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SOBRE TERATOMA

Por Ricardo Pedrosa Alves


“Fogo no Logos. O mural vai ficar incompleto. Preciso escrever mais um pouco (só se escrever mais um pouco, sempre): Escuro é o silêncio do olho. Transcrição: Plano de mural+romance de autoria de Antonio Inácio Pires de Albuquerque Pereira. Narrador onisciente conta a história de Inácio. Inácio quer pintar um mural que entrelace o Eu ao Brasil. Ele pinta sua história familiar e sua própria biobibliografia. Sua grande questão diz respeito às mulheres, ao pai e à droga. Mas há também outras duas problemáticas: a da impessoalidade, que quer discutir pornografia, filosofia e droga; e a do diário, compondo um envoltório de signos, manta de retalhos ambíguos, em que se objetiva o tempo humano da pintura. Apesar dessas duas criações imagéticas terem o mesmo peso das outras três (supostamente, mais narrativas), são diferentes, sendo a primeira mais digressiva e lírica, e a segunda mais descritiva. Quanto ao andamento do mural, há uma inversão entre o início e o fim. Se, no início, o narrador onisciente abre o mural, ao fim ele deverá ter se transformado no próprio Inácio. Além disso, a partir da dissolução do narrador na personagem-narrador, é a esta que cabe fechar o mural, já em primeira pessoa. O romance dentro do mural é escrito por Inácio, meu alter ego: narrar em terceira pessoa sob tom cômico, satírico. As seis partes intituladas Rlinha: R’... são o fim dos capítulos do romance; cada capítulo contendo também três outras “partes” (P, P’número, P’letra), à exceção do último, onde só haverá a adição de um dos “jatos” (P6) de Inácio. Ex.: “Inácio de tal tinha quarenta anos e estava tentando perder peso e inconsciência no Instituto Público. Ele até conseguira emagrecer um pouco, mas nos últimos dias vinha progressivamente evitando o espelho. Ele sabia estar cada dia mais inchado.” Ele pinta um mural, em jatos, não em capítulos: estes jatos são induzidos por meio begue, vinte minutos de filosofia, quarenta minutos de pornografia. Cada jato narra a vida do piazinho, que começa com uma remissão absurda ao passado, coincidindo com a fundação de sua vida (Inácio), no Brasil: isto é, com seus primeiros antepassados NO Brasil. Rapidamente, uma vez que não há história, ela é apanágio da aristocracia, esta narrativa chegará aos pais de Inácio. Aí terminará a primeira parte. A segunda parte é a da vida dos pais de Inácio até sua concepção, bailinhos do Roberto Carlos e contar o dinheiro que falta num lado e o dinheiro que sobrou no outro. A terceira parte compreenderá da concepção até nascimento (não há uma linha sobre isso, logo...). A quarta parte será a da infância de Inácio até a perda da virgindade. A quinta parte será a do casamento de Inácio. A sexta parte trará Inácio até o presente (em tal parte, supomos, mas também “propomos”, o livro nunca terminará...), concluindo o mural. Essas partes (1,2,3) serão narradas em terceira pessoa. Essas outras partes (4,5,6) serão narradas em primeira pessoa. Haverá cinco partes linha número: P’1.... P’números introduzirão o presente de Inácio, com ele discutindo a pornografia, o begue, a filosofia em relação àquela ocasião. São as partes sem sujeito do narrador, sem artigo. Ex.: “Baseados acesos, cauterizando coxas, acidentalmente. Cinzas estúpidas. Acaso a palavra acesa.” Haverá também cinco partes linha letra: P’a... P’letras são as partes em que entra uma espécie de diário de Inácio sobre seus pais, seu filho, suas mulheres, o fim da vida sã no Sítio Cercado: esta parte será um diário objetivo (passível de transubstanciação lírica, porém) (a definir). Teríamos a sequência: ( ) Esta ordenação narrativa desenvolve-se na seguinte enunciação: [vai em falso o giro cego purgatórico do dedo no nariz do país dos pais e forma uma bolota e joga na saliva e engole e a cobrinha espermática fecunda o ovo do país dos pais e choca-se o ovo debaixo do cheiro de chapéu de Minas mas é couro de anta mesmo e o teratominha Inácio e-nasce perto do pé-de-laranja na barriga da pessoa das sementes de laranja que ela engoliu na infância lá na casa do paraíso dos pais e dos amigos e das amadas e dos sorrisos e uma árvore genealógica cresce ali e os avós vivem desbravam e morrem no Brasil e um raminho daquela literatura que já é um raminho da literatura europeia e ele vai, o raminho, se solta do galho e fica delirando nas formas mundiais no redemoinho fluido do mercado de capitais as pessoas sorrindo lindas nas propagandas.(...) sem memória e sem história o tempo dos subalternos é o do instante gozoso, o “me acabar”, mas mesmo assim fica aquele cheirinho do pé-de-laranja que tinha perto, lembra?, e o teratominha então se acaba mas com perfume e sabor e uma historinha da criança ainda persiste portanto fazendo a dor mais doce o suor menos salgado o sonho menos desastrado e o país sorri pela última vez paiol com molotovs nos dentes e explode ou a criança mesmo o Inácio é que se fode?] (narrativa da vida de Inácio no Brasil)+terceira pessoa (narrativa sobre Inácio e sobre ele escrever um romance)+impessoalidade (sem narrador)+diário do cotidiano (terceira pessoa, mais plural): primeira pessoa+terceira pessoa, indireto livre, primeira pessoa (progressivamente). Exemplo: “O pintor Inácio de tal tinha quarenta anos e estava tentando perder peso e inconsciência no Instituto Público. Ele até conseguira emagrecer um pouco, mas nos últimos dias vinha progressivamente evitando o espelho. Ele sabia estar cada dia mais inchado...” (p. 249-251).




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