Transcriação alquímica: “Rimbaud livre”, de Augusto de Campos
- jornalbanquete

- 22 de fev.
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Por Danilo Bueno
Augusto de Campos (1931) é um dos maiores poetas brasileiros, tanto do século XX quanto do XXI, já que continua ativo e relevante em sua produção poética, notadamente pelas postagens no seu perfil do Instagram (https://www.instagram.com/poetamenos) e pela recente edição de Pós poemas (Editora Perspectiva, 2025). Além de ser poeta reconhecido e nodal para a compreensão da linha do tempo da poesia contemporânea, a atuação de Campos atravessa outras amplitudes, como a crítica, a teoria, o design, a pesquisa multimídia, a curadoria de edições e a tradução. É justamente sobre a tradução que esse texto se interessa, aliás, a tradução de um dos maiores gênios universais: Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta que abalou a escrita da poesia francesa na segunda metade do século XIX.
Em Rimbaud livre, o projeto gráfico elegante dialoga com a modernidade e atualidade do poeta francês, seja pelo uso das cores, como na tradução criativa do soneto “Vogais”, em dísticos, reintitulado “Rimbaud Rainbow”, simulando um arco-íris, estampado na quarta-capa; seja pelo uso da fragmentação visual, que enriquecem a plasticidade do volume, em uma espécie de tradução icônica de Rimbaud, transformando-o em um estimulante poema-objeto, perpassado por ensaios visuais e sobreposições. Com esse uso das cores e da fragmentação, o perfil do poeta francês chega ao leitor atual ressignificado, aberto para outras derivas e absorções.
Esse projeto gráfico, ainda, dramatiza a escrita rimbaudiana, em consonância com a proposta do poeta francês da busca do “desregramento de todos os sentidos”, lema central de sua poética. Assim, ao mimetizar-se o rosto do poeta, no que se chamou de “iluminações computadorizadas”, feitas por Augusto de Campos e Arnaldo Antunes, mostra-se que o sentido se dá por atrito entre formas, perspectivas e suportes, em uma perspectiva totalizante. Essa sequência de rostos de Rimbaud não proporia, de algum modo, a diversidade de poetas dentro do próprio poeta? Não seria uma forma de contribuir para o enigma Rimbaud? Pode-se pensar no perfil mítico, biográfico, experimental, esotérico, textual etc. A introdução assinada por Campos já crava a resposta: “Há muitos Rimbauds em Rimbaud. ‘EU é um outro’, disse o poeta” (CAMPOS, 1993, p.13).
Além da riqueza gráfica, a ideia cara ao concretismo de “transcriação” é colocada em prática, com perícia e criatividade incomparáveis, na tradução de dez poemas do autor. Não há espaço para servilismo ou ornamento, a tradução é “livre” para mudar a sintaxe, a disposição das rimas, o vocabulário, sem, no entanto, perder o principal de vista: a densidade da imaginação de Rimbaud. A tradução conserva o frescor e a beleza dos poemas, fazendo soar em português brasileiro versos contemporâneos, vivos, radicalmente atuais, como no início do famoso soneto “Vogais”: “A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais:/ Ainda desvendarei seus mistérios latentes”[1] (CAMPOS, 1993, p. 37). No primeiro verso, a equivalência cromática não é mecânica, mas seletiva e rítmica: a escolha de “rubro”, em lugar do mais usual “vermelho”, intensifica a densidade sonora do verso e preserva a vibração simbólica de rouge, além de reforçar a gravidade quase ritual da enumeração vocálica. A manutenção da ordem das vogais e da sintaxe paratática garante a estrutura formal do original, central ao projeto sinestésico de Rimbaud. No segundo verso, “Ainda desvendarei seus mistérios latentes” desloca o literal “Je dirai quelque jour” para uma formulação mais enfática e prospectiva, convertendo a promessa futura em ato interpretativo, além de desafiadoramente acrescentar a palavra “mistérios”, que vibra intensamente no poema. O verbo “desvendar” explicita o gesto crítico-poético oculto em Rimbaud, para que a leitura se dê como revelação. Assim, a tradução não replica o texto francês, mas reencena seu programa estético, em um português sonoro e acessível.
Outro exemplo belíssimo de transcriação:
A estrela chorou rosa ao céu da tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.[2]
(CAMPOS, 1993, p. 39).
A quadra constitui um exemplo de equivalência semântica, modulação rítmica e intensificação imagética, sem renunciar à violência simbólica do poema. Em termos gerais, Campos mantém a disposição gráfica: quatro versos paralelos, cada qual associado a uma cor e a uma zona do corpo, preservando o eixo sinestésico que estrutura o original. No primeiro verso, “L’étoile a pleuré rose au cœur de tes oreilles” torna-se “A estrela chorou rosa ao céu da tua orelha”. O deslocamento de cœur para “céu” não é literal, mas funcional: “céu” amplia a verticalidade simbólica da imagem e reforça a dimensão cósmica do corpo, mantendo o campo semântico do sublime. Trata-se de um ganho poético que não rompe a lógica rimbaudiana, mas a reverbera em português.
No segundo verso, a solução “O infinito rolou branco, da nuca aos rins” traduz com rigor o movimento contínuo de roulé blanc, preservando tanto o verbo de deslocamento quanto a ideia de extensão corporal. A escolha sintática em português intensifica a fluidez do percurso, favorecendo a leitura como deslizamento sensorial, essencial ao poema.
Já o terceiro verso mostra uma transcriação refinada: “La mer a perlé rousse” torna-se “O mar perolou ruivo”. O verbo “perolar”, raro e preciso, mantém o valor de perlé, enquanto “ruivo” recupera a ambiguidade cromática de rousse, mais próxima de um vermelho orgânico do que de uma cor pura. O acréscimo de “teta vermelha” explicita o erotismo latente sem ultrapassar o limite simbólico do original.
Por fim, “Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain” é vertido como “E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris”. Aqui, a transcriação atinge seu ponto mais interpretativo: “flanc souverain” é transposto para “altar dos teus quadris”, operação que sacraliza o corpo e condensa, numa imagem única, erotismo, sacrifício e poder. Deste modo, essa transcriação busca a reencenação do sistema simbólico do poema, pois Augusto traduz o modo de funcionamento do texto rimbaudiano: sua lógica sinestésica, sua corporalidade cósmica, sua violência visionária, produzindo um poema em português que é, ao mesmo tempo, tradução e criação, no mais alto grau poético.
Para além da perícia transcriativa, há de se notar também uma semelhança forte entre o tradutor e o traduzido. A postura irreverente e crítica de Augusto de Campos, conhecido pelo gesto do “não me vendo”, em uma trajetória fundada pela recusa radical da facilitação poética, bem como pela negação da cultura como mercadoria esvaziada no consumismo hipercapitalista, se alinha com o gesto peremptório do poeta francês em “reinventar o amor” e enterrar os cacoetes parnasianos. Ambos são constituídos pela altura desse gesto de escolha que abarca um caminho essencialmente crítico. Pode-se dizer, então, que em ambos os poetas a crítica ao mundo que os circunda seria o ponto central que os antecedem, criando uma área de atuação de perfil categoricamente exigente com os seus contemporâneos, como a busca de um espaço qualitativo em meio ao diletantismo e a mediania heterogênea da produção poética. A beleza difícil, alquímica, sem concessões ou pequenas barganhas de círculo literário.
Outra relação forte entre ambos seria a aproximação à vanguarda. Rimbaud, de uma forma mais selvagem e orgânica, empurrava o parnasianismo, o simbolismo, e o tardo-romantismo para outras searas, que o faziam chegar ao século XX, inclusive com toques que iluminaram algumas ideias de André Breton (1896-1966) no Surrealismo da década de 1920. É comum dizer que Rimbaud foi um proto-surrealista, bem como teve uma postura de vida próxima à ideia de aventura, valor muito caro aos surrealistas. Da mesma maneira, Augusto, desde meados de 1950, com a poesia concreta, elevou e refinou a discussão sobre poesia no Brasil e no mundo, chegando a afirmar de forma jocosa e desafiadora a morte do ciclo histórico do verso, substituindo-o pelo eixo verbivocovisual do Concretismo. Ambos são poetas de choque, que reivindicaram, em épocas diferentes, novas formas de se pensar e viver a poesia, sem precisar diminuir o nível da discussão, sem abrandar o calor poético de suas criações, chegando, assim, ao patamar raro da ética ao viverem e propagarem suas convicções.
A partir dessa tradução, deve-se pensar Augusto de Campos não por sua honorável longevidade, nem apenas pelos prêmios e homenagens recebidos ao longo de uma trajetória de mérito indiscutível, mas, sobretudo, por sua capacidade de promover o pensamento, a discussão e a beleza poética – e, por que não, uma leitura ativa, crítica e instigante de Rimbaud. Viva o pensamento livre de Augusto de Campos, grande poeta e camarada brasileiro!
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* Danilo Bueno (1979, Mauá/São Paulo) é poeta. Coordenou cursos livres de literatura e oficinas de criação poética no Centro Cultural de São Paulo (CCSP), no Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e no SESC. Veiculou poemas, ensaios e resenhas em revistas e páginas eletrônicas do Brasil e do exterior. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, tem mestrado e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). É professor de filosofia do direito, literatura e xadrez escolar na rede privada em São Paulo.
Referência
CAMPOS, Augusto de. Rimbaud Livre. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993.
Notas
[1] No original: “A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,/ Je dirai quelque jour vos naissances latentes”.
[2] No original: “L’étoile a pleuré rose au cœur de tes oreilles,/ L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins/ La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles/ Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain”.





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