicional. Ela guia o olho, organiza o ritmo e permite que múltiplas camadas de sentido coexistam simultaneamente, transformando o poema em uma espécie partitura visual cuja complexidade só se revela através da percepção de sua estrutura cromática.


Todo esse intricado jogo de inter-relações semióticas, para além da pesquisa formal desinteressada, pode ser lido como resultante de um embate de outra ordem: a vontade de expressão lírica e a impossibilidade de representação por uma linguagem já desgastada. Em última instância, Augusto de Campos procurar dar conta poeticamente de sua relação amorosa com Lygia, sua companheira por mais de 70 anos.


Nesse sentido, a radicalidade formal seria uma tentativa de equalizar o meio de expressão àquilo que está sendo por ele representado. O impacto da presença de Lygia é de tal ordem que a linguagem poética tradicional, com seus clichês e sua sintaxe previsível, se revela impotente, incapaz de dizer a amada sem traí-la, sem empobrecê-la em sua dimensão sensível. A única saída é, portanto, um exercício sistemático de violência semiótica que possa tornar a linguagem mais apta a essa mimese. Só ao entrar em contato com esse tumulto significante é que o leitor poderia experenciar algo análogo ao convívio entre o poeta e sua amada.


É curioso o modo como são esses poemas de amor uma das primeiras manifestações do esforço coletivo de invenção que culminaria na poesia concreta, movimento que se caracteriza pelo sistemático apagamento elocutório do eu.


Enquanto  Augusto de Campos forjava uma nova linguagem para dizer Lygia, ele o fazia em constante diálogo com seu irmão Haroldo e com Décio Pignatari. Nesse mesmo período, o trio, que formava o grupo Noigandres, compartilhava leituras, traduzia autores e debatia intensamente os rumos para uma renovação da poesia brasileira. Portanto, em Poetamenos já se vai cristalizando, de forma pioneira e radical, aquilo que caracterizaria a produção coletiva do grupo. Nesse sentido, a obra funciona como um laboratório em que as intuições que circulavam entre os três poetas – a valorização do espaço gráfico, a crítica ao verso discursivo, o rigor construtivo – encontram sua primeira grande realização prática.


Poderíamos dizer que, ao compor Poetamenos, Augusto retorce a linguagem, transcria a música sem igual de Werben e, de certo modo, inventa a poesia concreta. Isso para poder dizer sua amada. Para poder dizer Lygia. Fazer sensível na linguagem o impacto de sua presença. No fim, Poetamenos é um grande poema de amor no qual Augusto nos diz que, sem Lygia, a história da poesia no Brasil seria outra, sem tantas invenções tocadas por sua presença.


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* Djavam Damasceno é mestre em linguística pela Universidade Federal do Ceará. É autor de duas plaquetes de poesia: sem título ( A literação, 2017) e Um pássaro e outros nomes (Editora Fictícia, 2023). Tem poemas publicados em algumas revistas e antologias. Ensina, pesquisa e escreve textos em Fortaleza.


Nota


(1) A introdução a Poetamenos inicia-se do seguinte modo: “ou aspirando à esperança de uma KLANGFARBENMELODIE (melodiadetimbres) como em WEBERN” (CAMPOS, 1973).

 

 

 

 
 
 

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